quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O ZEZINHO PERANTE HUGUINHO E LUISINHO

A presença permanente de Hugo Soares (HS) no espaço público português diz tudo sobre o estado de delirante perturbação a que chegamos. Claro que se trata da “bolha”, já que os cidadãos e eleitores estão largamente a leste da questão, ou seja, da chicana partidária e da política governativa, contanto que não lhes seja posto em causa o emprego (cujo nível está em fase de recordes), que os salários e as pensões estejam assegurados, que a classe média continue a pagar as contas do Estado (mesmo que sob protesto e cada vez mais comandada por derivas populistas anti Estado), que os transportes se vão tornando gratuitos, que vão surgindo apoios específicos em algumas áreas (habitação, nomeadamente), que as grávidas deem à luz e os idosos não durem tempo demasiado e por aí fora. Neste quadro, HS é uma espécie de “pronto-socorro” ou de “pau para toda a obra”, sendo admirável a sua versatilidade para se apresentar a toda a hora em qualquer canal televisivo ou ação laranja a perorar sobre todo e qualquer tema que a atualidade ou a tática lhe imponha, ademais com uma expressão facial convenientemente ajustada à circunstância (sorridente, zangado, sério, provocador, indignado, etc.) e sempre na defesa intransigente da sua dama montenegrista contra quaisquer argumentos adversos vindos do passismo, do venturismo ou do carneirismo – as contradições discursivas ficam afastadas pela própria dinâmica do corrupio, a qual determina um prazo de validade bem delimitado e curto para que as verdades hoje vigorosamente afirmadas sejam esquecidas amanhã e, portanto, passíveis de substituição à medida do interesse maior de uma agenda em incessante renovação.
 
Nunca os portugueses perceberam bem a razão pela qual HS não está no Governo e não é o número dois de que o primeiro-ministro tão carecido se mostra (Rangel é demasiado focado em si próprio e não possui a energia estonteante de HS); aliás, ainda ontem ouvi comentadores da CNN a defenderem a ideia de que essa deveria ser a matriz principal de uma desejável remodelação governativa eficaz e de sentido estratégico. Há quem diga que HS terá os seus “esqueletos no armário” e, portanto, senhor como é de uma fina inteligência prática, se contenta com uma envaidecida ostentação de poder (à séria e com os respetivos salamaleques e vénias) sem se obrigar aos escrutínios de transparência que cada vez mais condicionam os políticos em atividade executiva mais visível.



Mas, há que dizê-lo com frontalidade, o papel que HS aceitou desempenhar só não é verdadeiramente duro e até insuscetível de uma representação continuada porque vivemos neste país desligado, sem elites exigentes, com uma população que privilegia o fácil e o “venha a nós” (com pitadas de tempero piroso e de mau gosto) e apenas dispõe de uma comunicação social em condições de manifesta fragilidade e meramente capaz de cumprir mínimos. Neste quadro, HS é o escudo protetor de Luís Montenegro, a primeira linha de um enfrentamento que permite ao primeiro-ministro salvaguardar-se no silêncio (com a adicional ajuda de marketeers e do aureolado Bugalho) ou numa experiente verborreia de advogado assente em sucessões vulgares de imagens e sinónimos que o dispensam do tratamento substantivo dos assuntos ou lhe disfarçam as trapalhadas (recordam-se dos incidentes em torno da reforma laboral?). E assim vamos, não tanto porque “as pessoas estão exaustas dos políticos que não querem fazer nada” (como disse Passos) mas porque os políticos que temos são autênticos reformistas de boca cheia e peito vazio (veja-se a inenarrável proclamação de Montenegro no Pontal sobre o seu objetivo de “fazer uma década à Cavaco”!) que pouco mais visam do que a estrita defesa da preservação do cargo e da consequente influência e mando que o mesmo proporciona – e quem vier depois, que se amanhe!

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