sábado, 6 de outubro de 2012

UMA QUESTÃO DE CHAPÉU


Há por aí certas figuras que, algo incompreensivelmente, se prestam a bem tristes papéis! Sobretudo porque parecem acreditar piamente na sua capacidade para testar/despistar a atenção dos seus compatriotas ou, o que é pior, para fazer deles estúpidos.


Luís Marques Mendes é, a este nível, um verdadeiro caso de estudo. A última: em finais de setembro, elogiava o Governo e comiciava militantemente por Berta Cabral nos Açores; no início de outubro, comentava criticamente na TVI as medidas governativas (“Isto é um assalto fiscal. Isto não é um agravamento fiscal, nem um aumento fiscal enorme como dizia o ministro das Finanças, isto é uma espécie de assalto à mão armada ao contribuinte.”) e o seu funcionamento (“o que me preocupa, sim, é ter um ministro da economia que é um défice colossal”).


Não haverá alguém que lhe diga, recordando Joe Cocker, “you can leave your hat on”?


AINDA O CONGRESSO DEMOCRÁTICO DAS ALTERNATIVAS



Analisar o alcance do que sai do CDA pelos ecos que a iniciativa teve na imprensa escrita e on line pode ser uma via fortemente enviesada para o fazer. Aquilo que a página do congresso designa de memorável não alinha de facto com a cobertura mediática do acontecimento. É um desvio conhecido, pois os nossos jornalistas de serviço trabalham em função de um critério de aferição do que é relevante que não tem nada a ver com a importância intrínseca das coisas. Mas convém recordar que é por essa via truncada e enviesada que as ideias são comunicadas à população portuguesa. E, mesmo assim, o Público de hoje dedica-lhe duas páginas em espaços de grande nobreza no jornal, o que nos tempos que correm não é coisa pouca.
Mas, em meu entender, o que sai efetivamente dos ecos do congresso é fundamentalmente uma frente de alinhamento com uma alternativa de protesto, balizada por duas ideias essenciais, a denúncia do memorando da Troika e na expressão de Carvalho da Silva o pedido de um “ato coletivo de afrontamento”. É pouco e pouco convincente, sobretudo porque em matéria de retórica do protesto a do PCP e do Bloco é mais eficaz. Por outro lado, a ideia que terá perspassado pelas cabeças de organizadores como José Reis ou João Rodrigues é a de forjar um movimento de ideias que cavalgue a amálgama de protesto que se materializou nas manifestações de 15 de Setembro. Para isso, o Congresso não terá sido necessariamente memorável.
Na reportagem do Público, não há estranhamente uma palavra sobre a intervenção que terá sido mais incómoda, a de João Ferreira do Amaral. Não há denúncia possível do memorando a não ser num quadro de saída preparada e negociada do euro. Esta parece-me ser a questão central a ser discutida, sem dramas e esgrimindo bem as alternativas. Por outro lado, nem uma palavra sobre a intervenção de Jorge Bateira, que terá ido, admito-o, na mesma direção. Do projeto de declaração e dos ecos a que me refiro não há ainda uma reflexão sequer sobre o que é que o movimento pensa da empresa como célula fundamental de organização da atividade económica.
A continuidade do movimento exige focagem destas questões.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

CONGRESSO DEMOCRÁTICO DAS ALTERNATIVAS



Em dia de 5 de Outubro comemorado com o recato que o isolamento atual do poder justifica e, como tudo nos acontece, com bandeira hasteada de cabeça para baixo (simbolismo dos tempos), tivemos também o Congresso Democrático das Alternativas na Aula Magna.
À distância, apenas com o texto provisório da declaração final nas mãos e algumas notícias dispersas sobre participações ao longo do dia, é difícil fazer um juízo crítico e aplicar ao que sai desta iniciativa a dicotomia alternativa de protesto versus alternativa de governação.
Para ter algum impacto político, parece-me que uma declaração de 16 páginas é excessiva e dificulta a identificação de ideias que possam ser entendidas como contributos sérios para as desejadas alternativas. O texto que li é um documento tipo “Estados Gerais” do PS, ainda pouco trabalhado do ponto de vista que efetivamente hoje interessa aos Portugueses, preocupados com a sua situação e com o seu futuro – alternativas de governação.
Mas, pelas notícias dispersas que me chegaram via imprensa eletrónica até à hora em que escrevo, parece-me que foi João Ferreira do Amaral a colocar a questão fundamental. O projeto de declaração aposta forte na denúncia do memorando da TROIKA e na reestruturação da dívida, partindo de uma constatação que é cada vez mais consensual de que a via austeritarista é autodestruidora da própria terapia e, mais grave do que isso, do país e da sua capacidade de se reinventar. Ferreira do Amaral contraria essa posição e duvida da exequibilidade da denúncia do memorando no quadro do Euro. Contrapõe por isso uma saída preparada e negociada do Euro como a única alternativa possível. Já no 1º congresso Economia com Futuro Ferreira do Amaral tinha avançado com essa tese e tem moral para isso, pois foi um dos raros economistas incomodados com a criação do euro nos termos em que essa criação estabeleceu a paridade com o escudo.
Parece-me que esta é a questão certa para forjar um debate sério sobre alternativas. O projeto de declaração, apesar da sua extensão desfavorável, tem ideias relevantes e talvez a principal seja a de não dissociar a questão da alternativa ao plano inclinado da austeridade a todo o preço da abordagem global à indeterminação que grassa sobre a zona euro. Elas são indissociáveis, pois cada programa de resgate ignora duas coisas: o contexto global recessivo em que a economia europeia está mergulhada e o que resulta de não termos um programa de resgate isolado dos demais, mas evidentes interações entre a dinâmica de efeitos que tais programas acarretam. E não é só a questão da contiguidade geográfica – Portugal e Espanha, Grécia e Chipre, por exemplo. É o ambiente de contágio que a sucessiva entrada de economias em situação de resgate financeiro implica. Nessa medida, o projeto de declaração vai na direção certa. Mas para uma abordagem desse tipo, discutir a miopia europeia exige uma mediação política que não pode deixar de ser de governação.
O projeto de declaração é omisso sobre a questão do euro (é nesse quadro que se propõe a denúncia do memorando da Troika?), mas é também omisso sobre o que pensa das razões que levaram ao resgate financeiro.
A proposta de Ferreira do Amaral é séria e exige uma ampla discussão, pois é central a todas as outras matérias. Não pode ser ignorada por qualquer abordagem alternativa de governação a propor aos Portugueses em próximos escrutínios democráticos. Tenho muita dificuldade em antecipar o que será um cenário de saída preparada e negociada do euro, mas tenho de reconhecer que não vale a pena andar às voltas e ignorar o problema.
Pela minha parte, o que me preocupa é a aceleração da desagregação do tempo político, ontem brilhantemente exposta por José Pacheco Pereira. A maioria dá indicações de que não aguentará tanta tensão desorientada e falta de rumo, prenunciando que a consulta democrática aos Portugueses será bem anterior a 2015. O PS não tem arte para gerir esse mesmo tempo político e projetá-lo até 2015 e continua a padecer de uma interrogação que é central na minha cabeça há muito tempo: que Ministro das Finanças consistente e credível nos pode oferecer numa alternativa de governação? O voto de protesto no PCP e no Bloco aumentará inapelavelmente para percentagens que podem ser bem superiores aos 20%. Ajudem-me, mas neste cenário vejo um vazio político enorme. Poderá falar-se de um governo de independentes numa fórmula Mario Monti à portuguesa com cobertura parlamentar? Se este cenário se perfilar, o meu amigo Carlos Costa Governador do Banco de Portugal vai ter por certo umas noites de insónia e tensão, pois o seu nome é de facto alternativa.
Em meu entender, para além do difícil desafio de saber como vão contornar, sobrevivendo, o que nos espera para 2013, será com o espectro deste vazio político que os Portugueses vão preocupar-se efetivamente nos próximos tempos. É que mesmo com uma maioria parlamentar, vivem-se tempos de vazio político.

APANHADOS

A dada altura do debate das moções de censura, ontem na Assembleia da República, Honório Novo lembrou a carta que Paulo Portas dirigiu em Julho aos militantes do CDS (“o antigo partido dos contribuintes”) e onde afirmava que “o nível dos impostos já atingiu o seu limite”.
 

Assim provocou o inesperado momento do dia. Ei-lo, sem mais comentários:

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

MOÇÕES DE CENSURA E ALTERNATIVAS



Tenho de confessar que o debate em torno das moções de censura do PCP e do Bloco não constituía para mim tema à partida muito interessante. Não porque o resultado não estivesse anunciado. As moções tinham um valor simbólico. Falta de interesse sobretudo porque o tipo de debate era antecipável, tudo de facto era previsível, até a tensão contida no seio da maioria. Por isso, num dia com alguma mobilidade, apanhei o debate intermitentemente pela TSF e recolho por isso apenas algumas impressões que destaco da modorra de tudo que é antecipável e que não nos surpreende.
Vítor Gaspar parece apostado no equilíbrio instável entre o seráfico distante da realidade e o cinismo manipulador. Chamar ao povo português o melhor povo do mundo nas condições atuais pode de facto ser entendido como provocação. Os economistas de mainstream quando abandonam a frieza dos números e dos parâmetros são um desastre. Vítor Gaspar deve ser uma dor de cabeça para os gestores políticos desta maioria. Tudo indica que o ministro não pode capitalizar já com toda a segurança a nível interno a sua imagem junto das autoridades comunitárias, particularmente do BCE.
Entre os autores da moção de censura, a emergirem cada vez mais como recetores de um voto de protesto que vai subir nos próximos tempos, não consigo recordar uma ideia das intervenções do Bloco. Maior eficácia do PCD nessa prestação, sobretudo da intervenção de Bernardino Soares, que respondeu à letra da ideia da pantominice que Vítor Gaspar havia introduzido para desdenhar da ideia da renegociação da dívida. Nestas coisas de voto e protesto, a retórica do PCP é imbatível e uma vez mais se confirmou essa superioridade.
A intervenção de Francisco Assis interpreto-a como um exercício promissor ao serviço de uma gestão do tempo político que não caia no erro de remeter tudo calmamente para 2015. Pode ser uma simples manifestação de uma retórica parlamentar mais trabalhada, mas também pode significar sinais de preparação para a aceleração inevitável do tempo político.
Como dizia no post anterior, nos próximos tempos vai ser cada vez mais nítida a separação entre as alternativas de protesto e as alternativas de governação nas margens da transformação possível. Nestas últimas, a questão das escolhas públicas sobre a dimensão, peso e papel do Estado, que seria fundamental distinguir, assumirá cada vez maior relevo.
Veremos o que sai amanhã da Aula Magna no encontro das Alternativas de Esquerda (porquê necessariamente em Lisboa?). Teremos mais alternativas de protesto (nesta matéria o PCP deu o mote e não participa, lá sabe porquê, imagino a razão) ou mais alternativas de governação?

PORTUGAL NÃO É A GRÉCIA (REMIX)

Pantominice em Portugal…

 

…cambalhotas na Grécia!

 (Tsimis Skitso em http://www.ekathimerini.com)

Mas a grande diferença não reside nem na receita nem nos números, antes provém sobretudo do decoro dos protagonistas: por cá, talibãs servis a interesses externos; por lá, servidores políticos resistindo ao troikismo fundamentalista e forçando-o a dar a cara…

SALUT PLANTU


O “Le Monde” deste último “lundi” era também uma edição especial de homenagem a Plantu (Jean Plantureux) – “um desenhador que se toma por um jornalista num mundo mediático em que muitos jornalistas se tomam por caricaturistas” – pelos seus 40 anos de ilustrações no jornal.
Incontornável este post em que me associo ao facto com todo o carinho de uma amizade que existe sem existir. Porque Plantu se tornou um companheiro frequente, indispensável e cúmplice das minhas visitas a Paris, da minha vida em Paris e da minha nostalgia por Paris.
Abaixo quero assim deixar registados alguns dos mais apelativos testemunhos do talento de Plantu e, sobretudo, das suas mordazes e informadas observações/impressões da sociedade e da política francesa, europeia e mundial ao longo de todo este tempo (que aqui começa em 1975 com duas visões da economia e vem até 2012 com a vitória do “Presidente normal”, não sendo possível prescindir da abordagem à morte de Federico Fellini em 1993).
“Félicitations, Jean”… e um pedido de que continue a ir estando por aí!