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terça-feira, 16 de julho de 2024

PESQUISANDO NO BAÚ DESTE BLOGUE SOBRE J.D. VANCE

 


(Em novembro de 2016, como o tempo passa célere, e em 4 de maio de 2022, destaquei neste blogue a meteórica trajetória política de alguém que tinha assinado um livro que considerei na altura um elemento fundamental para compreender o ressentimento de que a base política de Trump se alimenta. O autor era J.D. Vance e a obra Hillbilly Elegy, entretanto já traduzida para português, guião inspirador de um filme não menos eloquente. No post de 2022, escrevia o seguinte na introdução. “Quando li, ainda não havia a tradução portuguesa, a Hillbily Elegy de J.D. Vance, publicada em 2016 e aqui comentada em novembro de 2016, tive uma estranha intuição de que aquela abordagem do declínio inexorável de uma América mítica iria provocar estilhaços sérios na política dos EUA. Não me enganei. Não só grande parte, a bondosa, do Trumpismo remetia para aqueles valores de ressentimento, como o autor J.D. Vance haveria de iniciar uma carreira política. Ora, em linha com essa minha intuição, J.D. Vance acaba de ganhar as primárias dos Republicanos no Ohio, vencendo com cerca de 30%, num conjunto de quatro candidatos. A imprensa americana, com o New York Times e o Washington Post à cabeça, não hesitam em considerar que tal vitória teria sido impossível sem o apoio de Trump. Por isso, a Hillbilly Elegy veicula uma espécie de fantasma de Trump que, para mal dos nossos problemas e inquietações, poderá transformar-se numa presença física real, de regresso à administração de todos os males”. Não estava enganado na minha premonição. J.D. Vance acaba de ser apresentado por Trump como o seu candidato à Vice-Presidência dos EUA, imediatamente na sequência do atentado de que escapou ileso, não sabemos ainda qual o estado real da sua orelha. Esta indicação de Vance vem confirmar de vez a lógica subjacente à ascensão de Trump. Acho que só lendo o Hillbilly Elegy poderemos compreender em toda a sua extensão de implicações o significado que a história dos brancos dos Montes Apalaches assume na tomada de poder por parte de Trump e dos tresloucados do MAGA.)


A escolha do Senador do Ohio para Vice-Presidente candidato obedece assim a uma lógica precisa da América ressentida contra a América das elites. Vance já disse o pior de Trump e assume agora de bom grado o apoio à sua eleição, fazendo agora parte dela. Mas atenção, Vance não é um apoiante qualquer. É alguém com projeto próprio, ele próprio vindo a pulso do mundo do ressentimento e do desespero das oportunidades perdidas e destruídas uma a uma, inexoravelmente.

Ou seja, os Democratas não terão apenas de combater a influência nefasta de um atentado do qual Trump emerge como um herói salvífico. Terão agora também de combater uma Vice-Presidência escolhida a dedo e que, em meu entender, reforça a consistência da própria candidatura de Trump. Aliás, curiosamente, como disso tive intuição em novembro de 2016, impressionado pela leitura do Hillbilly Elegy.

 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O QUE É FEITO DE J.D. VANCE?

 


(Prestes a partir para mais uma viagem a Lisboa, prática que começa a cansar-me, e desta vez em automóvel, o que impede qualquer aproveitamento de tempo disponível, tenho pouco tempo para uma curta reflexão sobre cenas dos próximos capítulos das diatribes do Grande Organizador da Política Feita Negócio. Nos jornais americanos começa a especular-se sobre o significado da relativa distância com que o vice-Presidente americano J.D. Vance encarou a intervenção militar na Venezuela. É líquido que não integrou o grupo que preparou diretamente a intervenção e que se mostrou ao mundo em Mar-a-Lago para a fanfarrona declaração de êxito total na operação. A personagem de Vance é temível, é preciso ler o Hillbilly Elegy para compreender o contexto da personalidade, à qual se deve juntar a sua experiência no Iraque como militar, aliás como nos recordamos como ele em Munique apresentou insultuosamente a tese de que os Europeus não estavam a respeitar a liberdade cerceando a manifestação de opinião à extrema-direita europeia. Vance é talvez na atual administração americana a personalidade que melhor formalizou e antecipou a nova estratégia de segurança. As pinças com que em declaração no X (Twitter) ele se referiu à operação em Caracas estão a ser fonte de toda a especulação possível, sobretudo no contexto em que, neste caso, Vance não foi o mata e esfola com que secunda normalmente as posições de Trump.)

O jornalista Benjamin Wallace-Wells assina na New Yorker (ver a crónica amargurada de Clara Ferreira Alves no Expresso sobre o que poderia designar-se de “também tu New Yorker estás a ceder ao jornalismo fácil”) a interpretação mais interessante da relativa ausência de J.D. Vance. Ela tanto pode representar o resultado de um diferente posicionamento sobre o papel dos EUA no mundo, menos transacional em Vance do que em Trump e claramente mais voltada para o umbigo americano (a experiência no Iraque pode ter marcado negativamente Vance), ou então dever ser interpretada como a manifestação de um calculismo político do ponto de vista da sucessão a Trump, isto se o Presidente americano não pretender aldrabar o sistema e prolongar a sua permanência no poder.

Ambas as hipóteses analíticas são interessantes do ponto de vista da discutível consistência com que a administração Trump tem funcionado (não há planeamento que resista à tendência para o caos contraditório com que Trump se delicia).

A primeira interpretação é relevante, pois pode representar a existência de fissuras no projeto de reconstrução da América, uma espécie de MAGA assim, assim. Será que a transacionalidade de Trump choca o próprio Vance? Na sua tomada de posição no X, a ideia do controlo do petróleo venezuelano, numa espécie de vingança pelas nacionalizações operadas pelo regime chavista, não aparece como manifestação central no pensamento de Vance. Dada as suas origens no midwest (a leitura do Hillbilly Elegy é aqui de novo fundamental), compreende-se que tenha sido o argumento do narcotráfico a concentrar os seus argumentos.

A outra interpretação é politicamente mais picante, pois pode representar a movimentação de bastidores para a sucessão de Trump, desenhando-se uma luta acesa entre Rubio e Vance, tendo sido o primeiro o encarregado de consertar publicamente as peças do argumentário justificativo depois de Trump evidenciado a sua voracidade pelo controlo do petróleo venezuelano e ter atirado cá para fora a terrível expressão do “we will run Venezuela …”

Resta-nos fazer o voto pio de que quanto mais contradições melhor, como forma de minar por dentro a consistência deste mandato, criando condições para um ressurgimento Democrata (outro voto pio?).

E com esta me vou.

 

quarta-feira, 4 de maio de 2022

A HILLBILY ELEGY OU O FANTASMA DE TRUMP

 

 



(Quando li, ainda não havia a tradução portuguesa, a Hillbily Elegy de J.D. Vance, publicada em 2016 e aqui comentada em novembro de 2016, tive uma estranha intuição de que aquela abordagem do declínio inexorável de uma América mítica iria provocar estilhaços sérios na política dos EUA. Não me enganei. Não só grande parte, a bondosa, do Trumpismo remetia para aqueles valores de ressentimento, como o autor J.D. Vance haveria de iniciar uma carreira política. Ora, em linha com essa minha intuição, J.D. Vance acaba de ganhar as primárias dos Republicanos no Ohio, vencendo com cerca de 30%, num conjunto de quatro candidatos. A imprensa americana, com o New York Times e o Washington Post à cabeça, não hesitam em considerar que tal vitória teria sido impossível sem o apoio de Trump. Por isso, a Hillbily Elegy veicula uma espécie de fantasma de Trump que, para mal dos nossos problemas e inquietações, poderá transformar-se numa presença física real, de regresso à administração de todos os males.

A Hillbily Elegy, mais o livro do que o filme, é daquelas peças a que não se fica indiferente e que devemos ler para tentar compreender pelo menos uma das dimensões do ressentimento que atravessa as economias ocidentais. Não para entender, por exemplo, o ressentimento francês, mas essencialmente para compreender a frustração dos deserdados pela globalização. Claro que o populismo que cavalga esta frustração não pode ser mecanicamente explicado por este declínio e ressentimento. É de uma manipulação que se trata. Mas de uma manipulação perpetrada sobre pessoas concretas e, essas sim, para serem compreendidas, é necessário entender as razões que precipitaram essas vidas de declínio.

Como conta o New York Times, a entrada de Vance foi prejudicada inicialmente pelos comentários negativos que o escritor proferira no passado sobre Trump. Mas com um pedido de desculpas e com o apoio explícito do ex-Presidente, a subida nas sondagens foi relativamente meteórica e determinou a vitória nas primárias. O que é interpretado pelo jornal como um sinal da persistente influência de Trump no Partido Republicano, uma espécie de fantasma interveniente, que se prepara para recuperar a sua imagem física.

A recente evolução de Vance para um conspiracionismo de direita mais retrógrada que não hesita em associar o nome de Joe Biden à difusão de drogas ilegais no Ohio, mostra como a condescendência de liberais como nós para com o declínio e marginalização dos deserdados da globalização é confrontada com a mais completa desfaçatez de quem se limita a manipular essa gente e o seu sofrimento.

O possível regresso de Trump às lides irá cavalgar essas tendências.

Avizinham-se de novo grandes batalhas.