(Prestes a partir para mais uma viagem a Lisboa, prática que começa a cansar-me, e desta vez em automóvel, o que impede qualquer aproveitamento de tempo disponível, tenho pouco tempo para uma curta reflexão sobre cenas dos próximos capítulos das diatribes do Grande Organizador da Política Feita Negócio. Nos jornais americanos começa a especular-se sobre o significado da relativa distância com que o vice-Presidente americano J.D. Vance encarou a intervenção militar na Venezuela. É líquido que não integrou o grupo que preparou diretamente a intervenção e que se mostrou ao mundo em Mar-a-Lago para a fanfarrona declaração de êxito total na operação. A personagem de Vance é temível, é preciso ler o Hillbilly Elegy para compreender o contexto da personalidade, à qual se deve juntar a sua experiência no Iraque como militar, aliás como nos recordamos como ele em Munique apresentou insultuosamente a tese de que os Europeus não estavam a respeitar a liberdade cerceando a manifestação de opinião à extrema-direita europeia. Vance é talvez na atual administração americana a personalidade que melhor formalizou e antecipou a nova estratégia de segurança. As pinças com que em declaração no X (Twitter) ele se referiu à operação em Caracas estão a ser fonte de toda a especulação possível, sobretudo no contexto em que, neste caso, Vance não foi o mata e esfola com que secunda normalmente as posições de Trump.)
O jornalista Benjamin Wallace-Wells assina na New Yorker (ver a crónica amargurada de Clara Ferreira Alves no Expresso sobre o que poderia designar-se de “também tu New Yorker estás a ceder ao jornalismo fácil”) a interpretação mais interessante da relativa ausência de J.D. Vance. Ela tanto pode representar o resultado de um diferente posicionamento sobre o papel dos EUA no mundo, menos transacional em Vance do que em Trump e claramente mais voltada para o umbigo americano (a experiência no Iraque pode ter marcado negativamente Vance), ou então dever ser interpretada como a manifestação de um calculismo político do ponto de vista da sucessão a Trump, isto se o Presidente americano não pretender aldrabar o sistema e prolongar a sua permanência no poder.
Ambas as hipóteses analíticas são interessantes do ponto de vista da discutível consistência com que a administração Trump tem funcionado (não há planeamento que resista à tendência para o caos contraditório com que Trump se delicia).
A primeira interpretação é relevante, pois pode representar a existência de fissuras no projeto de reconstrução da América, uma espécie de MAGA assim, assim. Será que a transacionalidade de Trump choca o próprio Vance? Na sua tomada de posição no X, a ideia do controlo do petróleo venezuelano, numa espécie de vingança pelas nacionalizações operadas pelo regime chavista, não aparece como manifestação central no pensamento de Vance. Dada as suas origens no midwest (a leitura do Hillbilly Elegy é aqui de novo fundamental), compreende-se que tenha sido o argumento do narcotráfico a concentrar os seus argumentos.
A outra interpretação é politicamente mais picante, pois pode representar a movimentação de bastidores para a sucessão de Trump, desenhando-se uma luta acesa entre Rubio e Vance, tendo sido o primeiro o encarregado de consertar publicamente as peças do argumentário justificativo depois de Trump evidenciado a sua voracidade pelo controlo do petróleo venezuelano e ter atirado cá para fora a terrível expressão do “we will run Venezuela …”
Resta-nos fazer o voto pio de que quanto mais contradições melhor, como forma de minar por dentro a consistência deste mandato, criando condições para um ressurgimento Democrata (outro voto pio?).
E com esta me vou.

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