(A semana ferroviária horrível que a vizinha Espanha viveu deve merecer-nos alguma reflexão, se não fora por outros motivos pelo facto de que a segurança também nos interessa. A probabilidade de algum dia os portugueses do norte a sul usarem a rede ferroviária espanhola é elevada, atendendo sobretudo ao seu potencial de conexão com a restante Europa e aos atrasos da nossa ainda titubeante rede de alta velocidade. O acidente trágico de Adamuz tem seguramente dimensões de tempestade perfeita, principalmente pelo facto do descarrilamento inicial ter acontecido com a praticamente simultânea movimentação em sentido contrário de uma outra composição de alta velocidade, cerca de nove segundos de intervalo, inviabilizando qualquer tentativa de acionamento de mecanismos de imobilização por parte desta última. Mas para lá da tempestade perfeita, à medida que se vão conhecendo os alegados factos que poderão ter dado origem ao descarrilamento da composição da concessionária italiana, que apontam para a existência de problemas na própria via, a reflexão muda completamente, pois parece existir uma evidente e perigosa desproporção entre a espantosa dimensão da rede e a real capacidade de a manter em condições de total segurança. O que suscita reflexões de outro tipo e que se relacionam com a hoje muito desprezada relação entre esforço de novo investimento e acautelamento do investimento em manutenção, só suscetível de ser rigorosamente incorporada num modelo de orçamentação plurianual, ela própria incompatível com a instabilidade e polarização políticas que condicionam largamente a governação em Espanha.)
Com a balbúrdia ferroviária da última semana, pejada de tragédia, morte e perturbações da vida quotidiana, o governo de Pedro Sánchez acrescentou mais uma montanha de problemas à sua já complicada sobrevivência. Neste caso, a relação entre poder central e autonómico (Andaluzia) não fissurou e os presidentes do governo e da região apareceram em público focados na intervenção de socorro às vítimas e à explicação das causas do acidente. Mas, à medida em que se foi conhecendo os possíveis problemas identificados na via onde se produziu o acidente, deduzidos a partir dos efeitos provocados no rodado das composições que passaram pelo local naquele dia, intui-se que outros acidentes poderiam ter sido observados.
Já aqui por repetidas vezes me referi ao crescimento espantoso da rede de alta velocidade espanhola, revelador de uma apreciável capacidade de decisão e de financiamento, que a colocou no segundo lugar da hierarquia das redes mundiais de alta velocidade, lideradas pela China. Compreende-se que um crescimento desta natureza suscite o concomitante incremento das exigências de segurança e de manutenção. Creio que não passou pela cabeça de ninguém imaginar que o espantoso crescimento da rede não tivesse sido secundado por igual esforço de investimento físico e organizativo em matéria de manutenção. Os problemas que se terão verificado na união e soldadura (faltam-me os conhecimentos técnicos para descrever com rigor esta operação) entre troços novos de via com troços existentes, ambos produzidos pela mesma empresa, terão sido sinalizados pelos relatos de outras composições que identificaram nessa passagem vibrações anómalas, oportunamente comunicadas às entidades com supervisão da manutenção da via. Algo terá falhado na cooperação de recursos que a abordagem a um problema técnico desta natureza e importância para a segurança de circulação em toda a rede implica. Abre-se, por isso, a questão de saber se tal falha estará ou não relacionada com algum défice de investimento de manutenção, possível defeito de fabrico do troço de carril substituído ou se, pelo contrário, a insuficiência anotada resulta de um problema mais geral de desordem na governação que tende a projetar-se descendentemente para as entidades de supervisão e manutenção. Aparentemente, pelo que foi sendo conhecido a partir do momento em que as investigações começaram, não foi registada qualquer falha determinante de insuficiente desempenho do sistema de entidades relacionadas. Foram apenas registadas comunicações de várias composições respeitantes às referidas vibrações na passagem pela via, que se estima terem sido tidas em devida conta pelas autoridades de supervisão, designadamente dos pontos de união entre troços novos e troços antigos de carril.
A investigação das causas do acidente que está a cargo da Comissão de Investigação de Acidentes Ferroviários seguramente que vai identificar as razões que terão provocado tão infausto acidente. Mas independentemente do processo estar a decorrer com normalidade institucional, a caça ao ministro Óscar Puente já abriu com todo o estrondo possível de crispação em que a política espanhola está mergulhada.
A caça ao ministro será desporto apenas para alguns. O que interessa aos espanhóis e a todos os europeus, pois a rede espanhola de alta velocidade é uma aquisição importante da interligação entre toda a rede europeia, é a de saber se a circulação em alta velocidade se faz em Espanha com toda a segurança necessária, especialmente em torno da união entre carris novos e carris antigos. Não posso deixar de identificar aqui algo de metafórico nas relações entre o velho e o novo.

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