quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

EPOPEIA A DOIS

 



(As alegrias e as agruras que o futebol me proporciona gosto de as viver sozinho, em frente ao televisor ou no PC, já que as idas aos estádios já ficaram lá para trás, muito lá para trás. Mas, de quando em vez, há vitórias e acontecimentos tão marcantes que mantê-los no recato pessoal equivaleria a uma enorme privação. A noite futebolística de ontem, e creio que poderá ser estendida à de hoje, é daquelas que justifica uma contida referência neste espaço de reflexão, para memória futura, já que pela minha parte reconheço que o SLB tem sido mais memória do que presente. Comparando o que se passou na Luz e em San Mamés, Bilbao, devo reconhecer que, embora de modo menos espetacular, a passagem do Sporting no grupo dos oito primeiros classificados nesta fase da Liga dos Campeões, ombreando com um conjunto de fortes tubarões, é um feito bem mais importante e tremendo do que o alcançado no último minuto pelo SLB frente ao Real Madrid. Podemos, por vezes, criticar a arrogância típica da Linha de Frederico Varandas, mas este resultado não pode deixar de ser compreendido à luz de uma profunda mudança no modelo de gestão do clube. O que se passou na Luz é a fiel representação da vertigem em que o espetáculo do futebol pode transformar-se. Com uma exibição convincente e ao nível de todo o peso da memória passada de outras conquistas, apesar dos momentos de vitória por 3-1 e por 3-2 o Benfica oscilou entre os 26º e o 24ª lugar da classificação virtual, pois não dependia apenas de si, mas de outros resultados. Já em período de descontos e com o 24º lugar aparentemente garantido na classificação virtual que dava a passagem ao play-off, Mourinho faz duas substituições de contenção, pois aparentemente a passagem estava garantida. Mas um novo golo no exterior colocou de novo o SLB no 25º lugar atrás do Marselha. Era preciso arriscar tudo e os astros em convergência, no meio daquela chuva infernal, deram um livre com possível transporte da bola para a área. O ucraniano e guarda-redes Trubin, sem saber muito bem a vertigem em que a classificação estava enredada, subiu para a área e entre os centrais do Real Madrid cabeceou vitoriosamente para o golo, perante um impotente Courtois, também ele mergulhado na vertigem a que me refiro. Épico ou trágico, consoante as perspetivas, mas sobretudo uma vitória emocional das pesadas e uma organização irrepreensível da equipa alcançada por Mourinho, ele próprio a descobrir motivações sabe-se lá a partir de quê, que só teve dois momentos de falha – a não marcação a Mbappé nos seus dois golos que amenizaram a derrota do Real. Seguramente que perante uma equipa que defendesse melhor do que o Real a noite de ontem teria sido de frustração e não de glória épica. Para o futuro, ficará sempre a comparação entre o feito mais organizado do Sporting, partilhando o grupo dos primeiros oito classificados, e o produto combinado da emoção e da memória do passado na noite mágica da Luz. Talvez preferisse o valor da organização, mas ninguém resiste a uma noite como a da Luz, mesmo o mais empedernido dos reflexivos como eu.)

 

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