(Devo confessar que nunca como nesta passagem de ano dei comigo a matutar sobre a natureza bondosa, mas estéril dos votos de Melhor e Mais Feliz Ano de 2026. Paira no ar uma sensação insuportável de impunidade e desta vez os analistas estão com carradas de razão ao proclamarem que a famigerada doutrina Monroe está de volta e que os EUA de Trump estão decididos a organizar sem tréguas e não olhando a meios nem a danos diretos e colaterais a sua zona de influência na América Latina. Por mais convencidos que estejamos do carácter plutocrático, corrupto e decrépito do regime de Maduro na Venezuela, iniciamos o ano com a convicção reafirmada que a ordem internacional está transformada num faroeste de exercício da força, sem qualquer respeito pelas mais elementares regras da convivência internacional e do respeito pela soberania dos governos nos respetivos territórios. O ataque militar à Venezuela, supostamente para combater o narcotráfico, na prática para substituir o regime plutocrático de Maduro por algo que não sabemos o que vai ser, ratifica por estranho que pareça a violência da agressão russa à Ucrânia e prepara também o caminho para a China tentar resolver de uma vez por todas o “seu problema” de Taiwan. E obviamente outros ajustes de contas mais localizados vão suceder-se ao abrigo deste novo argumentário internacional. Dificilmente as Nações Unidas farão prova de vida, correndo o risco da organização se transformar em algo de anacrónico e esclerosado, num efetivo simulacro do multilateralismo. António Guterres vai seguramente reformar-se amargurado e não haverá confissão possível, por mais íntima e próxima que possa ser, que possa atenuar essa sua amargura de ver chegar ao fim a institucionalização de uma ordem internacional que já foi. Perante este cenário que o início de 2026 está a desfiar com uma clareza cristalina, não estou seguro de que os nacionalistas de pequena e média dimensão que têm emergido na Europa se convençam de todo que é altura de Mais e não Menos Europa. Seria trágico que só nos apercebêssemos do valor do modelo que organizou as nossas vidas depois da Segunda Guerra Mundial depois de o termos perdido, designadamente na sequência dos egoísmos nacionais.)
Começar como se acabou não é um bom presságio para 2026.

Sem comentários:
Enviar um comentário