(Em bom rigor, não se trata apenas de precisar o que Montenegro ainda não compreendeu, mas de estender essa perplexidade a Marques Mendes e aos peso-pesados que se juntaram ao coro de apoiantes do Almirante Gouveia e Melo. A posição de equidistância em que Montenegro se colocou face à opção entre Seguro e Ventura, assumindo-se naquela estranha posição de “isto não é nada comigo” e “o que tenho é de governar”, deixando o caminho livre a André Ventura para se assumir na posição de liderança da direita (mas que direita!), revela uma inexplicável (ou perversa para os mais cabalísticos) incompreensão do que é que isso pode provocar no PSD. Esta posição de Montenegro tanto pode resultar de mera miopia política gerada pela embriaguez da vitória nas legislativas, como resultar de causas mais perversas, que resumiria no estatuto atribuído a Montenegro de trabalho prévio e de sapa para o regresso de Passos Coelho às rédeas do PSD. Poderão questionar-me que estou a transformar-me num analista perverso, com propensão cabalística, mas não é disso que se trata. Na prática, Montenegro ignora, repito por miopia ou perversidade política, que por detrás do aggionamiento não socialista que Ventura está a pretender organizar, está o seu desejo de organizar a direita portuguesa com base nesse posicionamento por rejeição e não com base nos valores de constituição histórica do PSD ou num ideário liberal democrata. É óbvio que a fragmentação da direita que se plasmou nestas eleições poderá determinar que as hostes mais democratas do PSD reajam a Montenegro como o fizeram ao não se identificarem com a candidatura de Marques Mendes e desviando o seu voto quer para o Almirante, quer para Cotrim de Figueiredo, ou seja apoiando agora Seguro. A decisão de Pedro Duarte em apoiar Seguro parece sugerir essa possibilidade. Mas o risco que Montenegro não está a antecipar, ou perversamente a abrir o caminho a Passos Coelho, é não perceber que o PSD pode ser objeto de um take-over como o que esteve a caminho com os jovens turcos que enquadravam Passos Coelho. Matéria para Pacheco Pereira se pronunciar que tem mais informação e inteligência do que eu. ).
Em resumo, num post que tem de ser curto, o que se coloca aos portugueses na segunda volta de 8 de fevereiro são essencialmente duas coisas. Primeiro, é imperioso combater a narrativa inventada de Ventura de que se trata de um embate entre o socialismo e o não socialismo. Não, não é disso que se trata. Trata-se antes de um embate entre, do lado de Seguro, o respeito pela democracia e o quadro constitucional e modelo social que dele resulta e, do lado de Ventura, o desejo de o quebrar, sem respeito por quaisquer regras de convivência democrática e constitucionais. Mas, por estranho que pareça, no dia 8 de fevereiro estará também em causa a preservação dos valores constitutivos do PSD, relevantes na construção da democracia portuguesa. Uma vitória de Ventura significaria o fim desse PSD, já que criaria o ambiente propício para o regresso redentor de Passos Coelho, a única personalidade que parece poder conter os desmandos de Ventura, pactuando com parte da sua cartilha.
Estarei a ser um visionário criativo em excesso?
Olhem que não …
A escolha é simples.

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