(Dói-me a alma a ver o bravo Zelensky a esbracejar e movimentar-se em todas as direções para conseguir pelo menos condições mínimas de segurança e proteção para o seu povo, num quadro de suspensão das hostilidades, prefiro chamar-lhe assim do que conspurcar a palavra Paz, e da agressão exterior a que a Ucrânia foi sujeita pela infame agressão russa. A “pescadinha de rabo na boca” em que os EUA de Trump colocaram Zelensky é das operações mais cínicas que alguma vez a história nos ofereceu. Embora o líder ucraniano nos anuncie que os EUA lhe asseguraram condições de proteção, a verdade é que informações vindas do interior das negociações nos dizem que essa pretensa certeza de segurança é concedida com a condição da Ucrânia ceder o território do Donbass, incluindo aquele em que as tropas ucranianas mantêm o controlo da situação. Por outras palavras, segurança sim, mas capitulando. Se alguém tinha dúvidas de que a voz grossa de Trump perante as exigências de Putin tende a desvanecer-se e a transformar-se numa voz esganiçada e débil o modo como a mediação das negociações tem evoluído esclarece todas as dúvidas possíveis.)
Como o título do post o sugere, a história é muitas vezes cruel para os bravos. Sobretudo nos contextos em que esses bravos, não deixando de o ser, são obrigados pela força das circunstâncias a ceder território. A história favorece os conquistadores, os que ocupam e alargam território. É cruel e madrasta para quem é apropriado e para quem foi forçado a ceder território.
Dificilmente, em qualquer circunstância, Zelensky venceria umas eleições futuras. E tenho dúvidas de que o tremendo desgaste a que tem sido sujeito o estimulasse a tomar posição vencedora nessas eleições. Mas o problema maior é que, a realizarem-se tais eleições, provavelmente elas acontecerão num cenário de perda de território, na mais flagrante de demonstração de benefício do infrator dos tempos mais recentes.
Zelensky regressará ou não ao entretenimento e provavelmente ganhará a vida com conferências e outros eventos de alto gabarito. Não sabemos se a Ucrânia algum dia integrará, ainda que diminuída de território, a União Europeia. Mas a derrota de Zelensky será também uma dura derrota para a Europa que, no caso dessa integração mesmo que diferida no tempo, passará a viver paredes meias com o invasor. O ambiente a leste na União Europeia transformar-se-á definitivamente, a Polónia e os países Bálticos, pelo menos, que o digam. As esperanças que a União Europeia manteve com o alargamento a leste, alicerçadas sobretudo na relação virtuosa entre novas oportunidades de crescimento e de dotação de qualificação de recursos humanos, e que tanto amedrontaram os países da economia do Sul como Portugal, irão ter no novo contexto um duro revés. Estimo que a geografia do investimento direto estrangeiro no seio da União se altere profundamente, com os investimentos em defesa militar a ocuparem nesses países o lugar de realce.
Uma derrota da Ucrânia que é absorvida enquanto tal no território europeu transformará decisivamente tudo o que é prospetiva no espaço europeu. E tudo isto porque se beneficiou o infrator e se quebraram os sagrados laços da aliança atlântica.
Estudemos bem o que Carney nos transmitiu em Davos e mais do que reflexões encantatórias ajamos em conformidade, passando por cima da crueldade da história para os bravos.

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