segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

AMORIM E GYOKERES OU AS DIFICULDADES DO SALTO QUÂNTICO

 



(Sinto a premente necessidade de arejar a mente e deixar de ficar subjugado com a sensação de revolta e indignação pela sensação de impunidade que se vive hoje na cena internacional e pelo estado de indigência a que as instituições europeias chegaram, com os principais líderes a meter o rabinho entre as pernas perante o principal organizador e beneficiário da desordem internacional. A desordem como a nova ordem internacional, é a este estranho estado das coisas que chegámos. Nestas ocasiões, o futebol, esse simultaneamente eterno odiado e apreciado evento e universo oferece-nos a salvação e assim mudo de tema como uma condição de sanidade mental face ao clima de pressão com que a situação internacional e a debilidade europeia nos entram por casa adentro. O despedimento de Ruben Amorim pelo Manchester United e o desacerto goleador de Viktor Gyokeres sugerem-me uma reflexão, que nos transporta para um risco muito frequente e, apesar disso, frequentemente ignorado, o de esquecermos que as transferências de contexto são mais complexas do que o princípio da flexibilidade adaptativa pode fazer crer.)

O futebol português, quando o vemos e interpretamos com as lentes a que estamos habituados, permite façanhas e notoriedades descentradas da norma e vou retirar desta reflexão o universo Cristiano Ronaldo, pois ele é difícil de acomodar na reflexão que me apetece construir.

A ascensão de Ruben Amorim pelo estrelato dos treinadores nacionais pode dizer-se que foi meteórica, ainda que tivesse anunciado no Sporting de Braga o que veio depois a confirmar em Alvalade. Mas a condição que veio a revelar-se decisiva na sua afirmação passou também pelos seus dotes comunicacionais, iniciando um estilo de discurso como treinador a que na altura a imprensa desportiva e geral não estava habituada. Essa inovação discursiva combinada com os resultados e estilo agradável de jogo catapultou o Sporting para o ressurgimento desportivo e daí à internacionalização foi um pequeno passo. Imagino, no entanto, que em oposição ao estado organizativo geral do país, o Sporting de Ruben Amorim era como clube uma organização bem mais apetrechada do que o franchisado Manchester United poderia oferecer. Não é a presença sistemática de Sir Alec Ferguson em Old Trafford ou nas bancadas de clubes vizinhos que o Man United visita, como aconteceu ontem no Elland Road em Leeds, com todo o seu prestígio emblemático, que pode disfarçar as debilidades organizativas de um clube que decididamente não está a controlar bem a transição para um outro modelo de entidades futebolísticas.

A resiliência de Amorim a uma época trágica como foi a do ano transato e os fogachos da época atual, com exibições promissoras, mas seguidas de apagões inexplicáveis, foi simplesmente patética, com a imagem sucessivamente alimentada de um homem amargurado, obstinado e lutando semanalmente com as críticas de todos os bichos-caretas de antigos jogadores do Man United, enfrentando, não o ignoremos, as dificuldades de comunicação numa outra língua que não o português.

A transferência de contexto a que Amorim foi submetido é digna de um caso de estudo: sair de um clube organizado que se destaca numa Liga que é globalmente fraca e com competitividade reduzida a um grupo reduzido de clubes e apostar tudo na saída para um clube debilmente organizado que joga numa Liga superlativa em termos de massa crítica de jogadores de qualidade e de competitividade só através de uma convergência acidental de condições favoráveis poderia ser bem-sucedida. Sir Alec Ferguson ajudou dizendo que Amorim precisaria de uma década para atingir o que pretendia, mas não chegou. O sexto lugar empatado com o Chelsea em quinto lugar foi considerado insuficiente e a última conferência de imprensa de Amorim foi uma espécie de harakiri libertador. A conclusão é óbvia: o contexto importa.

O caso de Gyokeres releva da mesma abordagem. Num contexto de defesas tenrinhas, apesar de muito concentradas, algumas do tipo autocarros em frente da baliza, o goleador sueco foi o terror dessas defesas, sobretudo à custa de uma impetuosidade física a que o futebol português não estava habituado. A transferência para o Arsenal não está a corresponder ao que o seu treinador, o hábil e competente Mikel Arteta esperaria, os golos escasseiam, alguns de grade penalidade, e obviamente que na Premier League a impetuosidade de Gyokeres passa menos despercebida. Claro que pode existir aqui uma interrupção de boa forma do atleta. Mas tendo a crer que o contexto é distinto – das defesas tenrinhas às defesas coriáceas vai uma significativa alteração de contexto. E a moral da história é a mesma – o contexto importa e obviamente a transferência para um novo contexto é algo que tem de ser profundamente avaliado.

O futebol é nesta questão uma metáfora relevante para inspirar uma utilização mais consistente da transferência de conhecimento. A vulgarização das chamadas boas práticas se não obedecer a esta inspiração corre o risco de se afundar na nulidade.

 

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