(Ângela Silva, de quem importo o título deste post, assina no seu A Vida é Vil no Expresso on line uma das análises mais consistentes do ponto de situação do personagem André Ventura e da sua candidatura à Presidência da República que tenho encontrado na imprensa portuguesa. A ideia sugerida por Ângela Silva é que o facto da candidatura de Ventura ocultar objetivos que não se confundem com a hipótese de poder ser Presidente da República, acabaria necessariamente por despertar contradições a si próprio e aos seus apoiantes, fiéis da irmandade do Chega, ou semi-envergonhados que os há muitos, como foi possível confirmar através da incapacidade de indicação da orientação de voto em gente como o ridículo diretório do CDS, Melo e Núncio, e da hoje perturbada direita do Observador. A tentativa desesperada de Ventura, iniciada logo na noite eleitoral, de transformar o veredicto do dia 8 de fevereiro numa divisão de águas entre socialistas e não socialistas caiu com estrondo depois da sucessão de apoios a Seguro de diferentes famílias de democratas e das críticas violentas por exemplo de António Lobo Xavier à despudorada tentativa de reescrita da história do CDS perpetrada por Nuno Melo e Paulo Núncio, tal como já o fora a sua posição em relação ao 25 de novembro. Ventura é hoje alguém que não é capaz de manter firme o seu discurso pretensamente disruptivo e antissistema que guindou o Chega ao peso eleitoral que tem hoje no Parlamento. Este tipo de disrupção só consegue manter-se ativo quando passa a assumir as rédeas do poder e a poder concretizar uma multiplicidade de manobras antidemocráticas, como é hoje o caso para infelicidade do mundo de Donald Trump e da sua corte mais próxima, cada vez mais ancorada numa constelação de medidas fascistas. Mas, como diz Ângela Silva, se um populista é por definição imprevisível e catavento, ele é ainda mais perigoso quando está no meio da ponte como aspirante a faz tudo na política e sem ideia do rumo que quer tomar.)
Sabemos que bastará a Ventura uma determinada votação no dia 8, possibilitada quer pela não dramatização que António José Seguro colocou nesta segunda volta, quer pelo comboio de depressões que assolou o país, para ter retorno do investimento realizado nestas Presidenciais. O momento não é, pois, de complacência ou de imaginar que tudo está decidido. É antes de assegurar que Ventura tenha a menor votação possível para que o retorno do investimento não esteja assegurado.
Mas, em meu entender, esta segunda volta das Presidenciais não é em si clarificadora pela natureza do embate que está no terreno, é-o mais pela possibilidade que gerou de percebermos quem é que efetivamente na sociedade portuguesa está interessado em branquear Ventura e as suas diatribes mediáticas, como maestro das reações a multiplicar pela sua tropa nas redes sociais. Já percebemos que a direção do quase defunto CDS está nisso interessada, nem que para isso reescreva a história e a cartilha de valores democrata-cristãos que criou o partido. Vale o que vale, é minoritária nessa área política e houve gente prestigiada que se apressou a clarificar essa indevida apropriação. Mas não é essa a mais importante fonte de branqueamento de Ventura. A chamada direita alimentada pelo corpo ideológico consistente do Observador, essa sim, é a mais proativa nesse branqueamento. As razões são claras e muito cedo registei essa evidência nas minhas reflexões neste blogue. Essa direita é uma espécie de autor teatral que busca desesperadamente os seus atores para concretizar a peça que conceberam. Passos Coelho e a sua corte de jovens turcos esteve perto. Montenegro e os seus mais próximos foram hipótese, mas cedo passaram à história. Ventura e o Chega não são propriamente a alternativa desejada, mas têm um papel instrumental de abertura de caminho, de perturbação e disrupção que ajudará aos objetivos de preparação de uma nova alternativa, sobretudo se o PSD ceder e for engolido pela onda.
O que se vai lento nos escritos do Observador é uma objetiva dificuldade de afastamento da mensagem de Ventura, misturada com a “foficação” (perdoem-me a inventiva linguística) e branqueamento do candidato Ventura. Mas o que efetivamente trocou as voltas à “direita Observador” foi o aparecimento com o seu estilo próprio de António José Seguro na segunda volta e mais votado no primeiro round. Com esta é que os cronistas não contavam. A fantasia do socialismo versus não socialismo esboroou-se totalmente. Não irão certamente desistir e novos episódios serão acrescentados à trama. Também eles, como Ventura, estão no meio da ponte.

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