(São nove e meia da noite. Creio que já ouvi o suficiente para registar para memória futura o meu comentário sobre os resultados eleitorais desta noite. Em linha com o meu post de ontem, os meus receios de que a percentagem de eleitores portugueses disposta para mostrar o seu ressentimento ou simplesmente os seus tiques autoritários, destruindo o quadro constitucional atual e pondo em causa o modelo social que resultou dessas conquistas constitucionais já tem significado e não pode ser ignorado. Claro que existem diferenças nessa massa eleitoral que aderiu às mensagens de Ventura e de Cotrim. Na mensagem de Cotrim, há sobretudo uma marca ideológica anti-estatista e anti-intervenção pública, que não é homogénea, mas não tenho dúvidas de que entre os seus apoiantes estará gente que estaria disposta a passar por uma experimentação radical do tipo Milei na Argentina. Na mensagem de Ventura, não há que enganar, é a mensagem nacionalista serôdia, xenófoba, securitária e sobretudo anti-imigração que concedeu ao Chega o seu poder eleitoral atual. Comunicarão entre si estas duas mensagens? Não creio, pelo menos com facilidade, e não estou a valorar neste meu juízo o descuido de linguagem de Cotrim, desvanecido com a passagem a santo de ocasião de Ventura. Mas os meus receios confirmaram-se. Esta massa de eleitores que está disposta a destruir o nosso modelo social e constitucional está aí e tem de ser monitorizada com todas as cautelas democráticas. Em contraponto com o flop total em que a candidatura de Marques Mendes e do Governo se transformou e com o abaixamento de expectativas que a candidatura do Almirante foi incapaz de gerir e de travar, a vitória por mim intuída de António José Seguro cria esperanças para uma segunda volta capaz de aguentar o dique e preservar o quadro constitucional. Trabalhando a informação da sondagem à boca das urnas da SIC Notícias, o resultado de Seguro é essencialmente produto de uma ponderação equilibrada de última hora, de uma percentagem de aprovação entre os jovens que o Partido Socialista perdera irremediavelmente nos últimos tempos, de um apoio esmagador das mulheres, assumindo-se, por isso, como um candidato fortemente transversal a todos os quadrantes etários, sociais e de qualificação dos portugueses. São boas notícias para uma segunda volta que será dura. Sim, a luta vai ser dura e o candidato vencedor entendeu-o bem, não embandeirando em arco com os primeiros resultados).
A luta vai ser dura e as primeiras intervenções públicas de Ventura assim o sugerem. O líder do Chega e faz-tudo no seu partido assumiu-se imediatamente como o líder da direita, cavalgando a já estafada batalha contra o socialismo e procurando encostar Montenegro às cordas. O primeiro-ministro desviou para canto, socorrendo-se do resultado democrático das legislativas que lhe concedeu o direito de governar, declarando-se não ganhador e não representado no confronto eleitoral da segunda volta. Montenegro dividiu as águas entre à esquerda do PSD (Seguro) e à direita do PSD (Ventura), deixando nas entrelinhas que o “centro” continuará a governar, mensagem que não alinha bem com o estilo da sua governação nos últimos meses. Montenegro já deixou há muito de apresentar um estilo político de governação em que se possa confiar. Por isso, não consigo antecipar quais os estragos que o estatuto autoassumido de liderança da direita brandido por Ventura irá causar num PSD fortemente enfraquecido com a débacle política de Marques Mendes.
A luta da segunda volta vai, repito-o com convicção, ser dura, sendo necessário erradicar qualquer desvio de triunfalismo e de otimismo exagerado. A vitória de Seguro não são favas contadas e dependerá fortemente do modo como o candidato se vai apresentar ao eleitorado para o novo round. A demonstração do que estará efetivamente em causa no dia 8 de fevereiro tem de ser clara, inequívoca e deve capitalizar o que emerge da sua aprovação nas eleições de hoje – uma aceitação equilibrada e transversal a nível etário, de forte representação das mulheres e em linha com a melhoria de qualificações do país.
Podemos respirar com algum alívio. Mas nunca relaxar.
Estou seguro que Seguro pensará assim.

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