Pouco haverá a acrescentar a tanto que já foi dito sobre os simultaneamente divertidos e preocupantes resultados eleitorais de ontem. Por um lado, porque os mesmos acabaram por não surpreender significativamente face às tendências que foram sendo desenhadas na última semana e porque desta vez as sondagens se revelaram largamente acertadas, retirando até algum do suspense esperado. Por outro lado, porque quem tinha de falar, falou e, bem ou mal, disse o que tinha a dizer sem deixar espaço para segundas impressões mais ou menos revisionistas que surgirão.
Quanto ao primeiro tópico: os prognósticos que aqui esbocei foram simultaneamente bem e mal sucedidos, uma vez que acertaram na hierarquia de três dos cinco grandes candidatos (Seguro à frente, Ventura em segundo, Gouveia em quarto), tendo a exceção sido uma inversão entre Cotrim e Mendes (terceiro e quinto na realidade, quinto e terceiro na minha estimativa). Acresce que também previ desde a primeira hora que o essencial do resultado final decorreria da capacidade de fixação dos eleitorados maiores, especialmente dos do PSD e do PS (cheguei a explicitar que passaria à segunda volta aquele(s) que alcançasse(m) os 60%), além dos do Chega e da restante esquerda; o problema esteve em que nunca admiti que Mendes descesse tão baixo nesse plano (apenas terá captado em torno de um terço do eleitorado da AD!) e sempre pensei que ele iria recuperar parcialmente na reta final da campanha (em linha com uma maior presença da máquina do partido e do seu chefe Montenegro); e também pequei por defeito quanto ao voto PS em Seguro (que estava nitidamente em crescendo mas não parecia suscetível de chegar aos 80% atingidos) e ao voto do Chega em Ventura (que era claramente estimável como enorme mas podia não ter sido quase total como foi).
Assim, e no cômputo geral, os resultados lêem-se na sua essência através de quatro movimentos mais assinaláveis: (i) a já referida significativa fixação do eleitorado PS por parte de Seguro e, em sentido inverso, a já referida falha de fixação do eleitorado PSD por parte de Mendes; (ii) o desvio de 30% dos votos da AD para Cotrim (e, em menor medida, para Gouveia e Ventura, por esta ordem); (iii) a complementaridade dos votos úteis à esquerda na candidatura de Seguro (um terço do eleitorado PCP e 50% no conjunto do Livre e Bloco); (iv) a já referida fixação quase total do eleitorado Chega por parte de Ventura, acrescida da mesma situação no tocante ao eleitorado IL por parte de Cotrim. De notar, por fim, que Gouveia “pescou” um bocadinho em cada espaço mas não logrou ter grande expressão em nenhum caso dos quantitativamente mais representativos (terá rondado os 15% na AD e no PS).
Quanto ao segundo tópico: a noite eleitoral teve escassa história e tudo ficou claro desde cedo, sobretudo a partir do momento em que Montenegro declarou o seu alheamento da segunda volta (como é possível num primeiro-ministro democrático!!!) e logo foi secundado por um Cotrim que assim quis confirmar a sua própria descredibilização política. Os vencedores, esses, fizeram o que deles se esperava: Ventura embandeirou em arco e prometeu luta sem tréguas ao socialismo, culpando os seus parceiros de direita por não promoverem uma aglutinação de votos nele que ajudasse a bater a porta ao Diabo que é Seguro; este manteve a linha que definiu para si, uma linha de moderação, defesa constitucional e apartidarismo. Ademais, já se pressentiram algumas movimentações anunciadoras de polémicas na segunda volta que aí vem, sobretudo se tivermos em atenção as expectáveis escolhas dos militantes mais reconhecidos da área da direita dita moderada (onde a convicção de Pacheco Pereira, Poiares Maduro ou José Miguel Júdice contrastou bem com a posição tímida e envergonhada de Pedro Duarte, o silêncio de Mendes e Rui Moreira ou a posição desavergonhada de Cotrim) e a influência das redes sociais sobre os jovens votantes agora tornados órfãos do eurodeputado liberal.
Dito tudo isto, estou pessoalmente convencido de que, mais décima menos décima, a vitória não escapará a Seguro mas também creio que o ruído vai imperar e que o resultado de ontem abriu caminho a uma contenda fratricida à direita (não esquecer que ainda há Passos à espreita de uma oportunidade) com fortes probabilidades de penalizar altamente o taticista do primeiro-ministro que nos saiu na rifa, alguém cuja hierarquia de valores começa a ficar clara na perceção dos portugueses, ou seja: primeiro eu, depois a democracia...

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