segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

RECUANDO NO TEMPO...

Quem me conhece sabe que tenho o terrível vício de juntar documentação ou, visto pelo lado mais doméstico, de alguma incapacidade de me desfazer de coisas e materiais diversos que sempre reputo de reutilizáveis. É um defeito que confesso, e que por vezes me chega a angustiar, mas que não deixa de ser também um defeito que se faz acompanhar de potenciais virtudes remuneratórias.

 

Eis um exemplo, decorrente de uma manipulação neste último fim de semana de alguns montes a precisarem de arrumação: uma notícia do JN, cuja divulgação fará trinta anos muito proximamente, em que se reportam as declarações do chanceler alemão de então, Helmut Kohl, num fórum sobre segurança ocorrido em Munique e contando com a presença do secretário norte-americano da Defesa (William Perry): “Não podemos esperar que os Estados Unidos desempenhem permanentemente o papel do guardião capaz da casa europeia nos inúmeros conflitos que eventualmente possam eclodir”.

 

Estávamos então num contexto europeu de Conferência Inter-Governamental, na sequência do Tratado de Maastricht, e o título da peça – “Defesa comum europeia deve ser prioritária” – é assaz premonitório, embora o seu conteúdo tenha acabado por ser bastante desvalorizado pelos responsáveis europeus no seu conjunto, sobretudo na medida em que as velhas e sábias lideranças iam desaparecendo (Delors saíra da Comissão em janeiro de 1995, Mitterrand deixara a Presidência em maio de 1995, Kohl iria abandonar funções em novembro de 1998) e em que as novas iriam depois embarcar em cedências de cariz mais interessado ou mais ingénuo, como foram os casos de Schröder e Merkel, quase sempre mal acompanhados por Santer, Prodi e Barroso na Comissão ou por Chirac, Sarkozy e Hollande ao comando da França. Parece hoje inquestionável a “cegueira” que dominou os grandes decisores europeus desde os finais do século XX e que já aqui abordamos por diversas vezes evidenciando a entrega aos americanos das rédeas da Defesa, aos russos dos abastecimentos em Energia e aos chineses das chaves-mestras da Competitividade através da concorrência internacional desregulada e permissiva que teve nos lordes ingleses (Mandelson e Brittan), nos neerlandeses e nos nórdicos os expoentes mais insistentes.

 

Voltando à Defesa Comum Europeia, não está agora à vista o bem-fundado da posição que Kohl exprimia em 1996?

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