(As capas das duas revistas que mais aprecio, The Economist e The New Yorker, quando conjugadas com a força, coragem, frontalidade e determinação do discurso de Mark Karney em Davos, conduzem-me a um denominador comum. Andámos iludidos durante demasiado tempo com a pretensa excecionalidade da disrupção do tempo presente e não me estou a referir à sucessão de crises financeiras e depressivas, porque essas já sabíamos que faziam parte da maneira de estar do capitalismo. Estou a focar-me na disrupção geopolítica e de organização na relação de forças entre os atores mais proeminentes da cena global. À medida que vamos caindo na real, como dizem os amigos brasileiros, compreendemos que excecionais foram os tempos do que os historiadores económicos mais representativos designaram de “era dourada do capitalismo”, largamente coincidente e com os anos 50 e 60 até à disrupção do maio de 68 e a praticamente seguida crise petrolífera dos anos 70. Nunca como nesse período, o crescimento económico foi simultaneamente tão rápido, estável e distributivo, permitindo sem grandes fissuras construir o modelo de estado social europeu, no âmbito do qual nos habituámos a viver, obviamente com escalas de satisfação e cobertura efetivas muito diferenciadas. É certo que não o vivemos todos na mesma medida. Alguns países viveram-no e outros como nós sempre o consideramos referencial dos nossos esforços de convergência social.)
A excecionalidade desse período deveu-se a uma convergência de fatores, que poderíamos designar a bonança perfeita. Em primeiro lugar, a memória da Segunda Guerra Mundial, da sua devastação e dos seus horrores estava fresca, o que não é despiciendo na comparação com os tempos de hoje, aliás como os escritos notáveis de Tony Judt nos ajudaram a compreender. A social-democracia tem origem nessa bonança perfeita. Em segundo lugar, nunca o capitalismo precisou tanto como nesse período da articulação entre o crescimento económico e a garantia de uma norma revigorada de consumo operário. Daí a absoluta necessidade de um sistema de proteção social robusto e inibidor de qualquer incerteza futura que comprometesse a estabilização dessa norma de consumo. O Welfare State, por mais circunscrito que o possa ter sido, é obra dessa convergência, assegurando uma coevolução dos prodígios da tecnologia e dos quadros sociais e institucionais. Em terceiro lugar, o mundo vinha de construir de um sistema regulador das interdependências mundiais, o sistema de Bretton Woods, que aguentou pelo menos durante essas duas décadas, sem sinais de fissura ou desgaste, transpondo para o quadro global a estabilidade necessária.
Todos estes fatores da convergência perfeita foram sendo perdidos à medida que a erosão do tempo começou a atuar. A memória da devastação anterior perdeu-se ou, quando muito, foi pressentida como algo que acontecia lá longe e a indiferença completou o quadro. Hoje, temos uma guerra infernal paredes meias com a Europa (já o tínhamos tido nos Balcãs, mas a indiferença venceu a gravidade do evento) e o que sucede lá longe é demasiado atroz para que a indiferença possa vencer. Noutro plano, a polarização foi erodindo a confiança no modelo social, o distributivismo deixou de ser uma peça integrante do desenvolvimento capitalista que passou a viver da exaustão desse gap. Finalmente, a ordem internacional quebrou e é isso que a capa do Economist designa de “the Return of Gunboat Capitalism”. O Washington Consensus já foi, o ideário da globalização como aplanamento do mundo também, e só muito timidamente alguns economistas começam a pensar noutros consensos – The London Consensus é um deles – mas como sabemos as vozes dos economistas parecem vozes de burros que não chegam ao céu. Um exemplo sólido dessa “invisibilidade” é o pronunciamento claro contra a lógica e efeitos esperados dos direitos aduaneiros de Trump. Sabemos e Krugman sublinha-o bem que os direitos aduaneiros são impostos que recaem sobre os consumidores e negócios americanos e não sobre os estrangeiros. A evidência está a confirmar esse facto: dados do Kiel Institute for World Economics mostra que os estrangeiros absorveram apenas 4% dos direitos impostos por Trump. Alguém na administração americana compreendeu isto?
Vai demorar tempo até que se enraíze esta ideia de que a disrupção de hoje não representa a desejada excecionalidade. Essa era a do passado, não a de hoje.



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