(Tudo indica que o dia de antecipação de voto terá corrido sem incidentes, apesar da inexplicável presença no boletim de voto de três candidatos afastados da corrida presidencial, difícil de explicar mesmo que a logística de edição de novos boletins pudesse ser mais complexa do que aparenta. Mas para permanecer em domínios do inexplicável, o voto antecipado concretizou-se sem qualquer período de reflexão, o que torna o sábado de reflexão antes do próximo domingo uma verdadeira aberração de outros tempos. Assim sendo, a minha atenção dominical concentrou-se na matéria dos pronunciamentos públicos a favor ou contra os candidatos presidenciais, não porque entenda que tais tomadas de posição tendam a fazer infletir o eleitorado, mas principalmente pelo que elas representam. E, neste campo, emergiu uma novidade que tem, em meu entender, um amplo significado.)
Essa novidade não é seguramente a procissão dos notáveis do PS, sobretudo os de filiação costista ou próxima, empenhados no agora reconhecimento do que há uns meses ou semanas atrás recusavam liminarmente, então angustiados com a procura de uma alternativa à esquerda que lhes evitasse o ato de contrição resignado de apelar ao voto em António José Seguro. As sondagens mesmo em terreno incerto e minado ressuscitaram Seguro e, não vá o diabo tecê-las, ficariam mal na fotografia, seja de vitória, seja de derrota honrosa, pois neste último caso todo o eleitor de boa-fé clamaria que com um apoio menos envergonhado do seu partido, Seguro poderia aspirar a uma percentagem de voto em sede de primeira volta. A coisa começou a mudar num grande almoço em Lisboa de apoio ao candidato e, após esse degelo, um a um os renitentes do PS lá começaram um a um a empenhar-se na defesa do candidato. Mas novidade propriamente dita neste ato de contrição não existe.
Onde existe novidade e da grossa é no aparecimento de um grupo de 100 apoiantes à candidatura de Gouveia e Melo, com gente com peso particularmente do PSD mais social-democrata. Não estou a falar de gente como Alberto João Jardim, Ângelo Correia, Rui Rio ou Adão e Silva que cedo saltaram contra a corrente interna para o apoio ao Almirante. Estou antes a referir-me a personalidades como António Capucho, António Carmona Rodrigues, David Justino, Fernando Negrão, Luís Valente de Oliveira, Miguel Cadilhe e Paulo Mota Pinto, não esquecendo as personalidades da constitucionalista Teresa Violante e o ex-líder do CDS Francisco Rodrigues dos Santos bem mais acutilante do que nos tempos em que liderou o CDS.
Objetivamente o pronunciamento destes peso-pesados representa uma tomada de posição contra Marques Mendes e Luís Montenegro, dada a interligação em que o candidato Marques Mendes se deixou envolver com o governo em funções. Quer isto significar que a situação interna do PSD está longe de estar estabilizada e que estes nomes representativos mais do velho do que do novo PSD não se sentem identificados com o perfil de Marques Mendes, indo em busca da “gravitas” do Almirante, já que em matéria do conhecimento aprofundado da geopolítica mundial (dimensão invocada pelos 100 signatários) não me parece que Gouveia e Melo tenha sido, até agora, particularmente convincente.
Não direi que Marques Mendes esteja em apuros, porque sinceramente não sei avaliar o peso eleitoral deste tipo de personalidades. Mas parece-me evidente que as suas expectativas não eram estas. A tomada de posição destes peso-pesados acontece já depois de Mendes, provavelmente para ter de salvar a pele, se colou mais acriticamente ao Governo. Diria, assim, que estas personalidades não estão propriamente empolgadas com a dinâmica governativa. A novidade não está, por exemplo, na posição de Rui Rio, pois esse já tínhamos percebido que não morre de amores pelo estilo e prática de Montenegro. Mas este punhado de personalidades traz para a opinião pública uma espécie de baú de referências do PSD, que não parecem em nada alinhadas com a governação atual e com a sua aposta no “facilitador honesto”.
Estou com curiosidade em perceber que impacto real vai ter este posicionamento nesta semana final de acerto de contas.

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