domingo, 4 de janeiro de 2026

QUEM SOBREVIVERÁ AO 18 DE JANEIRO? (I)

Começa hoje a campanha oficial para as eleições presidenciais agendadas para o próximo dia 18 de janeiro, com provável finalização a ser adiada para uma segunda volta a disputar em 8 de fevereiro. Trata-se seguramente das eleições de desfecho mais incerto de que há memória no Portugal democrático. Acrescem ao facto outras caraterísticas pouco confortáveis para os eleitores mais esclarecidos (ou de maior espessura política), como sejam as de nenhum dos candidatos que se apresentam parecer ao nível da qualidade que marcou distintivamente a história deste tipo de eleições – recordem-se as figuras de António Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Aníbal Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, goste-se mais ou goste-se menos –, as de se encontrar numa boa posição um candidato (André Ventura) defensor de posições extremistas de direita, populistas e radicalmente antisistémicas ou as de os candidatos que emergiram com ligação às áreas políticas dos partidos sempre mais votados do sistema (PS e PSD) não parecerem beneficiar de uma unanimidade ou de um apoio forte no seio dos cidadãos afetos a esses partidos ou deles simpatizantes ou votantes habituais. Tudo razões para uma indeterminação fundamental que ocorre, ademais, na sequência de dois mandatos especialmente sui generis – quer porque de todo irrepetíveis, quer porque crescentemente cansativos na avaliação dos portugueses –, como foram os de Marcelo Rebelo de Sousa, e no quadro de uma situação internacional e europeia altamente complexa e perigosa.

 

Confrontado com a necessidade de ponderar a minha própria escolha, acabei por ir à procura de indícios que me fornecessem argumentos de escolha num plano mais objetivo do que substantivo ou normativo. O que, avanço desde já, não logrei tanto quanto gostaria. Ainda assim, deixo de seguida, sempre sujeitas aos discutíveis pressupostos que explicito e marcadas pelo momento preciso de análise (imediatamente antes do início da campanha eleitoral propriamente dita, ou seja, não contemplando eventuais vicissitudes dela decorrentes e outras perturbações exógenas que possam surgir), algumas considerações e reflexões provenientes dos números saídos dos quatro últimos processos eleitorais realizados no nosso País.

 

Primeiro: a minha amostra é constituída por cinco candidatos principais (porque suscetíveis de serem vencedores) – André Ventura, António José Seguro, Henrique Gouveia e Melo, João Cotrim de Figueiredo e Luís Marques Mendes – e por dois outros conjuntos de candidatos (no caso, situados à esquerda) – António Filipe, o respeitado candidato de um PCP que persiste na recusa de uma abertura que lhe permitiria ser parte, e um agregado de Catarina Martins de Jorge Pinto, este facilitador de uma difícil e inútil abordagem separada dos dois (um ligado partidariamente a um Livre cuja força atual sobreleva sobre o Bloco da outra e esta mais apreciada porque mais (re)conhecida em termos públicos).

 

Segundo: dado que o ponto de partida corresponde aos processos eleitorais mais recentes – todos estes com referenciação partidária –, assumo um número de inscritos igual ao das últimas ocorridas (um pouco mais de 9,3 milhões de cidadãos) e uma taxa de abstenção igual à média das quatro eleições em causa (ou seja, 38%, valor ainda inferior ao das últimas Autárquicas – 40,7% – e ao das primeiras Legislativas – 42% – mas já superior aos casos tidos por mais excecionais das Legislativas de 2024 e 2025 – 33,8% e 35,6%).

 

Terceiro: na mesma linha, procuro calcular uma espécie de base partidária-tipo, encontrada com pequenas variações diferenciadas para cada uma das sete forças ou áreas partidárias retidas: Aliança Democrática, Partido Socialista, Partido Comunista, Chega, Iniciativa Liberal, Outra Direita e Outra Esquerda. Assim: média dos três últimos atos eleitorais para a AD (assumindo que hoje pecaria largamente por defeito a votação obtida em 2022), média dos quatro últimos atos eleitorais para o PS, o PCP e os votos brancos e nulos (assumindo que as Autárquicas e as primeiras Legislativas de algum modo ponderam pela positiva o verdadeiro peso daqueles partidos), média dos atos eleitorais legislativos de 2024 e 2025 para o Chega, a IL e a Outra Direita (assumindo que os mesmos avaliam melhor o peso eleitoral em presença, seja por 2022 ainda ser um ano de arranque dos ditos partidos seja pelo facto de a respetiva representatividade autárquica ser ainda relativamente mais diminuta do que o seu peso real), média dos três atos eleitorais legislativos para a Outra Esquerda (assumindo que tal sinaliza mais adequadamente a dimensão efetiva da sua base eleitoral). Conjugando estes pressupostos com os precedentes, e reponderando os resultados através de uma distribuição uniforme pelas várias forças ou áreas, alcanço então uma indicação (necessariamente precária pela potencial fragilidade das hipóteses selecionadas) daquelas que serão as importâncias relativas em presença no exercício em elaboração, a saber: PSD – 30,3%; PS – 28,7%; CH – 19,5%; Outra Esquerda – 7,9%; IL – 5,1%; PCP – 3,7%; Outra Direita – 2,6%.

 

Quarto: aqui chegado, dediquei-me à procura do que nos informam, sempre previsivelmente e à luz da autenticidade das respostas, as sondagens existentes quanto às transferências de voto mais pensáveis entre as sete forças ou áreas partidárias e os sete candidatos presidenciais. Neste quadro, e após cuidadosa avaliação daquelas mas sempre subordinado a algum toque pessoal, adotei os seguintes pressupostos adicionais: por um lado, e na perspetiva das transferências de maior monta percentual, Cotrim contará com 90% dos votos da IL, Ventura com 90% dos votos do Chega, Gouveia com 80% dos votos da Outra Direita, Filipe com 70% dos votos do PCP, Catarina e Pinto com 65% dos votos da Outra Esquerda, Mendes com 60% dos votos da AD e Seguro com 55% dos votos do PS; por outro lado, e numa perspetiva complementar, teremos então que Gouveia contará com 25% e 20% dos eleitorados afetos, respetivamente, ao PS e à AD (além de 15% do PCP e de 10% do Chega e da Outra Esquerda), Mendes com mais 5% dos votos da IL e do PS, Seguro com mais 25% dos votos da Outra Esquerda (além de 5% do PCP e 2,5% da AD), Ventura com mais 20% dos votos da Outra Direita e 5% dos do PCP (além de 2,5% da AD e da IL), Cotrim com 15% do eleitorado afeto à AD e 10% do afeto ao PS, Filipe com mais 5% dos votos do PS e a dupla Catarina/Jorge ficar-se-á por uma retenção parcial do seu próprio eleitorado. De todo este emaranhado de elucubrações, sintetizadas no primeiro quadro abaixo, resulta o quadro obtido de primeiros resultados e a patente incerteza quanto ao resultado principal que dele emerge: Mendes próximo dos 20% e três candidatos na casa dos 19%, com ligeiríssima vantagem num eventual acesso à segunda volta para Ventura sobre Seguro e Gouveia – empate técnico, dentro da margem de erro, diriam os nossos especialistas de estudos de opinião; Cotrim, obtendo um excelente resultado (12%) face à sua base essencial de partida, ficará ainda assim a razoável distância dos outros quatro.

 

PRESSUPOSTOS DE TRANSFERÊNCIA DE VOTOS


PRIMEIROS RESULTADOS

Nota: todos os dados estatísticos correspondem a elaboração própria do autor a partir da informação oficialmente disponível sobre os mais recentes processos eleitorais ocorridos em Portugal (Legislativas de 2022, 2024 e 2025 e Autárquicas de 2025), https://www.cne.pt e https://www.sg.mai.gov.pt.

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