segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

MINNEAPOLIS E TEERÃO

 

(A comparação entre o que vai acontecendo em Minneapolis e em Teerão ilustra tragicamente o sentido trágico do mundo de hoje, que estava aí perante os nossos olhos, mas que demorámos uma vastidão de tempo a reconhecer. Na cidade americana, as garras de um fascismo latente reforçam-se todos os dias. Uma força de controlo da imigração cujo nome, ICE, diz tudo quanto à frieza da repressão que é praticada em Minneapolis e em muitas outras cidades americanas, matou praticamente a sangue-frio uma ativista local, Rennee Good de 37 anos, que controlava o modo como a referida organização exercia a sua prática de intimidação da população imigrante, numa cidade conhecida pela sua capacidade de acolhimento de população imigrada. A morte a sangue-frio da ativista e principalmente a justificação cínica e esfarrapada da administração de Trump para o incidente, tratar-se de uma terrorista urbana que ameaçou os agentes do ICE, evidenciam bem o comportamento abertamente fascista que está instalado em muitas cidades americanas, num atropelo constante das mais elementares formas de proteção da população que ousa protestar contra o assalto das forças federais. Em Teerão, o regime teocrático agoniza, incapaz de conter as manifestações gigantescas que as precárias condições de affordability da população iraniana estão a gerar, num movimento verdadeiramente ameaçador da estabilidade de um regime que tem votado um país milenário ao mais rude isolamento internacional. A pujança das manifestações tem sido capitalizada externamente, espantemo-nos, pela figura do filho do antigo Xá da Pérsia, claramente apoiado pelos americanos, numa espécie de encenação de uma vingança pela ascensão ao poder dos ayatollas e pela sempre recordada invasão da embaixada americana em Teerão. É trágico que a salvação da martirizada população iraniana que não se identifica com o atavismo teocrático do regime esteja nas mãos de alguém que provém de um regime também odioso como o do Xá, que aliás usurpou com a ajuda britânica e americana um poder democraticamente eleito, com os negócios do petróleo, sempre ele, no centro dos interesses.)


 

O confronto entre Minneapolis e Teerão ilustra bem a esquizofrenia do mundo de hoje. Na cidade americana assistimos à fascizante emergência de uma repressão sem limites, assumida por uma administração que externamente emerge como a grande defensora das liberdades coartadas do povo iraniano, e que se mostra disposta a intervir para parar a repressão dos manifestantes por parte do regime teocrático e precipitar a queda desse regime.

Muitas interrogações subsistem quanto ao efetivo enquadramento com que o regime teocrático governa hoje o Irão. Se quanto à Guarda da Revolução que defende o corpo central do regime teocrático parece não haver dúvidas quanto à sua lealdade aos Chefes Supremos, já quanto às forças armadas regulares vários quadrantes de analistas têm formulado reservas quanto ao estado da obediência. A única matéria visível é a degradação efetiva das condições de vida dos iranianos e é isso que explica inicialmente a pujança das manifestações que, obviamente, podem evoluir sem surpresas para a reivindicação de queda do regime e do isolamento internacional.

Mais parecendo baratas tontas sem rumo e orientação, as autoridades europeias arrastam-se na questão da Ucrânia e tentam desesperadamente reinventar-se na defesa da Gronelândia. Mas neste jogo que lhes passa ao largo e por cima das cabeças entre Minneapolis e Teerão a sua VOZ está rouca, senão mesmo inaudível.

 

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