(As Presidenciais, que estão felizmente a chegar ao fim, embora ainda mergulhadas numa grande indeterminação, não foram lá muito interessantes do ponto de vista do confronto de ideias entre os candidatos. Não sou eu que o digo, é a grande maioria do comentário político em Portugal, o qual também não vive os seus melhores dias, fruto dessa interação perversa. Mas o mesmo não poderá ser dito a propósito das reações das forças políticas que deviam ou se propuseram enquadrar as candidaturas presentes. Trata-se de uma eleição de pessoas, mas vivemos num regime democrático em que as forças partidárias são o núcleo central do sistema. Assim sendo, embora possamos concordar com a tese da perda de força, ou erosão política e de confiança por parte dos eleitores, dos partidos do sistema, estas eleições eram uma oportunidade de gerar candidaturas capazes de defender o quadro político em que tais forças se movimentam e, assim, mitigar o efeito das forças antissistema ou que o querem adulterar. Nesta outra perspetiva de análise, as Presidenciais têm sido mais interessantes do que o esperado. Quando analiso o tema do ponto de vista das forças partidárias, estou a referir-me não apenas ao pensamento e afirmações na campanha dos seus principais dirigentes. Incluo também na análise os pronunciamentos públicos das suas bases de apoio, principalmente de personalidades filiadas com algum peso mediático e na opinião pública. Em vários posts anteriores, analisei o estranho haraquíri que se desenhava no Partido Socialista, que parecia ignorar o papel das Presidenciais na estabilização da sua base eleitoral de apoio, algo de indispensável para desenvolver um processo de recuperação continuada após o desaire manifesto das últimas eleições legislativas. Pelo contrário, à direita, designadamente mo campo da chamada direita democrática, a que não quer confundir-se com o Chega, não tinha ainda elaborado qualquer reflexão mais sistemática. É esse o âmbito do post de hoje.)
A primeira reflexão que me suscita o tema leva-me a uma pergunta incómoda. Repito, no meu conceito de direita democrática que estou a convocar para esta reflexão, o critério fundamental é o facto de querer ou não se confundir com a perspetiva antissistémica e anticonstitucional do Chega. Colocando a questão deste modo, a resposta não é tão assertiva como gostaria que fosse. O comportamento mais recente de governação da AD suscita dúvidas nessa matéria. Principalmente em matérias de imigração e de segurança, a vontade implícita de não se confundir com o Chega já viveu melhores dias e o meu colega de blogue bem o assinalou a propósito desta última decisão governamental de pagar uns milhões para não receber 420 imigrantes ao abrigo da solidariedade europeia previamente acordada na União. A matéria já fora ensaiada nos Açores com prejuízo claro para a qualidade da governação regional e estende-se agora às dimensões de governação anteriormente referidas.
Regressando às Presidenciais e pressupondo o benefício da dúvida de que existe a tal direita democrática definida nos meus termos, seria de esperar que a AD como um todo se perfilasse perante um candidato que emanasse desse quadrante político. Obviamente que um candidato que emana de um quadrante político afirma-se, quando vencedor, Presidente de todos os Portugueses, mas isso não invalida que não possa emanar de um quadrante político, sendo mais claro do que uma situação de candidato que não é referenciado em nenhum quadrante político-partidário.
Não vou entrar no domínio da discussão das características e perfis dos candidatos que se perfilaram à eleição de 18 de janeiro de 2026, mas com toda a fragilidade que pode ser-lhe associada, Marques Mendes seria o candidato desse referencial. As inúmeras fugas observadas a um envolvimento inequívoco com a candidatura de Marques Mendes são de difícil compreensão.
Vamos por partes.
O que é que explica que personalidades e antigos dirigentes ou ministros de governos AD, com filiação partidária clara, se entusiasmem com uma candidatura como a de Gouveia e Melo e a ela adiram, quando, pelo menos de início, o Almirante não resistiu à tentação de surfar a onda populista de renegar as forças político-partidárias como núcleo organizador do sistema democrático? Em meu entender, uma coisa é não ter empatia com o candidato que emana do quadrante político em que essas personalidades estão filiadas, outra coisa bem diferente é patrocinar uma candidatura que navega no mar fácil do não partidarismo. Há aqui qualquer coisa que não bate certo. Isto equivale a jogar em dois tabuleiros, filiação partidária para algumas matérias, o que dá sempre jeito, e apelo ao apartidarismo noutras ocasiões. Resultado concreto desta trapalhada: assistimos à destruição recíproca dos dois candidatos, com Ventura a esfregar as mãos e Seguro obviamente a fazer-se de morto.
Outro caso, cuja evidência clara não está, em meu entender, totalmente demonstrada, é a putativa aproximação de gente afeta a Passos Coelho da candidatura de António José Seguro. Essa referência surgiu na comunicação social, não imagino com que fonte, e por isso não a vou incluir na minha perplexidade. O que está claro é apenas que Passos e os seus entusiastas não morrem de amores por Marques Mendes. Mas daí a admitir que patrocinam objetivamente a candidatura de Seguro vai uma grande distância. A matéria serviu apenas à nossa esquerda kamikaze (expressão feliz do meu colega de blogue) para se desculpar da irresponsável ida até ao fim na corrida presidencial e não desistir a favor da candidatura de Seguro.
Deixei para o fim, e não foi por acaso, a estranha situação de Cotrim de Figueiredo e da Iniciativa Liberal. Ana Sá Lopes está com carradas de razão quando sublinha que ninguém entende o que passou pela cabeça do candidato surpresa de todas as sondagens publicadas, ao desperdiçar, veremos, o seu momento eleitoral com a condescendência de última hora com Ventura. A carta dirigida por Cotrim a Montenegro é um monumento de patetice e de piroseira política. Mas a relação entre a desorientação de Cotrim e a Iniciativa Liberal é difícil de estabelecer em bases sólidas, sobretudo atendendo à instabilidade de ideário que a novel força política tem revelado nos últimos tempos. Instabilidade que não é nova e que tem uma razão bem clara – a incapacidade de projetar o pensamento liberal no contexto concreto da sociedade portuguesa, não já falando na queda abissal do neoliberalismo que o mundo de hoje (de Trump e outros que tais) tem vindo a projetar.
Concluindo, a putativa direita democrática chega às Presidenciais desorientada e fissurada, seja por cedências ao populismo do Chega, seja pela miragem do apartidarismo.
Não apostaria seguramente a cabeça, mas terá sido muito provavelmente esta avaliação de contexto que os peso-pesados do PS fizeram para inverter a sua posição em relação a António José Seguro. Será isto suficiente para sossegar os democratas na segunda volta? Oxalá que sim.

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