Vamos, então, aos meus apontamentos e considerações finais relativamente a Domingo próximo. Faço-o com recurso à revisitação do exercício que aqui apresentei no primeiro dia de campanha, o qual, sem questionar a essência dos seus pressupostos metodológicos, integra uma modificação dos respetivos pressupostos analíticos à luz de uma interpretação tão objetiva quanto possível de dados e indícios provenientes das evoluções entretanto observadas (conteúdo das campanhas, mobilizações de rua e declarações dos candidatos, apoios recebidos e escândalos denunciados, sondagens e tracking-polls, probabilidades estimadas de vitória e previsíveis transferências de voto, entre outras) e assim procure captar com acrescida precisão os seus potenciais impactos resultadísticos.
As referidas alterações foram sendo diariamente introduzidas durante a última semana e até ao dia de hoje, sempre à luz das evidências que exogenamente se nos iam apresentando. O quadro abaixo elucida as transferências de voto finalmente assumidas, após os diversos ajustamentos e variações a que a semana foi obrigando – no cômputo geral, eis o que de essencial se consegue adiantar com algum grau de significância: há um ganho que parece consolidado por parte de Seguro, que fecharia a 22,5% após uma ligeira perda relativa nos dias recentes; subsequentemente a uma aparência de quebra entretanto infirmada pela mobilização destes dias, observa-se um incremento significativo de Ventura para cerca de 22%; depois de uma quase queda livre, vemos uma recuperação marcante de Mendes (atingindo os 21%), embora talvez já não suficiente para lhe garantir a segunda volta; Gouveia parece atingido por uma perda de expressão (finalizaria a roçar os 14%), o que ocorre em linha inversa às evoluções de fixação dos eleitorados habituais dos três maiores partidos; Cotrim não confirmará as suas melhores previsões que o indicavam, à partida para a última semana, em aparentes condições de aspirar à disputa de um lugar na segunda volta e, fruto de manifestos e incompreensíveis erros próprios e primários, fica limitado a uns honrosos 11% (bem acima do peso eleitoral da Iniciativa Liberal).
MATRIZ FINAL DE TRANSFERÊNCIA DE VOTOS (em %)
Atente-se ainda no gráfico seguinte para uma melhor elucidação da evolução ocorrida na semana, constitutiva daquilo que designei grosseiramente por uma espécie de tracking-poll caseira.
O resultado obtido na sequência das novas hipóteses consideradas aponta, assim, para que a prevalência de um significativo grau de fixação dos respetivos eleitorados por parte de Seguro e Ventura – e menos conseguida no caso de Mendes –, além de algum voto útil no caso do socialista, dificilmente não garantirão àqueles dois candidatos uma passagem à segunda volta, desenlace que começa a ir ficando de algum modo consensualizado na opinião pública. Em contraponto, os balões que mais pareceram encher ao longo deste processo – Gouveia numa fase muito embrionária em que era encarado como vencedor antecipado e Cotrim mais recentemente e em linha com a candidatura moderna e diferenciada que protagonizou – acabam por ser aqueles que julgo estarem a ficar fora de continuidade na contenda, quer por razões de falta ou escassez de base eleitoral quer em virtude da senda de recuperação de Mendes e do elã logrado por Seguro quer, ainda, fruto de erros cometidos. No que toca a Mendes, a ajuda de Montenegro e de algum aparelho do PSD terão provavelmente contribuído para estancar o rumo desastroso em que se deixou cair o candidato da AD e do Governo – que não era e passou a ser. Ademais, e manuseando os números à luz de um questionamento de alguns dos meus próprios pressupostos metodológicos, fiquei mesmo com a ideia de que um aumento da taxa de abstenção (dos 38% assumidos para 42%, p.e.) se poderia repercutir mais negativamente numa parte do eleitorado do Chega menos atreito a estas andanças, assim penalizando o resultado de Ventura e abrindo uma pequena janela de esperança a quem tantos anos gastou a preparar a sucessão de Marcelo para depois tão canhestramente desenvolver a sua estratégia de campanha.
Termino: embora continuemos a não saber quem sorrirá no Domingo à noite, pelo caminho que as coisas levam apostaria que iremos assistir a três semanas de berraria de Ventura contra o socialismo esbarrando na couraça da indiferença que Seguro construiu para se apresentar a este desafio que lhe é quase existencial.


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