Se há coisa que me é incompreensível nas eleições presidenciais em curso é a posição de intransigência em relação a um possível voto útil assumida pelos candidatos à esquerda do Partido Socialista. Cada um à sua maneira, e por razões muito próprias do foro histórico ou por mero sectarismo e cegueira, António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto parecem aceitar com tranquilidade uma forte probabilidade de passagem à segunda volta do candidato de extrema-direita, a hipótese a não excluir de uma segunda volta disputada por dois candidatos à direita do espetro político e uma evolução do País no sentido de uma revisão constitucional que ponha em causa algumas das “conquistas” com que em permanência enchem a boca. O único merecimento que se lhes tem de reconhecer é o de serem capazes de afirmar sem hesitações – e sem pinta de enrubescimento! – que esquerda é consigo, que Seguro é igual a Mendes e que não são candidatos de fação.
Nenhum dos três parece ter aprendido nada com os acontecimentos políticos observados nos últimos anos, nenhum dos três tem conselheiros abertos à realidade circundante, nenhum dos três se filia numa organização que efetivamente se pontue pelo interesse nacional e por um verdadeiro instinto de sobrevivência do respetivo espaço político. Filipe é militante de um PCP que se deixou obcecar pela culpa de uma participação na “geringonça” a que atribui os piores malefícios, embora ainda hoje o líder da CGTP tenha vindo admitir o impacto enorme do futuro Presidente no rumo do mundo do trabalho, o caráter fundamental de que o mesmo seja um defensor da Constituição e que o Governo estará a contar com a IL e o Chega para aprovar uma lei laboral que considera ofensiva dos direitos dos trabalhadores. Catarina foi corresponsável por uma evolução do Bloco no sentido da irrelevância e não se apresenta articulada com a ex-líder Mariana Mortágua que, na sua entrevista de saída, afirmava que o “sectarismo é fatal para a esquerda” ou, mais enfaticamente ainda, que “foi fatal no passado, sê-lo-á no futuro e é uma tentação nos momentos de recuo”. De Jorge poder-se-ia dizer que é jovem e não pensa – ou, pelo menos, não tem a experiência de que se reclamam à respetiva maneira os seus diversos adversários – e que as suas declarações assaz contraditórias o ilustram bem e lamentavelmente estragam a prestação positiva que teve (Ana Sá Lopes falou de um “harakiri”), mas o mesmo não é válido para um Rui Tavares que em setembro queria “um Presidente de esquerda para reequilibrar o País”, que ostenta a responsabilidade de comandar uma esquerda alegadamente diferenciada que tem crescido em Portugal e que agora saltita de nenúfar em nenúfar com um silêncio ensurdecedor como pano de fundo.




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