(Hoje é dia de reflexão, depois de duas semanas agitadas, em que o martelar da “tracking pool” que a CNN capitalizou até à exaustão se substituiu perversamente ao choque de ideias e de perfis dos presidenciáveis. Em meu entender, há que distinguir claramente entre a indeterminação do resultado que teremos no fim da noite de amanhã do mito da indecisão quanto aos candidatos a privilegiar. No meu modesto entender, pelo menos para aqueles portugueses que prezam o atual quadro constitucional e o valor e grandeza das suas principais conquistas em democracia, a indecisão de voto é um mito. Explico-me. Vamos retirar da equação reflexiva os que vieram a terreiro apenas para massajar o ego e conquistar uns minutos de audiência e notoriedade e o grupo da esquerda desesperada, António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto, que continuam sem perceber rigorosamente nada do vazio em que uma má escolha e um voto de protesto antissistema nos pode tragicamente colocar, conduzindo-nos a uma experimentação indesejável e da qual todos nos arrependeríamos. O que resta então?)
Não é difícil retirar destes pressupostos a conclusão que temos cinco candidatos presidenciáveis, mas cuja importância não é homogénea. Destes cinco candidatos, há dois, Cotrim e Ventura, cujo posicionamento contra o quadro institucional atual é manifesto que, por isso, para um democrata que se identifica com o modelo social vigente, sem deixar de ser dele crítico e contribuinte para a sua melhoria, não pode confiar nas referidas duas personalidades. O primeiro desses dois nomes poderá ter enganado muita gente, mas não a este Vosso Amigo. O que é colocado com cola de fraca qualidade um dia esboroa-se e foi o que aconteceu. Felizmente na altura certa. Com esta conclusão, desfaz-se o mito da indecisão de voto para os democratas que prezam o modelo em que vivemos, tanto mais que esse modelo, resquício e versão imperfeita do modelo europeu, está hoje ameaçado. Parte da indecisão é ultrapassada, rejeitando os candidatos que querem destruir esse modelo. Clarinho como água da mais cristalina.
Quanto à indecisão nos restantes três, Seguro, Mendes e Melo, ela não é fundamental. Por mais imperfeições e idiossincrasias mais criticáveis para o nosso gosto que possamos reconhecer existir nas três personalidades, de uma coisa podemos ter a certeza. Nenhum dos três trai a nossa confiança no quadro constitucional e na defesa do tal modelo que prezamos. Podemos discutir se é sensato alimentar a hipótese de constituição de um novo partido, como o PRD de efémera vida no espectro político português, alimentando a candidatura de Gouveia e Melo. Admito que isso possa suscitar reservas futuras. Mas essa não é a questão fundamental. O essencial é que nenhum dos três personagens trai a nossa confiança constitucional e nas conquistas com ela alcançadas.
Se o democrata-tipo, potencialmente indeciso, for de esquerda, essa indecisão estará reduzida a zero.
Logo, em resumo, onde está a indecisão relevante.
Ou seja, não vendo indecisão, existe sim indeterminação, pois hoje não sabemos verdadeiramente quanto vale quantitativamente o número dos que associam protesto e descontentamento a uma trágica e perversa vontade em destruir o quadro institucional vigente.
E desculpem qualquer coisinha, mas se esse número for grande então será para mandar às urtigas o voto pio de unir os Portugueses num desígnio comum. Não estou disposto a partilhar socialização e convivialidade com que os na sua miopia de contemplar o umbigo querem contribuir para a destruição do nosso modelo social e constitucional.
Entendamo-nos.
Um bom domingo e voto sábio.

Sem comentários:
Enviar um comentário