quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

FERNANDO MAMEDE

 


(Talvez tenha sido no passado injusto, quando em alguns dos meus escritos e intervenções públicas me socorria do que se designava de “síndroma de Fernando Mamede” para abordar um dos pressupostos estados de ânimo dos portugueses, traduzido na sua incapacidade de vencer quando reuniam todas as condições para o concretizar. Num tempo em que as questões psicológicas dos atletas era um tabu, para a imprensa, para os técnicos e para os próprios, o medo de vencer e das dificuldades sobrepôs-se a um potencial notável que o levou durante alguns anos a deter o recorde mundial dos 10.000 metros, mas a gerar uma espécie de fobia à conquista de medalhas. O próprio Fernando Mamede confessou mais tarde que se então tivesse beneficiado de apoio psicológico teria chegado muito mais longe do que chegou. O velho e sábio Moniz Pereira, seu treinador e que Mamede considerava um segundo Pai, dizia o óbvio, retirem-lhe a exigência de ganhar medalhas e verão a excelência de atleta que ele é. Se compararmos hoje as condições oferecidas aos atletas e o contexto em que gente como Mamede, Carlos Lopes, Rosa Mouta ou Aurora Cunha corriam inicialmente, rapidamente compreendemos que aquela gente era heroica, com ou sem o medo de vencer. Por isso, agora que enfrentando problemas cardíacos Fernando Mamede nos deixou, depois de um regresso ás origens simples de Beja, a combinação de um enorme talento com a vulnerabilidade classifica-o como alguém que faz parte da história cimeira do atletismo em Portugal. Devemos, por isso, em homenagem à sua memória, dissociá-lo da ideia de perdedor e aqui estou a tentar redimir-me do facto de, por mais de uma vez, ter recorrido ao síndroma para caracterizar outras coisas. Recordá-lo como um grande atleta que não foi devidamente tratado à depressão que o marcava é a melhor maneira de lhe devolver a áurea que merece, pois ser um Grande Atleta naquelas condições de vulnerabilidade não é para muitos.)

 

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