(Assistir pela televisão, presencialmente só talvez numa outra encarnação, ao Concerto de Ano Novo no Musikverein de Viena já faz parte do ritual de abertura de ano. O prazer da partilha da fruição do espetáculo com melómanos de 150 países entusiasma qualquer um, a qualidade da Filarmónica de Viena está a caminho da perfeição e existe sempre a expectativa que uma nova direção da orquestra nos traga novidade mergulhada em tanta tradição. O maestro canadiano Yanick Nézet-Séguin teve hoje a sua oportunidade de inovar nesse ambiente de tradição e, sem ser um concerto propriamente empolgante, a prestação permitiu-me enriquecer o conhecimento do reportório não apenas straussiano, nos seus vários expoentes, mas de outros autores cujos nomes e obra desconhecia por completo. A empatia de Nézet-Séguin com a Filarmónica de Viena e o seu estilo de direção de memória ressaltaram de toda a prestação, desde as peças mais intimistas, até às mais animadas, com algumas pequenas diatribes pelo meio como, por exemplo, os elementos da orquestra cantarem e numa fabulosa peça com o Galope do comboio a vapor de Copenhaga de Hans Christian Lumbye algumas excentricidades ferroviárias musicais terem deliciado o público presente. Depois de uma declaração empática sobre a Paz que fica sempre bem nas consciências e de um Danúbio Azul para antecipar o fim do concerto, a marcha Radestzky já foi tocada num ambiente de festa total, com Nézet-Séguin já eufórico no meio do público, incluindo o beijo ao seu companheiro, o violetista Pierre Tourville, incorporado para a ocasião na Filarmónica vienense. As belas coreografias do americano John Neumeier entrecortaram com o belo património vienense como companhia o espetáculo.
Não pode dizer-se que se trate de uma abertura de ano marcadamente popular ao jeito, por exemplo, dos PROMS em Inglaterra, já que pelas imagens se sente a presença das classes superiores vienenses e cada vez mais gente com muita pinta, não austríaca, refletindo seja a presença de turistas de classe elevada, seja de representantes diplomáticos. A popularidade do evento não está obviamente na disputadíssima procura de bilhetes para a Musikverein, mas antes no prodígio da audiência mundial (150 países partilhando a transmissão da televisão austríaca), na qual ritualmente me incluo.
Para os leitores mais melómanos, posso acrescentar que o El País e o El Español publicaram hoje duas belas crónicas sobre o espetáculo, com o requinte de comparação de qualidade com direções de alguns anos anteriores.

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