quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

UM DEBATE EMPASTELADO

Como se previa, o debate único entre os dois candidatos à segunda volta presidencial foi morno e chocho. Seguro não arrisca um milímetro para se tornar “incapturável” e Ventura tenta desesperadamente mostrar-se capaz de alguma moderação e propositura mas o pé quase lhe foge recorrentemente para a chinela. Ontem, o populista estava visivelmente nervoso, apresentava uns olhos estranhamente raiados de vermelho, repetia como nunca aquele seu revelador e irritante “deixe-me só dizer isto” e interferia quanto podia nas intervenções do adversário. Este mantinha a compostura sem grande dificuldade porque ela é parte da sua natureza, embora tenha cometido a gafe de elogiar uma alegada mudança de posição de Cavaco – coisa que é uma impossibilidade perante a infalibilidade com que o dito se considera ungido – e deixado a impressão de que, mesmo depois de eleito, continuará a não arriscar qualquer movimento fora da caixa de que tanto o País carece (a sua advertência de há dias quanto à questão da regionalização foi disso paradigmática ao afirmar que não cabe ao Presidente da República decidir se a questão vai ou não a referendo, ao referir que "se é para criar mais cargos, mais encargos, não, já chega" e ao acrescentar que "eu julgo que é possível, com os quadros que existem nas CCDR, os quadros que existem nas CIM, e portanto com essa despesa que já existe, fazer até economias de escala e poder resultar em benefícios"). 

 

Entretanto, algo que Ventura já logrou alcançar foi o apoio a Seguro por parte de duas figuras especiais do nosso centro-direita, Cavaco e Portas, que se adiantaram com decência a outros com mais obrigações na conjuntura presente, como Montenegro, Cotrim, Gouveia, vários signatários do manifesto do Almirante (parece que há divisões nestas paragens, pasme-se!) e até o sebastiânico e provavelmente irrecuperável Passos. Noutro plano, o ardiloso uso de uma certa inteligência analítica por parte de Jaime Nogueira Pinto (e sua filha acólita Teresa) ou do historiador Rui Ramos não redime a sua cumplicidade com um distorcido revisionismo histórico e uma indefensável leitura da factualidade que se desenrola diante de nós.


(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

(Luís Afonso, “Bartoon”, https://www.publico.pt)

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