(Após termos escutado a provavelmente mais fanfarrona declaração de todos os tempos dos Presidentes americanos com que Trump brindou o mundo depois de “ter assistido pela televisão”, como se de uma série de ação se tratasse, à operação desenvolvida contra Nicolás Maduro, vão-se conhecendo alguns pormenores sobre a bem-sucedida intervenção, mas paradoxalmente vão-se adensando as dimensões mais misteriosas deste perigoso precedente na violação do mais elementar direito internacional. Multiplicam-se, de facto, os aspetos não explicados, a começar pela estranha opção de aceitar de bom grado a passagem do poder para a vice-presidente de Maduro, a chavista Delcy Rodriguez e, simultaneamente, de afastar liminarmente do poder a Nobel da Paz Corina Machado, podendo mesmo dizer-se que as dimensões não explicadas superam de largo as que são melhor-conhecidas. Pesquisei as mais diversas interpretações sobre o que efetivamente se passou até à detenção em Brooklin de Nicolás Maduro e a que mais atraiu a minha atenção foi um longo comentário de Michael D. Sellers, um antigo funcionário da CIA, especialista nas questões da Rússia e presentemente investigador, no qual é possível encontrar a cenarização do que pode ter acontecido.)
A primeira observação de Sellers foca-se na inusitada operação de duas horas para concretizar o planeamento realizado, que é incomum em operações sobre as quais existe informação imperfeita e cuja avaliação de risco exige o encurtamento do tempo das respetivas operações. Esta contradição com as “boas práticas” reconhecidas neste tipo de operações faz-nos pensar que a indeterminação não seria grande e que o terreno fora preparado com contactos e compromissos apaziguadores com o círculo mais íntimo de Maduro.
A segunda perplexidade é a total inexistência de baixas entre as tropas americanas e apaniguados de Maduro adensando os aspetos misteriosos desta operação. Muito provavelmente, Maduro não estaria escondido em qualquer instalação de segurança máxima, pois duas horas de operação total sem a produção de baixas de qualquer um dos lados são algo de surpreendente e sinal de que existe aqui matéria menos clara. Sellers identifica quatro possíveis coisas que podem ter acontecido: “i) controlo do perímetro de segurança de Maduro concretizado sem qualquer resistência; ii) verificações e negociações deliberadas; iii) acordo local ou obediência cega a ordens exteriores; iv) ou um objetivo que nunca foi verdadeiramente hostil à entrada das forças americanas”.
Qualquer uma destas possibilidades está em contradição com a magnitude dos meios envolvidos, que Trump classificou de ego cheio da maior operação miliatar realizada desde a Segunda Guerra Mundial. Perplexos? Sim, há muitas razões para isso.
A não observação de baixas adensa ainda mais o mistério, pressupondo muito provavelmente uma negociação prévia com as forças do regime de Maduro, transformando a operação não como um raide mas como uma operação exclusivamente destinada a assegurar a transferência para os EUA de Maduro.
Esta cenarização do contexto em que a operação decorreu permite antever que na negociação do compromisso realizado tenha estado o acordo americano com a indicação pelo Supremo Tribunal venezuelano do nome de Delcy Rodriguez e garantido o controlo da intervenção americana na indústria petrolífera venezuelana, tão do agrado do presidente americano e fortemente realçada na sua fanfarrona declaração aos americanos e ao mundo.
Se estas explicações estiverem corretas compreende-se que Corina Machado não tenha recolhido o apoio da administração americana, que Rubio e Trump falem de uma transição política não sujeita nem a prazos nem a condições prévias e, estranheza das estranhezas, seja uma chavista a assumir o lugar de Maduro nos próximos tempos.
Não deixa de ser curiosa a síntese final que o ex-funcionário da CIA realiza:
“Não se trata de admirar a operação ou de a condenar, ou diminuí-la de qualquer modo. Trata-se antes de a interpretar corretamente.
Uma captura de duas horas, sem derramamento de sangue, de um presidente presumivelmente no interior de um ambiente minimamente fortificado sugere algum tipo de fratura interna, de um constrangimento negociado ou de uma paralisia temporária, não de uma vitória imaculada.
Esta distinção é relevante não apenas para a nossa compreensão de como a captura teve lugar, mas pode também moldar o que virá a seguir, por exemplo se a autoridade local se consolida ou colapsa, se a cooperação se revelou ilusória e se a agora limpa extração se transformará num caos de amanhã.
Como antigo funcionário da CIA, afirmo seguramente o seguinte:
Quando a mecânica observável de uma situação não coincide plenamente com a retórica, prestem atenção à mecânica. Elas usualmente estão a dizer a verdade – calmamente- até que a política alinhe.
Fiquem atentos”.
Aconselho por isso os nossos representantes mais direitistas, prontos em toda a linha para racionalizar e desculpabilizar o precedente da operação americana, que esperem pelos desenvolvimentos futuros e que abstraiam da fanfarrona proclamação de Trump. Se isso lhes for possível, o que eu duvido.
À boleia de Bradford DeLong, deixo-vos ecos interpretativos do que se passou em Caracas:
1. Associated Press — What to know about the U.S. capture of Venezuela’s Maduro
https://apnews.com/article/venezuela-us-maduro-what-to-know-a57528ff315a7f70ed51a1721f5e0bc2
2. Associated Press — U.S. plans to “run” Venezuela and tap its oil reserves, Trump says
https://apnews.com/article/ca712a67aaefc30b1831f5bf0b50665e
3. CBS News — U.S. strikes Venezuela and captures Maduro; Trump says U.S. would “run” country temporarily
https://www.cbsnews.com/live-updates/venezuela-us-military-strikes-maduro-trump/
4. Financial Times — Nicolás Maduro captured by U.S. forces and flown out of Venezuela
https://www.ft.com/content/46ee8a0f-d421-4f7d-9514-297a576ec346
5. Reuters — Venezuela rejects “military aggression,” says attacks hit Caracas and several states
6. Reuters — Venezuela vice president Rodriguez in Russia, four sources say
7. Reuters — Loud noises heard in Venezuela capital; southern area without electricity
8. PBS NewsHour — “We want it back”: Trump demands Venezuela return land, oil rights to U.S.
9. Times of India — “Dragged out of their bedroom”: new details on how U.S. captured Maduro and his wife
10. The Guardian — Colombia’s president says Caracas is being bombed, urges UN Security Council meeting
https://www.theguardian.com/world/2026/jan/03/venezuela-caracas-explosions-colombia-petro-un
Nota complementar
Já depois deste post estar publicado, novas informações surgidas na imprensa internacional permitem concluir que a tese da ausência de baixas humanas não é correta. Pelo menos, os guarda-costas de Maduro terão sido eliminados. Esta nova informação não prejudica totalmente o sentido do post, pelo que o manterei.
Aproveitei, entretanto, para inserir a filiação digital do comentário de Michael D. Sellers.

Sem comentários:
Enviar um comentário