sábado, 10 de janeiro de 2026

MERAS IMPRESSÕES PRESIDENCIAIS

 

(O meu colega de blogue desenvolveu a dimensão analítica e prospetiva das Presidenciais de todas as dúvidas a um nível de apuramento que, obviamente, não me atrevo a percorrer esse trilho, tal é a sua solidez. Não podendo, entretanto, fugir ao tema, pois estamos a meio de uma campanha eleitoral que lá vai animando as hostes de cada candidato, enveredo por um registo mais impressivo, não diria emocional, mas quase, partilhando a ideia comum a muita gente de que estamos no meio de uma séria indeterminação. Podemos assim começar a semana de 19 de janeiro tanto com a sensação de estarmos a viver no país errado, como partilhando a sensação de um alívio sonso, convidando a uma penosa adaptação, afinal é com este estado de coisas que podemos contar. Só neste registo mais impressivo do que analítico me atrevo a comentar o momento eleitoral, depois de uma longa maratona que aproximou o país político do estado deplorável em que o mundo está. Habituem-se, como diria o outro.)

A primeira impressão sugere-nos que estamos a viver um início de ciclo político mais alinhado com o estado deplorável do estado político do mundo do que desejaríamos. Afinal, este naco de país à beira-mar plantado não está, afinal, tão afastado e marginalizado das tendências que povoam o mundo político e o gap temporal com que as coisas do exterior nos costumavam visitar estará a provavelmente a ser encurtado, fruto da aceleração das coisas, mas também influenciado pela vulnerabilidade não resiliente do país. Não podendo dizer que se trata de um naipe homogéneo, a verdade é que o conjunto de personalidades à frente das quais podemos colocar a cruz do nosso apoio marca pela sua mediania a política a que poderemos aspirar no futuro. Se tivéssemos estado atentos à sequência evolutiva da maratona eleitoral que agora se encerra (por quanto tempo?), perceberíamos que o filão das grandes personalidades está a exaurir-se não só pela indeclinável demografia, mas também pelo carácter pesado dos estímulos negativos que se abateram sobre o exercício da vida política, sobretudo para aqueles que resistem e continuam a não ter uma visão transacional da sua prática. Olhando comparativamente para o passado a sensação é arrepiante, mas muito provavelmente, se não se alterar o contexto dos estímulos ao exercício da cidadania política ativa, é com a mediania que vamos ter de trabalhar.

A sensação de início de um ciclo político mais pobre adensa-se quando daqui a uns meses estaremos a recordar a ausência de Marcelo, com todas as suas idiossincrasias.

A segunda impressão é que a evolução do posicionamento relativo dos diferentes candidatos é em si própria informativa, embora seja cada vez mais difícil avaliar se sondagens e “track pools” refletem o mais profundo sentimento das populações ou se, pelo contrário, refletem já um misto cívico-mediático no qual não somos capazes de distinguir entre o que é influência da bolha mediática e o que traduz o sentimento real dos portugueses. Dos altos e baixos dos diferentes candidatos, o conteúdo sociológico mais interessante é o que é fornecido pelas dificuldades óbvias de adaptação ao comentário publico de Marques Mendes. O candidato que mais bateu na tecla da experiência, isso está traduzido em inúmeros cartazes, esforça-se hoje por se distanciar da sua “experiência” de facilitador de negócios. É inquestionável que Marques Mendes mediu mal essa dimensão da sua experiência, que procurou diluir nas inúmeras horas de comentário político em horário nobre que realizou. Mas o que as dificuldades de Marques Mendes em responder nesse plano mostraram é que a sociologia da população eleitora está a mudar. Se isso é ou não sinal de degenerescência populista não é esse agora o ponto importante, a verdade é que o cidadão mediano que se depara com problemas concretos de “affordability” (ver o meu post sobre a matéria) abomina personagens que singram na vida com a referida facilitação. Não existe investigação empírica sobre a matéria, mas uma população que compreende e até aplaude o desenrascanço torce-se toda contra a facilitação desse teor. Não estou a afirmar que o tema seja suficientemente penalizador para afastar Marques Mendes da segunda volta, mas há aqui um erro de cálculo que obrigou a campanha de Mendes a adaptar o discurso e, entre outras coisas, a aproximar-se mais do apoio do Governo do que desejaria. E sobretudo manifestou impreparação quando se percebeu que o tema não tinha sido antecipadamente na sua campanha. É uma incógnita qual a percentagem de eleitorado AD que Marques Mendes vai segurar e, para minha surpresa, nunca imaginei que dentro do próprio PSD houvesse tanta resistência à personalidade.

A terceira impressão é que me dá especial gozo assistir às pancadinhas do PS nas costas de António José Seguro perante a possibilidade real de uma presença na segunda volta, sobretudo dos que viam em Seguro algo pior do que uma colherada de óleo de rícino ou de óleo fígado de baleia (memórias infantis). Estou à vontade na matéria, pois não sendo um entusiasta de Seguro, muito tempo antes da sua visibilidade eleitoral defendi aqui neste espaço de reflexão que o PS não tinha outra alternativa. É difícil saber se a ascensão de Seguro é apenas um fogacho de sondagens e da espuma mediática. Mas não posso deixar de considerar inteligente a postura de Seguro em deixar que os seus adversários “se matem uns aos outros”, evitando que os picos da tal lama política sujem os seus esmerados fatinhos. Não sei se essa inteligência tática chegará para uma ida honrosa à segunda volta. De qualquer modo, qualquer que seja o resultado, o regresso à política de Seguro não foi penoso, antes pelo contrário.

A quarta impressão é mais do mesmo sobre a idiotice da esquerda à esquerda do PS. Nenhum dos candidatos em contenda percebeu que os tempos são outros e que a sua ânsia de revelar as preciosidades das suas ideias programáticas não vale rigorosamente nada quando confrontada com a necessidade de barrar o caminho ao populismo de direita nos órgãos do Estado. Não sei se é masoquismo político ou simplesmente excesso de ego ou até manifestações do síndroma de não aparecer nas notícias.

E, finalmente, o resultado estimado para Cotrim de Figueiredo mostra que a Iniciativa Liberal poderia ter feito bem melhor em eleições passados no aproveitamento do seu potencial. Será possível admitir consequência do resultado de Cotrim na condução dos rumos do partido? É uma questão a monitorizar no futuro.

Não tenho reflexão nova sobre os resultados estimados para Gouveia e Melo e André Ventura. Sobretudo no caso de Gouveia e Melo, a sua evolução até à campanha eleitoral foi demasiado variada, oscilante e, em alguns momentos, até contraditória. A áurea com que elevadas percentagens de eleitorado potencial que lhe foram atribuídas o colocaram num pedestal vencedor desvaneceu-se em parte porque a mensagem do não partidarismo foi-se esfumando na espuma do momento político. Não sou particularmente adepto da tese da impreparação política do Almirante, já que para o seu eleitorado potencial essa impreparação pode até ser vista como um cartão de visita recomendável, sobretudo em confronto com a tal “experiência de facilitação” atribuída a Marques Mendes.

 

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