domingo, 21 de dezembro de 2025

AFFORDABILITY

 


(Não é minha intenção ser presunçoso, nunca o fui e não será agora que o serei. Mas a minha palavra do ano é a anglo-saxónica “affordability”. É sempre curioso quando o nosso vocabulário se torna curto e temos de recorrer a palavras de outras línguas. Verdadeiramente, pode dizer-se que “affordability” tem significado em português. Trata-se de poder aceder a bens e serviços a preços moderados, não do ponto de vista do seu valor absoluto, mas na perspetiva da relação que existe entre o preço das coisas e o nosso rendimento. O que significa que a história da “affordability” é também algo que gira em torno do nosso poder de compra. Outras vezes, porém, a “affordability” depende também das condições de oferta, como é, por exemplo, o caso gritante da saúde pública, que se tornou tão pouco “affordable” para muitos portugueses, ou pelo menos de acesso difícil em muitas zonas do país. Mas claramente a habitação e o acesso a alguns produtos alimentares foram para muitos portugueses fonte de muitos problemas em termos de acessibilidade. Em meu entender, o tema da “affordability” esteve no centro dos desencontros entre o sentimento mais profundo dos eleitorados e as propostas políticas da esquerda, seja ela social-democrata e socialista, seja algo mais radical. Já repetidas vezes defendi a tese de que a descida do preço dos transportes públicos nas duas áreas metropolitanas, a que se seguiram ensaios similares algo tímidos noutras zonas do país, revolucionou a vida de muitas famílias de médios e baixos rendimentos, sendo o principal fator da grande aceitação de que o primeiro governo de António Costa suscitou. Um problema típico de “affordability”.)

No plano externo, as eleições deste ano em alguns estados e cidades americanas, com relevo para Nova Iorque, que forneceram algum fôlego à resistência dos Democratas, alavancando, esperamos nós, uma boa prestação nas eleições intercalares, forneceram em muitos casos propostas consequentes em matéria de incremento dos níveis de affordability para muitos indivíduos e famílias americanos.

Uma matéria que contribui fortemente para a relevância política deste tema situa-se no sempre complexo impacto que a inflação tem nas diferentes famílias e indivíduos. Como é conhecido, o controlo do processo inflacionista gerado a partir da pandemia e das perturbações de oferta que a situação internacional, com destaque para a guerra na Ucrânia, foi lento e deixando o nível de preços de muitos bens e serviços em valores de difícil acesso para muitos rendimentos. O controlo da inflação é o controlo da variação dos preços, fazendo com que a sua variação entre em desaceleração até situar-se em torno do mítico valor (imposto pela política monetária) dos 2%. Mas, entretanto, essa desaceleração e posterior estabilização não significa que o nível geral de preços desça. Temos essa perceção todos os dias, quando nos espantamos com o preço de alguns produtos alimentares, os legumes por exemplo. Muitas vezes, são resquícios pontuais de especulação que demoram tempo a ser erradicados e isso repercute-se negativamente nas condições gerais de affordability que muitas famílias passaram a experienciar.

Grande parte das forças políticas não teve sensibilidade para compreender este impacto inflacionista que está muito além do comportamento dos índices gerais de preços. Continua a haver um enorme gap entre o que é a perceção do desempenho económico global do país e a sua tradução nas diferentes condições de affordability das famílias, sobretudo daquelas em que o seu rendimento não tem a flexibilidade necessária para responder aos resquícios especulativos e aos efeitos altistas dos preços.

Mais ainda, não é possível, por mais rigorosos que os índices se apresentem, forjar uma perceção global dos níveis de affordability. Essa perceção é de cada um e de cada família.

Neste período de festas, em que o comércio tradicional desabafa dizendo que pena é não ser Natal todos os meses, todos os problemas de acessibilidade ao consumo parecem atenuar-se, tamanha e tão intensa é a febre da ida às lojas. Mas só aparentemente. Em janeiro, regressarão os problemas de affordability para aqueles em que o rendimento continua a não ser elástico.

 

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