Fonte: Brad W. Setser, "China´s Massive Surplus is Everywhere (Yet the IMF still has trouble seeing it clearly". Council of Foreign Relations, novembro de 2025
(Sem qualquer pretensão de prospetiva, quero dedicar alguns posts às principais interrogações económicas que vão colocar-se em 2026, num contexto geral em que a globalização já viveu melhores dias e onde parece que está a regressar-se ao velho tema da manipulação do comércio internacional como forma de fazer a guerra. Os direitos aduaneiros foram utilizados em 2025 como uma modalidade do bullying económico mais agressivo que alguma vez fora visto na economia mundial por parte de Trump, segundo um modelo profundamente errático e à mercê dos humores do presidente americano. A economia mundial passa por tempos da mais profunda incerteza, mesmo descontando que algumas das ameaças económicas de Trump têm sido inconsequentes. Mas, mesmo numa economia mundial à deriva e desesperadamente à procura de princípios que lhe garantam alguma estabilidade de horizontes futuros, é possível identificar os principais tipos de interrogações que sobre ela irão colocar-se em 2026 e, sabe-se lá, se com continuidade para anos seguintes, dada a espessura estrutural de algumas dessas interrogações. Vou começar por tratar uma dessas interrogações, começando por uma com consequências sistémicas consideráveis, incluindo nestas consequências a questão do seu efeito sobre a conflitualidade bélica e política. O tema com que abro esta série de fim de ano é a questão de saber o que vai acontecer ao “excedente comercial chinês” que tem dominado a economia mundial na última década, sobretudo na segunda metade da mesma. Estou confortável com esta opção, até porque posso recorrer à reflexão que Paul Krugman tem vindo a realizar sobre este tema, não com o horizonte de antecipar o que 2026 nos pode trazer economicamente falando, mas essencialmente com o objetivo de situar a até agora inglória e falhada tentativa da administração Trump para combater esse problema.)
Keynes, melhor do que ninguém, nos contextos do pós-1ª Guerra Mundial e pós-2ª Guerra Mundial, ajudou-nos a compreender que uma economia mundial saudável não pode permitir-se ao luxo de acolher no seu seio países que desenvolvam excedentes comerciais externos permanentes. A existência de países duradouramente excedentários no plano externo pressupõe a existência da outra face da medalha, países permanentemente deficitários. Um panorama saudável da economia mundial pressupõe, pelo contrário, que os países alternem posições excedentárias e deficitárias. A administração Trump tem como sabemos a fobia de encarar os défices comerciais externos como uma forma de debilidade económica e um indicador de que a economia americana é maltratada por aqueles países que mantêm com a economia americana uma situação de excedente comercial. E utiliza o bullying dos direitos aduaneiros como forma canhestra de ameaça a esses países. É conhecida a iliteracia económica básica de grande parte da administração de Trump e tudo indica que as eleições intercalares de 2026 vão colocar Trump perante a evidência do carácter interno nefasto dessa política comercial externa do antigamente.
O excedente comercial externo chinês já ultrapassou no tempo e na magnitude a característica de excedente temporário e todos os compromissos verbais assumidos pelas autoridades chinesas têm caído em saco roto. Krugman tem razão quando refere que a ultrapassagem dos milhões de milhões de dólares no montante desse excedente comercial externo representou uma espécie de marco. A magnitude deste valor associado à permanência do excedente significa que a economia mundial tem aqui um problema e peras para gerir. Os EUA e a Europa são a outra face da moeda e percebe-se a azáfama de Trump em tentar combater esse problema, podendo até dizer-se que a sua malévola aproximação á Rússia não é mais do que a tentativa de manter as relações entre a Rússia e a China num estado de relativa estagnação, questão cujo sucesso tem sido igualmente relativo.
Vou passar por cima, dada a sua natureza marcadamente técnica, da questão de saber como medir o tal excedente comercial externo. A medida absoluta mais corrente é a da balança externa corrente (o que se designava no meu tempo de balança das transações correntes) e em termos relativos é a sua relação com o PIB dos países. Há analistas que se insurgem com esta medida, pois atribuem às autoridades chinesas práticas pouco abonatórias de medida com rigor dessa balança, interessadas que estão essas autoridades em diminuir artificialmente a magnitude desse excedente comercial. Por isso, muitas vezes se utiliza a balança comercial, pois nesta forma é sempre possível confirmar valores nos países de destino das exportações chinesas.
O que choca verdadeiramente no excedente comercial chinês é a sua relação com uma economia com a dimensão da chinesa. Os valores desta natureza tenderão sempre a perturbar a economia mundial, aliás como está a acontecer.
Fonte: Mattew Higgins. "Why Investment Led.growth lowers Chinese living standards". Liberty Street Economics, novembro de 2024.
Como é óbvio, a dimensão deste excedente comercial está indissociavelmente ligada à capacidade espantosa de exportação chinesa. Mas a interpretação mais sábia da magnitude desse excedente é a sua relação com o subconsumo da população chinesa. Existem materiais políticos das autoridades chinesas que mostram que a hipótese do subconsumo é deliberadamente assumida. Esta hipótese é por vezes deficientemente compreendida, porque a existência de excedentes comerciais permanentes pode ser interpretada como um sinal de fraqueza económica interna. Krugman mostra com clareza que o consumo per capita dos chineses está abaixo do que o seu rendimento per capita global justificaria (ver gráfico acima). Tudo se passa como se o regime chinês não queira deliberadamente que a sua população alinhe o seu consumo per capita com o seu rendimento, forjando obviamente a alternativa de uma elevada taxa de poupança. Este subconsumo tem permitido que a economia chinesa mantenha taxas de investimento claramente mais elevadas do que as economias ocidentais, sem, contudo, evitar a desaceleração evidente dos ritmos do seu crescimento económico, designadamente em consequência do seu declínio demográfico.
Projetando esta questão no tema das interrogações económicas suscitadas pelo ano de 2026, pode concluir-se que a erradicação na economia mundial do excedente comercial chinês constituí um problema intrincado, já que a ultrapassagem do subconsumo tradicional da população chinesa exigirá uma profunda mudança do modelo económico e social chinês, que o regime comunista pode não estar interessado em promover. A rede de segurança social da população chinesa é ainda muito incipiente e essa incipiência explica a voracidade das famílias em aforrarem o mais que podem.
Ou seja, por muito que isso custe a compreender por parte de Trump, os excedentes comerciais chineses são uma consequência do permanente subconsumo a que o regime chinês submete as famílias de baixo e médio rendimento. O que significa que se a China quer ser acolhida na economia mundial como uma nação de pleno direito não pode persistir em políticas internas que prolongam no tempo os seus excedentes comerciais externos. E não há adulteração possível das estatísticas dos défices correntes que oculte esta realidade.
Esta é para mim uma das grandes interrogações de 2026.
Como é que a economia mundial aguentará esta significativa entorse nos equilíbrios mundiais?


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