quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

INTERROGAÇÕES ECONÓMICAS DE 2026 (TAKE 2)

 

                                         

(Prosseguindo esta série de fim e de início de ano, vou dedicar alguma atenção a uma das grandes interrogações económicas de 2026, a de saber se o declínio económico alemão é real, meramente conjuntural ou sinal de uma mudança estrutural mais vasta e provavelmente mais lenta do que o esperado, seja em termos da procura de um novo paradigma energético, seja do ponto de vista da adaptação aos novos rumos da economia global. Esta reflexão não pode ignorar que já estamos no domínio de uma intervenção de grande escala do governo de Merz. O gráfico que abre esta reflexão mostra que, em comparação com a reunificação, mais propriamente a absorção da Alemanha de Leste na sequência da queda do Muro de Berlim, e com o Plano Marshall, o plano Merz não é coisa pouca. As três dimensões do chamado pacote fiscal de Merz, envolvendo investimentos em defesa, infraestruturas e agenda climática, asseguram um impacto em matéria de despesa pública muito considerável, tomando como termo de comparação os dois já referidos momentos estruturais. Esta interrogação económica não se abate apenas sobre os alemães, estendendo-se naturalmente a toda a União Europeia. Ainda há relativamente pouco tempo, existia a ideia de que na União Europeia apenas as economias como Portugal estavam em contraciclo sujeitas a um processo de mudança estrutural que era difícil acomodar com as regras do mercado único europeu. Ora, em pouco tempo, compreende-se que isso deixou de ser assim. A pretensamente motora economia da União está ela própria num profundo e imbricado processo de mudança estrutural, que talvez ajude a reconsiderar o que pode ser na prática a solidariedade intraeuropeia.)

                                                 Fonte: Flaccadoro, 2024)
 

último relatório publicado do muito prestigiado German Council of Economic Experts começa perentoriamente com as seguintes afirmações: “A economia alemã está a estagnar este ano, depois de ter vivenciado uma recessão em 2023 e 2024 de acordo com os últimos dados disponíveis. Além destes fatores cíclicos, esta debilidade reflete mudanças estruturais e alterações geopolíticas que estão a penalizar o modelo tradicional de exportação alemão. No contexto de uma ordem geopolítica em transformação e da crescente incerteza sobre a fiabilidade das garantias de segurança americanas para os membros europeus da NATO, os referenciais de longo prazo económicos e de segurança estão sob uma intensa pressão para se adaptarem. Em simultâneo, a continuada fragmentação do mercado único europeu de bens, serviços e capitais inibe a Europa de construir uma resposta efetiva a estes desafios globais. Contudo, a presente debilidade económica alemã não é apenas explicada por estes fatores externos. Aspetos internos como o declínio sustentado da competitividade das indústrias alemãs e o envelhecimento demográfico em curso são também fatores que contribuem para isso.”

Mesmo não entrando na questão de saber se existe um declínio económico alemão, já que a ideia de declínio requer uma perspetiva de afundamento de longo prazo que não parece existir na economia alemã, é inequívoco que esta vive um período de perturbação, concentrado sobretudo na sua indústria transformadora. Os números não enganam a partir dos fins de 2021, tendo o produto da indústria transformadora em fins de 2024 ficado abaixo dos níveis observados antes da pandemia. Essa perturbação (Marco Flaccadoro, fevereiro de 2025[1]) é o resultado da combinação de três fatores – a subida dos custos da energia, uma procura enfraquecida e uma indústria automóvel que mostra sinais de declínio face às grandes tendências do setor.

A queda dos índices de crescimento do produto da indústria transformadora (IT) alemã, mimeticamente seguido pelo indicador equivalente da zona euro, representa uma espécie de prolongamento pandémico. A pandemia já acabou, mas dá a impressão de que os efeitos entretanto observados na IT alemã tendem a ser persistentes, como se o traço pandémico permanecesse atuante.

O economista italiano atrás referido salienta que é necessário ir fundo na análise para tentar compreender as razões da economia alemão ter sido mais fortemente impactada pela subida dos custos de energia do que a restante economia europeia. O peso do gás natural nos processos produtivos alemães não é substancialmente distinto do observado noutros países, sendo necessário reportar à indústria química alemã para compreender por que razão a disrupção energética impactou através das relações interindustriais em que aquela indústria é protagonista. De facto, a queda dos índices de produção nos setores industriais intensivos em energia é francamente mais acentuada do que a observada no gráfico anterior. Esta questão reporta-nos à estranheza desta especificidade energética da indústria alemã ter sido desvalorizada por Merkel e os seus governos e ter por isso sido apanhada em flagrante dependência face ao gás natural russo. Há comportamentos que é difícil entender e esta passividade energética alemã dá que pensar. Sendo conhecidas as ramificações que a empresa russa GAZPROM manteve com a economia alemã, aquela passividade pode ter múltiplas interpretações e dificilmente Merkel poderá passar por cima das mesmas nas suas memórias.

Mas além da passividade energética cuja fatura está a ser pesada, o que parece ter existido é uma combinação perversa e interdependente dos três fatores atrás mencionados. 

                                                            (Fonte: Flaccadoro, 2024)

Tendemos por vezes a ignorar que o colosso económico alemão é um colosso extrovertido, isto é, mais extrovertido do que a grande maioria dos países europeus de importância económica mais próxima. Cerca de 34% do produto alemão é exportado. Numa economia mundial fraturada como a que está em operação, os mais extrovertidos tendem a sentir mais a perturbação, sobretudo se se tratar de colossos económicos pouco flexíveis e ágeis na busca de alternativas de destino para os seus bens e serviços. O crescimento das exportações alemãs ficou aquém do da zona euro como um todo e não dá sinais de recuperar a superioridade que manteve até à pandemia. É nesta dimensão que os problemas da indústria automóvel alemã podem ser considerados uma ilustração perfeita da quebra de ritmo das exportações alemãs em geral.

Já muita gente esqueceu o grave incidente da falcatrua em que a VOLKSWAGEN incorreu a propósito da adulteração da veracidade dos indicadores de emissão de gases das suas viaturas. Num contexto em que a confiança na fiabilidade do produto alemão era a marca da sua engenharia, essa quebra de lisura em matéria de sustentabilidade ambiental da indústria automóvel alemã parece ter antecipado a sua dificuldade em acompanhar de forma competitiva a transição elétrica. A superioridade chinesa nessa matéria, não interessa agora reconhecer que ela resulta de uma intervenção estatal penalizadora da concorrência, abate-se sobre o mercado interno automóvel europeu, atingindo com força as exportações alemãs para esse mercado. Basta estar atento ao comportamento do mercado português e ao crescimento dos BYD e outros modelos chineses que tenderão a suplantar o fenómeno TESLA para compreender que a indústria alemã está em apuros. Alem disso, não se vislumbra um exemplo similar ao Peugeot E-2008 para assinalar a recuperação da engenharia automóvel alemã.

E, más notícias para a zona euro, a investigação da equipa de Flaccadoro conclui que os “spillovers” das perturbações da indústria transformadora alemã em alguns países europeus superam claramente os que nestes últimos poderão ocorrer para a economia alemã.

Analisando este problema do ponto de vista das interrogações económicas para 2026, a principal indeterminação com que entramos em 2026 é a da rapidez e consistência com que a economia alemã realizará a mudança estrutural que lhe é imposta pela fatura energética e pela fragmentação da economia mundial e excedentes massivos chineses. Sabemos que, em três décadas e meia até à pandemia, a economia alemã viu diminuir o emprego na indústria transformadora em cerca de 1,5 milhões de trabalhadores, mas no início da década de 2000 cerca de metade desses trabalhadores encontrou emprego em indústrias de serviços, mantendo ocupações do tipo da indústria transformadora (Dominik Boddin e Thilo Kroeger, 2025, 17 de dezembro[2]. O que significa que o declínio líquido calculado com base nas ocupações e tarefas desempenhadas não ultrapassava os 500.000 trabalhadores. É, pois, de uma mudança estrutural que se trata.

O curioso da questão é que, ao contrário do que pensávamos, não são apenas as economias como Portugal que têm de acomodar a sua mudança estrutural. Também a economia pretensamente motora do crescimento europeu está numa intensa mudança estrutural. Terá a economia alemã a agilidade e a flexibilidade necessárias para acelerar com êxito essa mudança estrutural?

Essa é para mim a grande interrogação e muito provavelmente o horizonte de 2026 não será suficiente para termos uma resposta completa e cabal a essa questão.

 

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