Terminaram na Sexta-Feira os debates presidenciais agendados com participação de André Ventura. Sempre comentados com notas – o que é preciso é ter lata para aceitar esta tão televisiva metodologia... – por “intelectuais do ofício”, alguns autênticos mestres na arte de diferenciar comentário e opinião própria (caso de Rui Calafate na antena da “CNN Portugal”), os debates respeitantes a Ventura ter-lhe-ão concedido uma maior dose de vitórias sobre os sucessivos adversários no entender da maioria dos entendidos (passe o pleonasmo). Pessoalmente, e como sou da velha guarda, louvo-me nas palavras de um dos leitores do “Público” que, no seu correio, escreveu: “Também os comentadores são, salvo raras exceções, incapazes de, sem desprezar a forma, atenderem à substância do discurso e avaliarem a pertinência, coerência, rigor e objetividade das respostas. Por regra, pontuam melhor quem mais barafusta, grita, dramatiza, dá o dito por não dito, em suma, quem mais dribla o próximo. E também aqui Ventura recorre ao seu ‘programa de federação dos descamisados e dos descontentes’.” De facto, e a meu ver, estes momentos de comentário na “SIC Notícias” e na “CNN Portugal” mais não foram do que uma prolongada e vergonhosa exibição em direto do convencimento – injustificado perante o baixo nível e a falta de isenção demonstrados – dos nossos pretensos especialistas de política ou de comunicação política.
Sobre Ventura, quem melhor se pronunciou na comunicação social – em jornais, no caso – foram António Guerreiro (“Ventura no divã”, Público de 11/12) e Clara Ferreira Alves (“Amo Portugal sobre todas as coisas”, “Expresso”, 12/2). Ilustro-o com algumas citações de excertos de maior brilho. Começando pelo primeiro: “O que eu vi não foi um candidato à Presidência da República, mas uma personalidade maníaca, que me fez revisitar alguns textos básicos de Freud. (...) Quanto mais Ventura parecia dono e senhor daquele espaço de debate [com Catarina Martins], mais eu via sintomas de perturbação psicótica, sob a forma de uma hiperatividade e de um estado de graça catastrófico, em que o indivíduo reage contra a sua melancolia e torna-se o herói maníaco que se identifica com o seu próprio ideal. Ali estava um escravo damania, certamente sujeito a grandes angústias, mesmo quando parece entrar numa elevação mística. A mania, tal como a definiu Freud, é o ponto de apoio da melancolia. (...) Ora, depois de tanta discussão pública sobre o que fazer com Ventura, como sabotar a sua loucura furiosa, a sua mania, só me apeteceu incitar a participante no debate a abandonar a bagagem política que tinha treinado e a realizar um golpe não previsto: deitar o adversário no divã. (...), levando o paciente Ventura a racionalizar os seus sintomas, a tornar conscientes os processos psíquicos que determinam a passagem da melancolia àmania. (...) No processo melancólico dá-se uma transferência da libido para o próprio Ego: e aí temos a regressão narcísica, que até os leigos no conhecimento do teatro de sombras que é o inconsciente estabeleceram como o ‘caso Ventura’.”
No tocante à segunda cronista, selecionei as seguintes e brilhantes pinceladas:
· A abrir: “Olá. Chamo-me Ventura. André Ventura. Estou aqui por uma razão: amo Portugal. Se algum defeito tenho, e duvido que tenha, é o de amar Portugal demasiado. Primeiro e acima de tudo. Portugueses first. Esta frase fui eu que inventei, porque estou farto de mentirosos. Estou aqui e em meu nome pessoal para ser candidato a Presidente da República. Não porque precise, não preciso disto para nada, porque acho que devo e porque os outros são todos um bando de corruptos e ladrões e estou farto de ladrões e corruptos no meu país. O país é meu e faço dele o que quero. Quero ser primeiro-ministro e quero ser candidato a Presidente de República, e se me deixarem serei as duas coisas.”
· A meados da reflexão: “Eu do Salazar também não me lembro, sei que Portugal foi um grande país e agora está cheio de corruptos e ladrões, continuo a amar Portugal, mas não os corruptos e ladrões. Nem três Salazares chegavam para dar conta disto, digo eu. Eu chego. Eu e o Chega. Deem-me uma oportunidade.”
· A encerrar: “O que é o sistema? Não sei bem, nunca ouvi os professores da esquerdalhada, copiei nos exames. Eu também já fui um bocado woke quando estudei Direito, aprendi a lição. Direito é a disciplina do sistema. O sistema é mau, eu sou bom. E cristão. Detesto mesquitas e rezo todas as noites pelo próximo. Amo o próximo como manda o primeiro mandamento, ou é o segundo?, mas não o próximo com cor, o próximo preto, cigano, imigrante, muçulmano, nepalês, indiano, paquistanês, bangladeshi. Ainda não chegámos ao Bangladesh. Se é o próximo, não é distante. É daqui. É português. É descolorido e o povo escolhido. Amo Portugal sobre todas as coisas. Deem-me uma oportunidade.”
Admitam que é outra loiça, não? Em todo o caso, muito portuguesinho parece ainda encantado pelo soar da flauta mágica entoada por um político feito à pressa que faz assentar a sua força eleitoral numa demagogia barata servida por uma verbe fácil e matraqueante e numa desfaçatez tão rara quanto assente numa elasticidade de princípios equivalente à de uma fita de nastro. Julgo mesmo que vale bem a pena, para desconstruir o alcance do engodo a que estamos sujeitos, observar certas expressões ridiculamente triunfantes do homem no decurso dos debates, reter aquele seu tique infantil do “deixe-me só dizer isto” e procurar adivinhar os momentos em que as suas juras de verdade o denunciam inapelavelmente como um mentiroso em ação.
Isto dito, a verdade pura e dura é a de que as sondagens relativas à primeira volta o dão como o mais votado, a sua pretendida vitória no sentido de uma sustentação do seu populista raio de ação junto do eleitorado (ver infografia abaixo). Fruto quase natural de um conjunto de fatores de ordem tão diversa quanto, entre outros, as limitações culturais e políticas de boa parte dos cidadãos nacionais – esta semana postas a nu por um inquérito de opinião noticiado pelo “Público” segundo o qual quase um terço dos portugueses gostaria que ainda tivéssemos colónias! –, o seu descontentamento objetivo e subjetivo perante o estado de coisas que se lhes depara em termos de vida quotidiana e acesso a bens e serviços básicos, a fragilidade/indigência nunca vista dos candidatos, o descrédito da política partidariamente comandada e a incompreensível e perturbante situação internacional e europeia.
Não sendo o quadro minimamente auspicioso, antes pelo contrário, importará todavia não o assumir como adquirido, tentando por todas as formas que Ventura não passe à segunda volta (o que será relativamente improvável) e, na pior das hipóteses, que a derrota do dito na mesma seja tão humilhante quanto possível. Como é óbvio, a margem de manobra para tal por parte de cada um de nós é escassa e os protagonistas principais parecem mais do que teimosamente insistentes em tornar demonstrada a sua gritante inconsistência (seja a Esquerda face a António José Seguro, seja a direita moderada face a Marques Mendes ou Gouveia e Melo), mas ainda falta a campanha e até pode ser que nela algo consiga surpreender pela positiva e assim dar ao processo eleitoral uma cor que não tem tido e o renascer de uma esperança já que se dá por perdida.




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