(Não é de agora, mas existe na Europa alguma tendência para uma espécie de automutilação das suas elites económicas, sempre focadas e dispostas a realçá-lo na mais baixa produtividade europeia face à dos EUA. Grande parte desse discurso está associada aos diretórios europeus mais diretamente interessados na desregulação e maior liberalização dos mercados e processos de licenciamento económico. O desvio de produtividade penalizador da Europa seria essencialmente devido ao peso excessivo da carga regulatória, a qual comparada com a americana será sem dúvida mais intrusiva dos negócios. Ultimamente, porém, acompanhando a vontade de um certo ressurgimento europeu para fazer face à “traição” do amigo americano, têm surgido alguns economistas a contrariar essa tese do declínio económico europeu. E, convém dizê-lo, os problemas desde sempre não resolvidos da produtividade, seja da produtividade aparente do trabalho (por hora trabalhada ou trabalhador empregado), seja da produtividade total dos fatores, considerado o resíduo mais misterioso da economia aplicada, ajuda a manter alguma confusão, pois os resultados comparativos dependem fortemente da fonte estatística utilizada. Em parte, tudo isto é precipitado pela estagnação económica alemã e não haverá melhor e mais convincente gráfico do que aquele que abre este post, no qual é evidente uma claríssima mudança de paradigma do crescimento económico alemão. Mas a ideia da economia alemã como motor europeu pode estar desacreditada e lá voltamos à dança comparativa dos números.)
Gabriel Zucman e Thomas Piketty, dois economistas que adquiriram nos últimos tempos uma grande notoriedade entre pares e na elite económica, estão entre aqueles que destacam que a ideia da superioridade da economia americana carece de evidência suficientemente fundamentada para o confirmar sem hesitações. Os dados por si convocados têm origem na Organização Internacional do Trabalho (OIT) de Genebra e medem a produtividade por hora trabalhada, que é a medida mais correta da produtividade aparente do trabalho, pois relaciona a duração do trabalho e a intensidade das horas com o resultado dessa aplicação diária. Os dados da OIT calculados à paridade de poder de compra por hora trabalhada fornecem um resultado surpreendente, sendo suficiente analisar a primeira metade da tabela construída – a Irlanda lidera, aspeto a reter para considerações posteriores, e nessa hierarquia os EUA ocupam um lugar atrás da Europa ocidental. Ou seja, nas partes mais desenvolvidas da Europa, a produtividade por hora trabalhada não só se tem mantido permanentemente, à frente da americana, como tem evoluído nos últimos tempos ao mesmo ritmo. Compreende-se, assim, que Zucman e Piketty se insurjam contra a autocomiseração das elites europeias, sempre dispostas a denegrir a produtividade europeia para atingir certos fins, que não serão seguramente os da defesa do modelo europeu.
A questão crítica da escolha dos dados a utilizar reflete-se, por exemplo, na utilização dos dados da OCDE e Ameco (dados utilizados no famoso relatório Draghi), os quais calculados também por hora de trabalho tendem a fundamentar a superioridade americana embora não ao nível do discurso comumente utilizado, o da grande superioridade americana.
Em que é que ficamos então?
A diversidade das fontes com resultados divergentes inspira cautelas, mas admitindo que os dados OCDE-Ameco são mais fiáveis do que os da OIT, não parece haver evidência que justifique o discurso de autoflagelação do declínio europeu. O célebre gráfico do Relatório Draghi que deu origem ao discurso do declínio não permite falar de algo estrutural no tempo longo, mas antes alguma dificuldade de adaptação da economia europeia aos tempos mais recentes. O que está em linha com a evolução da própria economia alemã, como o mostra o gráfico que abre este post.
Mas a posição que me parece mais sensata é a de Adam Tooze que mostra com evidência segura que não existe propriamente uma superioridade global da economia americana face à europeia. O que existe é uma influência dos grupos económicos high-tech que se destacam na economia americana. Quando se expurga a produtividade americana da influência desses grupos high-tech, a superioridade americana desvanece-se.
Será por acaso que a Irlanda apresenta nos dados OIT e nos dados OCDE-Ameco o valor mais elevado da produtividade por hora trabalhada? Não é suficientemente conhecida a influência dos grandes grupos americanos high-tech na distorção do produto irlandês? Não há aqui uma conformidade que explica a tal superioridade americana?
Esta hipótese de trabalho é sedutora, pois mostra que, em vez de um declínio estrutural da economia europeia, existe isso sim uma incapacidade europeia de gerar grupos high-tech com a expressão dos americanos, amplamente representados em território irlandês. O que é uma questão substancialmente diferente de querer encontrar no modelo social europeu e no seu modelo de barganha salarial as razões para o tal mito do declínio europeu. O que traz obviamente lenha para a discussão de como tratar os abusos de dominância que esses colossos tecnológicos cometem por onde se implantam. Mas essa é uma questão totalmente diversa da autoflagelação europeia, habilmente reproduzida por quem pretende acabar com o modelo social europeu.





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