sábado, 20 de dezembro de 2025

“SE QUERES A PAZ PAGA A GUERRA”

 


(Faço minha, com a devida vénia de agradecimento, a adaptação da célebre máxima latina que Xosé Luís Barreiro Rivas, com a sua proverbial e costumeira acutilância, realiza na sua última crónica para descrever as complexas negociações do último Conselho Europeu em Bruxelas. A União lá vai conseguindo, com mais um golpe de rins digno do guarda-redes mais hábil e portentoso do mundo, gerar soluções que não são soluções definitivas, mas que, neste caso, permitiu contornar a muito aventureira solução de mobilizar os ativos russos congelados para financiar a guerra da Ucrânia em 2026 e 2027, adiando a declarada bancarrota que se desenhava para aquele martirizado país. A Bélgica suspirou de alívio e talvez o sistema financeiro também, não tendo a certeza se o clepto-capitalismo russo sentiu ou não algum frisson. A solução encontrada a 24 e não a 27, já que a Chéquia, Eslováquia e Hungria pediram escusa de assumir responsabilidades na assunção de dívida comum, mostra que cada vez mais a unanimidade de decisões é cada vez mais mirífica. Na verdade, aparentemente a escusa dos três países é concretizada sem qualquer contrapartida negativa para os três países como membros da União, circunstância que não lembraria ao diabo, mas que é permitida porque o fundamental era salvar a face de uma não decisão, entregando a Ucrânia à sua trágica sorte. Mas pagar a guerra para ambicionar a paz, não sabendo se tal pagamento irá ou não se concretizar em mais pagamentos de armamento aos EUA, com Trump a salivar a fragilidade do poder de decisão europeu e a dar-se ao luxo, como qualquer crápula encartado, de estabelecer relações abertas de cooperação com a extrema-direita europeia, multiplicando os Cavalos de Troia, numa linha evidente de transpor para o lado de cá do Atlântico o modelo que descabeladamente ambiciona para a América do Norte. Apesar de toda esta infâmia, e muito provavelmente por causa dela, o bafio dos interesses nacionais vai impondo a sua lei, hoje a Itália, amanhã a França, entre outros, diferindo para janeiro de 2026 a assinatura do acordo do Mercosur, depois, vejam bem, de 25 anos de aturadas negociações.)

Pagar a guerra com dívida comum (quási comum, melhor dito) mitiga os perigos de bancarrota da Ucrânia em 2026 e garante-lhe alguma continuidade do esforço de guerra, mas do ponto de vista da União as grandes questões estruturais continuam por resolver, sem um vislumbre de que uma estratégia mais a longo prazo esteja em andamento. As palavras de Barreiro Rivas são duras:

“(…) A coisa avança, mas não sei se alguém se inteirou de que neste momento a capacidade militar da Europa e da NATO, sem contar com Trump, tende para zero. E não porque não tenhamos carros e canhões, balas e mísseis, fragatas e submarinos, drones e bombardeiros, generais e bandeiras – principalmente bandeiras -, mas essencialmente porque não tempos política externa, nem exército, nem comando unificado, nem estratégia comum, nem capacidade de tomar decisões sem o requisito indispensável da unanimidade. Por não ter, nem sequer temos dinheiro. Mas esta UE, que paga todas as adesões, incluídas as internas, acaba também de inventar a guerra financiada com dívida comum e mal gerida. Um tema no qual já somos, creio eu, a primeira potência mundial”.

A cada solução remendada, as lideranças europeias, ameaçadas e cercadas por dentro (casos emblemáticos da Alemanha e França na União e do Reino Unido fora da mesma), parecem dar conta para fora do simulacro de alguma consistência.

Em última instância, a máxima inventada por Barreiro Rivas parece não ser mais do que uma variante da expressão mais popular “empurrar as coisas com a barriga” e depois vê-se. À falta de melhor, Zelensky não pode deixar de agradecer a criatividade do Conselho Europeu, salvando-lhe pelo menos a capitulação incondicional.

 

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