terça-feira, 13 de janeiro de 2026

UM TRACKING CASEIRO

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

A campanha presidencial entrou na sua reta final. Com Cotrim a surgir, simultaneamente, como a principal surpresa das sondagens (que o posicionam em condições de uma eventual passagem à segunda volta) e o maior anjinho dos “cinco grandes” (assédio sexual à parte, não lembraria ao menos pintado aquela do ter de pensar e nada excluir quanto a quem dar apoio numa segunda volta!), Ventura a fingir que se modera mas a não conseguir evitar uma permanente fuga da pedra para o sapato da demagogia e do extremismo, Mendes a tentar desesperadamente colar os cacos de uma estratégia triunfalista e incapaz de prever o óbvio perante a profissão de facilitador que o alimentou anos a fio, o Almirante a revelar instinto político e dimensões físicas e relacionais que se lhe desconheciam e Seguro a prosseguir impávido e sereno no caminho que traçou e de que não se afasta um milímetro que seja (logrando inclusivamente passar incólume a apoios tão díspares quanto os de Santana e Pedro Nuno).

 

Neste quadro, quase me apetece revisitar o exercício de projeções que elaborei no primeiro dia da campanha para, mantendo os pressupostos metodológicos, modificar os pressupostos analíticos à luz do que parecem indicar as evoluções mais recentes e ver o que tal produz em termos resultadísticos. Assumo o desafio – afinal, não pode ser apenas a CNN a divulgar as suas tracking-polls e Pitagóricas há muitas, inclusivamente a minha própria! – e passo a explicitar as mudanças face ao cenário-base de então: Ventura passa a reter apenas 75% do último eleitorado do Chega, não capta eleitores da IL, mantém 20% dos da Outra Direita e aumenta nos do PCP; Gouveia perde 5% no eleitorado do PS e passa a captar apenas 50% na Outra Direita mas conquista mais alguns votos no Chega e na Iniciativa Liberal; Mendes quebra no eleitorado da AD e passa a 50%, subindo na Outra Direita e mantendo na Iniciativa Liberal; Seguro mantém na AD e aumenta nos seus três outros eleitorados potenciais, subindo sobretudo em termos de fixação do do PS; Cotrim apenas perde alguns eleitores do PS mas ganha transversalmente no da AD, do Chega e da Outra Direita e mantém substancialmente o próprio; os candidatos à esquerda do PS perdem capacidade de atração de votos exteriores aos seus eleitores habituais e também alguma capacidade de fixação junto desses eleitores. No cômputo geral, o quadro seguinte dá conta de um output mais consentâneo com algumas estimativas recentemente produzidas segundo as quais Seguro dispara e se distancia à frente, Mendes parece perder hipóteses de segunda volta e Cotrim ganha peso significativo mas insuficiente; ao invés, sobressai uma queda de Ventura – estarei a ver mal ou a deixar-me condicionar pela vontade? –, o que facilitaria uma passagem de Gouveia (apesar de ele também perder alguns votos).

Entretanto, e num outro e complementar registo, recomendo duas crónicas relacionadas. A de Daniel Oliveira, no “Expresso”, aponta a “angústia do voto útil” de modo bastante realista e extremamente lúcido; a de Manuel Carvalho, ao contrário do que habitualmente me acontece, merece o meu dececionado criticismo por ser objetivamente desvalorizante de Seguro (“o lugar do morto”) e favorecedora de um Mendes relativamente ao qual escamoteia a sua falta de transparência perante os pedidos de clarificação da profissão que desempenhou desde que abandonou a política ativa. E com esta me vou...


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