sexta-feira, 2 de outubro de 2026

GUERRAS SANTAS COM EXTREMISMOS À VISTA

 

Isto é que vai por aí uma crise extensa e nunca vista neste nosso desorientado País! E o tema é digno da dita desorientação... Com efeito, chegado a selecionador o homem que Kelvin ajoelhou no Dragão, e que entretanto fora fazer o seu tirocínio no Flamengo e na Arábia Saudita (aprendendo ao mesmo tempo o hino nacional TODO!), eis que um CR7 confiante na continuidade (de Martínez e Fernando Santos) se deparou, afinal, com alguém à altura de desconstruir as suas atuais verdades, mais feitas de história (muita e por demais prestigiante para Portugal e construída à custa de um profissionalismo exemplar) e de uma dimensão financeira não despicienda para diversas partes (Pedro Proença incluído – veja-se o “Expresso” de hoje, onde se titula “Ronaldo deixou Federação com problemas de milhões”) do que de uma capacidade minimamente aceitável de prestação em campo.

 

Daniel Oliveira explica bem a situação nas páginas do “Expresso” de hoje quando refere que todos os heróis transformados em semideuses “acabam em tristes caricaturas de si mesmos”. O que se me torna incompreensível é que haja tantos e tantos portugueses (muitos até estimáveis) que consigam confundir o lado objetivo do problema surgido com a qualidade ímpar do atleta ao longo de toda uma carreira e com o inquestionável reconhecimento que Portugal deve ter para com “o Cris” (há aqui algo do tipo do que ocorreu a tantos portistas em relação a Jorge Nuno Pinto da Costa) – achará esta gente que vamos a algum sítio, desportivamente falando, a jogar com dez a correr e uma vedeta parada do meio para a frente do terreno e sempre pronta a falhar todos os pontapés de livre que surgirem e a concretizar os penáltis que forem caindo?



Claro que Jesus também é um narcisista e alguém que peca por ser demasiado cheio de si. Além de possuidor de toques excessivos de burgesso, por vezes inqualificáveis em termos de ignorância, má-criação ou arrogância... Não obstante, é indesmentível que foi ele quem teve a coragem de decidir pela sua cabeça e de sentar CR7 no banco de suplentes. Daí a infografia que circula nas redes sociais, e que subscrevo integralmente, parodiando uma palavra de ordem de revolucionários tempos idos: “30 de Setembro Sempre! Ronaldismo Nunca Mais!”. Acresce que a atitude de prima donnado jogador, amuando, abandonando o hotel da seleção e partindo sozinho para o seu ninho de Madrid, mostrou à saciedade uma débil formação moral e ética e o quanto na realidade é desrespeitador da imagem e dos interesses nacionais (ao invés do que faz em relação à Arábia Saudita de que é um assalariado de luxo e para a qual se presta a manifestações de mau gosto pesetero como aquela que tristemente exibiu na Casa Branca). Tudo com a agravante de uma exibição categórica em Copenhaga da “equipa das quinas” já descontada do contributo de CR7 (atente-se no título de “O Jogo” ao referir um coletivo de “união, nervo e talento”, sintetizado num feliz CR11).




A pergunta que sobra, quiçá pouco portadora de esperança, é a seguinte: estará o “caldo” definitivamente estragado ou ainda haverá por aí algum Jorge Mendes, algum Montenegro, algum Seguro ou alguma Dona Dolores que possam ajudar a pôr aquela cristiana cabeça feita num oito num mood menos depreciativo para si próprio e para a reputação que soube granjear a ponto de se ter transformado num embaixador nacional?

LITERACIAS E SABERES

Inauguro este primeiro mês inteiramente outonal com recurso a uma mão cheia de vinhetas assinadas por uma notável cartunista do “El País” (Flavia Álvarez Pedrosa, com “Flavita Banana” por nome de guerra). As remissões são óbvias, o que o título deste post também sugere explicitamente. Apontam-se elementos de ignorância e desistência e de entendimento e indiferença, num quadro em que são as presentes posturas em relação à significância e ao alcance do saber que emergem de modo tão realista quanto crítico. Um mundo que se deixou tristemente condicionar...





A DISCUTIR A ECONOMIA DE VILA NOVA DE GAIA NO SEU CENTRO HISTÓRICO

 


(Tive a felicidade de nos últimos dias estar com uma enorme pressão de trabalho, essencialmente determinada pela avaliação das políticas de emprego com financiamento europeu que funcionam como instrumentos d combate à exclusão social. Tal pressão permitiu-me passar ao lado da tragicomédia da saída de Ronaldo da seleção que agitou as mentes de tudo que é analista, comentador, cientista político, homens do marketing e da comunicação, numa espécie de vertigem algo suicida de quem procura todo o pretexto para fugir à dura realidade dos nossos dias. Para me ajudar a escapar a essa tragicomédia existiu também o convite do Departamento de Planeamento da Câmara de Vila Nova de Gaia e da equipa que está a animar internamente a revisão do Plano Diretor Municipal, que muito agradeço, para participar na sessão pública específica dedicada às atividades económicas, em companhia dos amigos de longa data Professores José Varejão (FEP) e Luís Ramos (UTAD), com moderação do também amigo de longa, o espinhense de quatro costados Engº António Lacerda. É a essa participação e esse tema que dedico o post de hoje, escapando assim ao tema de momento, às guerras de egos, ao amadorismo da gestão desportiva e a todo este imbróglio em que o futebol se transformou, sem possibilidade de diálogo construtivo entre os reis da tática e os senhores da estratégia. Depois, no fim de semana alargado, virá a necessidade de regressar em pleno ao referido relatório de avaliação para o acabar e entrar num outro, o que me vai permitir passar incólume pelas pontas do enredo “ronaldesco”.

A discussão do papel da economia nos trabalhos de elaboração e/ou revisão de uma Plano Diretor Municipal e fortemente relacionada com o dealbar da minha experiência profissional, através da qual dialoguei com equipas de arquitetos e engenheiros em planos como Oliveira do Bairro, Águeda, Murtosa, Alijó e o próprio Porto. Foram bons tempos de experiência e de diálogo interprofissional. Da minha experiência, o problema fundamental que se levanta nestes processos e experiências consiste em saber se a análise económica e territorial que nos cabe desenvolver será entendido como um faz de conta, um capítulo monográfico que se faz porque a prática assim o obriga que não vai ter grandes implicações no modelo territorial do plano e nas suas propostas de ordenamento ou se, pelo contrário, ela vai interagir com a estratégia do plano, influenciando-a, podendo até representar um vetor relevante da estratégia territorial a promover. Tudo isto porque a liberdade do mercado e de circulação dos investimentos assenta nas suas próprias leis, regras e padrões, podendo ser condicionada pela dimensão regulamentar do plano é certa, mas fazendo sempre lembrar ao planeador que a sua ação reguladora tem limites e que dificilmente pode sobrepor-se aos ditames do mercado.

Nas minhas experiências profissionais, a minha vertente de economista do território conseguiu sempre impedir que a análise económica fosse aprisionada nos limites da monografia e a forte interação com as equipas de planeamento em que estive inserido permitiu que a economia não fosse uma parente pobre desses exercícios.

Projetando-me agora no tema da economia de Vila Nova de Gaia (relembro que sou cidadão metropolitano, resido em Gaia, trabalho em Matosinhos e tenho a afetividade de filhos e netos no Porto, também em Lisboa, claro) vieram-me à ideia alguns elementos-chave para tornar a discussão digna de um trabalho de planeamento e ordenamento territoriais.

Primeiro, Vila Nova de Gaia é um município com natureza metropolitana, inserido no que costumo designar de coração da Área Metropolitana do Porto, o único território que deveria justificar essa designação; essa filiação metropolitana, elemento essencial para repensar a atração de investimento, combina-se com particularidades significativas em matéria de extensão territorial, fator não despiciendo do ponto de vista do espaço físico disponível para atração e localização de novas indústrias e serviços; nessa dimensão física existe ainda uma valiosa frente de mar, cujo potencial na atração de talento e de recursos humanos mais qualificados não deve ser ignorado.

Segundo, o concelho apresenta uma estrutura produtiva, na qual se combinam fatores de inércia de especialização, associados a uma base de especialização mais tradicional, de metalomecânica, por exemplo, mas onde existe também o entreposto de distribuição do vinho do Porto, ele próprio em mutação de perfil funcional, hoje com uma mais intensa relação com a atividade turística e de lazer; essa base mais tradicional de especialização tenderá a interagir com a dinâmica de novas localizações, à qual se deve estar atento, porque por vezes o mercado traz surpresas.

Terceiro, nessa mesma inserção metropolitana, devemos estar preparados para assistir a uma dinâmica de forte concorrência de atração de novos perfis de investimento, protagonizada e animada por relações intensas de disputa de notoriedade atrativa que emergirão de municípios como Vila Nova de Gaia, Matosinhos e Maia, essencialmente, face ao poder de atração ainda existente da cidade-central; sem governação metropolitana formal ou informal, a concorrência será dura e, na minha perspetiva, vai ser desenvolvida a partir de projetos âncora, sejam eles imobiliários, científico-tecnológicos, ambientais, grandes projetos empresariais em domínios disruptivos, etc.

Quarto, uma análise sumária da demografia empresarial mostra que Vila Nova de Gaia é o concelho metropolitano com natalidade de novas empresas mais elevada, 12.959 novas empresas em 2024, com uma taxa de natalidade de 25,9%, ou seja, uma fertilidade empresarial bem mais dinâmica do que a fertilidade humana. Percebe-se que essa dinâmica de criação de novas empresas não financeiras é essencialmente concretizada nos serviços em geral, o que contrasta com o peso de cerca de 27% das indústrias transformadoras no concelho – cerca de 995milhões de euros para um total de VAB de 3.686 milhões de euros.

Quinto, apesar da enorme competitividade que existe no coração da AMP, não pode ignorar-se o potencial de conhecimento científico e tecnológico, de I&D e transferência de tecnologia e de talento que ainda existe na cidade central, ainda que essa localização não seja imutável; é provável que assistamos nos próximos tempos a deslocalizações e crescimentos de universidades e universidades técnicas e dos principais inter-faces.

Sexto e por último, creio que o grave problema da habitação paira sobre toda a reflexão que possamos alimentar sobre as atividades económicas futuras; a relação atividade económica-emprego conflitua com a existência desse gravíssimo problema de insolvência da procura de habitação para uma larga franja da população portuguesa; os municípios que melhor se posicionarem e resolverem este problema acrescentarão aos fatores de atratividade económica uma dimensão suplementar apreciável.

A estratégia do plano deve ser flexível para se adequar a este tipo de transformações e deve integrar uma estratégia mais ampla de atração de novas atividades. Mas como o referia numa nota inicial, o concelho dispõe de espaço físico suficiente para novas localizações e a sua frente de mar, pela sua amenidade e condições residenciais, oferece uma base fortemente atrativa para atração de talento e gente qualificada, que tanto pode ser puxada pelo investimento, como potenciar a atração do próprio investimento.

Que o debate seja profícuo e que possa ser útil para os trabalhos do PDM.

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

OS NOSSOS DEUSES DEVEM ESTAR LOUCOS...

(excerto de Henrique Monteiro, https://henricartoon.blogs.sapo.pt) 

Deixemos em paz os “cristos” do costume – Luís Neves, Fernando Alexandre e Ana Paula Martins – e concentremo-nos noutras figuras visíveis do universo governativo e laranja.

 

O primeiro-ministro, sempre apoiado nas instruções do “cara-de-pau” que lhe orienta as Finanças (ainda estamos para ver se suficientemente bem...), prossegue o seu “louva-a-eu”, estou convencido de que convencido ele próprio de que afinal até tem jeito para dirigir o País (para onde é questão que não vale perguntar) – uso abaixo uma expressão de Filipe Santos Costa para melhor elucidar a autêntica revolução fiscal provocada pela sua decisão de baixar alguns escalões do IRS.

 

Manuel Castro Almeida, a quem reconheço o primado da sensatez, parece não querer destoar e vai de apelar à consciência dos portugueses em matéria de combustíveis.

 

Gonçalo Matias e Nuno Melo estão verdadeiramente inebriados com o poder que julgam ir ter por muitos e bons, com o primeiro a arvorar-se em “Kandinga” da política e o segundo em jovem empreendedor (nada menos do que instalador de uma fábrica de munições e subscritor de um empréstimo de 7,68 mil milhões de euros).

 

O líder parlamentar berra e ralha sempre que pode (que, qual "dono deste tudo", entende ser quase sempre) e acaba a mostrar que não tomou chá suficiente em pequeno.

 

O inenarrável vice-presidente Bugalho, que acumula com a função de porta-voz, leva bem a sério a sua pretensa capacidade estratégica e enche as televisões com o encanto da sua genial estratégia e enxota Passos para lugar menor no tocante aos caminhos do partido.

 

O presidente da maior câmara municipal do País não acerta uma e tanto chora pelo “drama social” de Lisboa como opta por apoios significativos ao Turismo, enquanto consegue confundir o falecido Jorge Palma com Sérgio Godinho.






E assim vamos resistindo – quem pode contestar a enorme resiliência dos portugueses? – à espera de melhores dias, embora sem que efetivos sinais de esperança assomem à janela do retângulo...

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O QUE PRETENDE CENTENO?

 


(Não tive ainda oportunidade de ler o Contas Certas de Mário Centeno. Limito-me, por isso, a ter em conta a entrevista ao Expresso e os diversos relatos que a comunicação social elaborou sobre o tema. Devo confessar que tenho bastante admiração sobre um dos Centenos, ou seja, sobre uma das personalidades em que a sua vida se transformou. Há o Centeno doutorado em Harvard, especialista na área da economia do trabalho, autor da mais robusta e consistente proposta de reorganização do mercado de trabalho português e da eliminação do seu principal vício que é o da segmentação. É este o Centeno que admiro, lamentando que não tenha tido a coragem de precipitar uma abordagem ao mercado de trabalho. Quanto aos dois outros Centenos, já tenho alguma dificuldade em apreciar essas figuras. O Centeno ministro das Finanças não me despertou grande entusiasmo, ainda que deva reconhecer o excelente trabalho de afirmação da sua experiência que o guindou aos cargos europeus. Chapéu para essa tenacidade. A terceira personalidade é a que menos me entusiasma e identifica-se com o Centeno candidato a primeiro-Ministro. Não sei que raio de autoavaliação de competências conduziu Centeno no tempo em que se abriu à possibilidade de substituir António Costa sem necessidade de novas eleições. E muito menos à reincidência em projetar-se no horizonte político, pairando sobre a liderança que muitos consideram de transição de José Luís Carneiro, mas à qual continuo a dar algum benefício da dúvida, embora me agradasse alguma agressividade adicional. Mas quem sou eu para desdenhar de uma personalidade que, pelos vistos, se cansou da sua veia de professor e investigador e que, tendo experimentado o stresse da pressão e da decisão políticas, terá gostado e encontra fundamentos para uma avaliação positiva para mais altos voos nessa trajetória?)

Dos elementos que mais me intrigaram na exposição pública mais recente de Mário Centeno foi a sua rábula de se ter oferecido a António Costa para exercer o papel de uma espécie de super-ministro, dedicado, segundo ele, a resolver o problema da saúde em Portugal, solução que ele considera exequível e ao alcance da sua mais que generosa autoavaliação de competências.

O que me intrigou é o facto de, mobilizando a memória pessoal e realizando uma pesquisa sumária, ter chegado à conclusão de não me ter confrontado com qualquer ideia prévia de Centeno sobre o problema estrutural da saúde em Portugal, que se vai agravando e que vai gerando um estado da arte em permanente transformação, da qual o elemento com efeito mais impactante é a continuada alteração da relação de forças entre os setores público e privado da saúde.

António Costa tê-lo-á deixado sem resposta, vá lá saber-se porquê e o ressentimento de Centeno sobre esse incidente parece ter deixado marcas, o que para mim constitui mais um indicador da generosidade com que Centeno se autoavalia em termos de capacidades para decisões política de rotura.

De falta de confiança é que não poderemos acusar Mário Centeno. Mas será que o Contas Certas poderá criar alguma dinâmica de debate que seja útil para a procura de alternativas democráticas para o centro-esquerda? Se assim for, estarei disposto a reconsiderar este meu azedume. O problema é que não estou certo de encontrar estímulo suficiente para explorar até que ponto Centeno pretende fazer das Contas Certas a sua imagem de marca. Devo confessar que estou cada vez mais seletivo na minha política de leituras, que tem funcionado mais por impulsos de momento do que por decisões de escolha racional e fundamentada. E, de facto, se para os jornalistas interessados nas diatribes políticas, Centeno possa ser uma personalidade sugestiva, os meus critérios de adesão são distintos e, cada vez mais, não me considero capaz de seguir e apoiar alguém que não suscita a empatia necessária.