
(Tive a felicidade de nos últimos dias estar com uma
enorme pressão de trabalho, essencialmente determinada pela avaliação das
políticas de emprego com financiamento europeu que funcionam como instrumentos
d combate à exclusão social. Tal pressão permitiu-me passar ao lado da tragicomédia
da saída de Ronaldo da seleção que agitou as mentes de tudo que é analista,
comentador, cientista político, homens do marketing e da comunicação, numa espécie
de vertigem algo suicida de quem procura todo o pretexto para fugir à dura
realidade dos nossos dias. Para me ajudar a escapar a essa tragicomédia existiu
também o convite do Departamento de Planeamento da Câmara de Vila Nova de Gaia
e da equipa que está a animar internamente a revisão do Plano Diretor Municipal,
que muito agradeço, para participar na sessão pública específica dedicada às
atividades económicas, em companhia dos amigos de longa data Professores José Varejão
(FEP) e Luís Ramos (UTAD), com moderação do também amigo de longa, o espinhense
de quatro costados Engº António Lacerda. É a essa participação e esse tema
que dedico o post de hoje, escapando assim ao tema de momento, às guerras de
egos, ao amadorismo da gestão desportiva e a todo este imbróglio em que o
futebol se transformou, sem possibilidade de diálogo construtivo entre os reis
da tática e os senhores da estratégia. Depois, no fim de semana alargado, virá
a necessidade de regressar em pleno ao referido relatório de avaliação para o
acabar e entrar num outro, o que me vai permitir passar incólume pelas pontas
do enredo “ronaldesco”.
A discussão do papel da economia nos
trabalhos de elaboração e/ou revisão de uma Plano Diretor Municipal e
fortemente relacionada com o dealbar da minha experiência profissional, através
da qual dialoguei com equipas de arquitetos e engenheiros em planos como Oliveira
do Bairro, Águeda, Murtosa, Alijó e o próprio Porto. Foram bons tempos de
experiência e de diálogo interprofissional. Da minha experiência, o problema
fundamental que se levanta nestes processos e experiências consiste em saber se
a análise económica e territorial que nos cabe desenvolver será entendido como
um faz de conta, um capítulo monográfico que se faz porque a prática assim o
obriga que não vai ter grandes implicações no modelo territorial do plano e nas
suas propostas de ordenamento ou se, pelo contrário, ela vai interagir com a estratégia
do plano, influenciando-a, podendo até representar um vetor relevante da
estratégia territorial a promover. Tudo isto porque a liberdade do mercado e de
circulação dos investimentos assenta nas suas próprias leis, regras e padrões,
podendo ser condicionada pela dimensão regulamentar do plano é certa, mas fazendo
sempre lembrar ao planeador que a sua ação reguladora tem limites e que dificilmente
pode sobrepor-se aos ditames do mercado.
Nas minhas experiências profissionais,
a minha vertente de economista do território conseguiu sempre impedir que a
análise económica fosse aprisionada nos limites da monografia e a forte
interação com as equipas de planeamento em que estive inserido permitiu que a
economia não fosse uma parente pobre desses exercícios.
Projetando-me agora no tema da
economia de Vila Nova de Gaia (relembro que sou cidadão metropolitano, resido
em Gaia, trabalho em Matosinhos e tenho a afetividade de filhos e netos no
Porto, também em Lisboa, claro) vieram-me à ideia alguns elementos-chave para
tornar a discussão digna de um trabalho de planeamento e ordenamento
territoriais.
Primeiro, Vila Nova de Gaia é um
município com natureza metropolitana, inserido no que costumo designar de
coração da Área Metropolitana do Porto, o único território que deveria
justificar essa designação; essa filiação metropolitana, elemento essencial
para repensar a atração de investimento, combina-se com particularidades
significativas em matéria de extensão territorial, fator não despiciendo do
ponto de vista do espaço físico disponível para atração e localização de novas
indústrias e serviços; nessa dimensão física existe ainda uma valiosa frente de
mar, cujo potencial na atração de talento e de recursos humanos mais
qualificados não deve ser ignorado.
Segundo, o concelho apresenta uma
estrutura produtiva, na qual se combinam fatores de inércia de especialização,
associados a uma base de especialização mais tradicional, de metalomecânica,
por exemplo, mas onde existe também o entreposto de distribuição do vinho do
Porto, ele próprio em mutação de perfil funcional, hoje com uma mais intensa
relação com a atividade turística e de lazer; essa base mais tradicional de especialização
tenderá a interagir com a dinâmica de novas localizações, à qual se deve estar
atento, porque por vezes o mercado traz surpresas.
Terceiro, nessa mesma inserção
metropolitana, devemos estar preparados para assistir a uma dinâmica de forte
concorrência de atração de novos perfis de investimento, protagonizada e animada
por relações intensas de disputa de notoriedade atrativa que emergirão de municípios
como Vila Nova de Gaia, Matosinhos e Maia, essencialmente, face ao poder de
atração ainda existente da cidade-central; sem governação metropolitana formal
ou informal, a concorrência será dura e, na minha perspetiva, vai ser
desenvolvida a partir de projetos âncora, sejam eles imobiliários, científico-tecnológicos,
ambientais, grandes projetos empresariais em domínios disruptivos, etc.
Quarto, uma análise sumária da
demografia empresarial mostra que Vila Nova de Gaia é o concelho metropolitano
com natalidade de novas empresas mais elevada, 12.959 novas empresas em 2024,
com uma taxa de natalidade de 25,9%, ou seja, uma fertilidade empresarial bem
mais dinâmica do que a fertilidade humana. Percebe-se que essa dinâmica de
criação de novas empresas não financeiras é essencialmente concretizada nos
serviços em geral, o que contrasta com o peso de cerca de 27% das indústrias
transformadoras no concelho – cerca de 995milhões de euros para um total de VAB
de 3.686 milhões de euros.
Quinto, apesar da enorme
competitividade que existe no coração da AMP, não pode ignorar-se o potencial
de conhecimento científico e tecnológico, de I&D e transferência de
tecnologia e de talento que ainda existe na cidade central, ainda que essa
localização não seja imutável; é provável que assistamos nos próximos tempos a
deslocalizações e crescimentos de universidades e universidades técnicas e dos
principais inter-faces.
Sexto e por último, creio que o
grave problema da habitação paira sobre toda a reflexão que possamos alimentar
sobre as atividades económicas futuras; a relação atividade económica-emprego
conflitua com a existência desse gravíssimo problema de insolvência da procura
de habitação para uma larga franja da população portuguesa; os municípios que
melhor se posicionarem e resolverem este problema acrescentarão aos fatores de
atratividade económica uma dimensão suplementar apreciável.
A estratégia do plano deve ser
flexível para se adequar a este tipo de transformações e deve integrar uma
estratégia mais ampla de atração de novas atividades. Mas como o referia numa
nota inicial, o concelho dispõe de espaço físico suficiente para novas
localizações e a sua frente de mar, pela sua amenidade e condições
residenciais, oferece uma base fortemente atrativa para atração de talento e
gente qualificada, que tanto pode ser puxada pelo investimento, como potenciar
a atração do próprio investimento.
Que o debate seja profícuo e que
possa ser útil para os trabalhos do PDM.