quarta-feira, 4 de novembro de 2026

COMO É BOM TER ENGANOS DESTA NATUREZA!

 


(Prezo demasiado o sono e o repouso para me entregar nesta idade a serões televisivos como assistir ao desenrolar dos resultados eleitorais, neste caso das intercalares americanas. Em viagem matutina para Coimbra, em trabalho, aconchego-me no regaço dos meus próprios erros de previsão, já que como tudo indica a ideia de onda gigante não chegará para descrever a retumbante vitória dos Democratas, arrebatando aos Republicanos a maioria no Congresso e no Senado. Há vários sinais que assinalam uma mudança considerável, sugerindo que a vitória anterior na Câmara Municipal de Nova Iorque de alguém pertencente à ala esquerda do partido abriu caminho a alguma coisa. A esquerda socialista dos Democratas aparece agora mais representada sobretudo no Congresso e isso anuncia uma transformação que é tão significativa como a derrota de Trump. Certamente que o comportamento futuro de Trump e da sua administração perante estes resultados será sempre uma incógnita e a experiência dita que nunca devemos confiar em comportamentos democráticos de autocrítica ou de mudança de rumo vindos de gente desta estirpe. É uma interrogação com a qual todo o mundo vai ter diplomaticamente de conviver nos próximos tempos. Mas essa não é para mim a principal interrogação. O que estará verdadeiramente em jogo nos próximos dois-três anos será a capacidade dos Democratas para cavalgar esta vitória e encontrar por fim um candidato que transporte esta dinâmica para uma eleição vitoriosa nas Presidenciais que ditarão o desaparecimento de cena de Trump e da sua camarilha. O clima de unidade responsável que essa preparação irá exigir tem desafios novos a partir do momento em que a esquerda dos Democratas tem agora um respaldo eleitoral que não tinha anteriormente. A segunda interrogação virá do comportamento interno dos Republicanos. Será que o partido tem ainda reserva moral suficiente para gerar candidatos fora da esfera de influência da camarilha de Trump? Terá sido ela já irremediavelmente esmagada e cedido à mercantilização plutocrática da política em curso?)

Nunca pensei que a leitura do EMPIRES, NATION-STATES AND DEMOCRACIES fosse tão sugestiva para os tempos de hoje.

Não há autocracia que sempre dure e fanfarrona ainda menos.

As reservas da democracia americana parece que não estão esgotadas.

Como é bom enganar-nos nestes termos!

 

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