terça-feira, 27 de janeiro de 2026

POR VEZES, A HISTÓRIA É CRUEL PARA OS BRAVOS

 

(Dói-me a alma a ver o bravo Zelensky a esbracejar e movimentar-se em todas as direções para conseguir pelo menos condições mínimas de segurança e proteção para o seu povo, num quadro de suspensão das hostilidades, prefiro chamar-lhe assim do que conspurcar a palavra Paz, e da agressão exterior a que a Ucrânia foi sujeita pela infame agressão russa. A “pescadinha de rabo na boca” em que os EUA de Trump colocaram Zelensky é das operações mais cínicas que alguma vez a história nos ofereceu. Embora o líder ucraniano nos anuncie que os EUA lhe asseguraram condições de proteção, a verdade é que informações vindas do interior das negociações nos dizem que essa pretensa certeza de segurança é concedida com a condição da Ucrânia ceder o território do Donbass, incluindo aquele em que as tropas ucranianas mantêm o controlo da situação. Por outras palavras, segurança sim, mas capitulando. Se alguém tinha dúvidas de que a voz grossa de Trump perante as exigências de Putin tende a desvanecer-se e a transformar-se numa voz esganiçada e débil o modo como a mediação das negociações tem evoluído esclarece todas as dúvidas possíveis.)

Como o título do post o sugere, a história é muitas vezes cruel para os bravos. Sobretudo nos contextos em que esses bravos, não deixando de o ser, são obrigados pela força das circunstâncias a ceder território. A história favorece os conquistadores, os que ocupam e alargam território. É cruel e madrasta para quem é apropriado e para quem foi forçado a ceder território.

Dificilmente, em qualquer circunstância, Zelensky venceria umas eleições futuras. E tenho dúvidas de que o tremendo desgaste a que tem sido sujeito o estimulasse a tomar posição vencedora nessas eleições. Mas o problema maior é que, a realizarem-se tais eleições, provavelmente elas acontecerão num cenário de perda de território, na mais flagrante de demonstração de benefício do infrator dos tempos mais recentes.

Zelensky regressará ou não ao entretenimento e provavelmente ganhará a vida com conferências e outros eventos de alto gabarito. Não sabemos se a Ucrânia algum dia integrará, ainda que diminuída de território, a União Europeia. Mas a derrota de Zelensky será também uma dura derrota para a Europa que, no caso dessa integração mesmo que diferida no tempo, passará a viver paredes meias com o invasor. O ambiente a leste na União Europeia transformar-se-á definitivamente, a Polónia e os países Bálticos, pelo menos, que o digam. As esperanças que a União Europeia manteve com o alargamento a leste, alicerçadas sobretudo na relação virtuosa entre novas oportunidades de crescimento e de dotação de qualificação de recursos humanos, e que tanto amedrontaram os países da economia do Sul como Portugal, irão ter no novo contexto um duro revés. Estimo que a geografia do investimento direto estrangeiro no seio da União se altere profundamente, com os investimentos em defesa militar a ocuparem nesses países o lugar de realce.

Uma derrota da Ucrânia que é absorvida enquanto tal no território europeu transformará decisivamente tudo o que é prospetiva no espaço europeu. E tudo isto porque se beneficiou o infrator e se quebraram os sagrados laços da aliança atlântica.

Estudemos bem o que Carney nos transmitiu em Davos e mais do que reflexões encantatórias ajamos em conformidade, passando por cima da crueldade da história para os bravos.

 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

RECUANDO NO TEMPO...

Quem me conhece sabe que tenho o terrível vício de juntar documentação ou, visto pelo lado mais doméstico, de alguma incapacidade de me desfazer de coisas e materiais diversos que sempre reputo de reutilizáveis. É um defeito que confesso, e que por vezes me chega a angustiar, mas que não deixa de ser também um defeito que se faz acompanhar de potenciais virtudes remuneratórias.

 

Eis um exemplo, decorrente de uma manipulação neste último fim de semana de alguns montes a precisarem de arrumação: uma notícia do JN, cuja divulgação fará trinta anos muito proximamente, em que se reportam as declarações do chanceler alemão de então, Helmut Kohl, num fórum sobre segurança ocorrido em Munique e contando com a presença do secretário norte-americano da Defesa (William Perry): “Não podemos esperar que os Estados Unidos desempenhem permanentemente o papel do guardião capaz da casa europeia nos inúmeros conflitos que eventualmente possam eclodir”.

 

Estávamos então num contexto europeu de Conferência Inter-Governamental, na sequência do Tratado de Maastricht, e o título da peça – “Defesa comum europeia deve ser prioritária” – é assaz premonitório, embora o seu conteúdo tenha acabado por ser bastante desvalorizado pelos responsáveis europeus no seu conjunto, sobretudo na medida em que as velhas e sábias lideranças iam desaparecendo (Delors saíra da Comissão em janeiro de 1995, Mitterrand deixara a Presidência em maio de 1995, Kohl iria abandonar funções em novembro de 1998) e em que as novas iriam depois embarcar em cedências de cariz mais interessado ou mais ingénuo, como foram os casos de Schröder e Merkel, quase sempre mal acompanhados por Santer, Prodi e Barroso na Comissão ou por Chirac, Sarkozy e Hollande ao comando da França. Parece hoje inquestionável a “cegueira” que dominou os grandes decisores europeus desde os finais do século XX e que já aqui abordamos por diversas vezes evidenciando a entrega aos americanos das rédeas da Defesa, aos russos dos abastecimentos em Energia e aos chineses das chaves-mestras da Competitividade através da concorrência internacional desregulada e permissiva que teve nos lordes ingleses (Mandelson e Brittan), nos neerlandeses e nos nórdicos os expoentes mais insistentes.

 

Voltando à Defesa Comum Europeia, não está agora à vista o bem-fundado da posição que Kohl exprimia em 1996?

INVESTIMENTO PÚBLICO E MANUTENÇÃO

 


(A semana ferroviária horrível que a vizinha Espanha viveu deve merecer-nos alguma reflexão, se não fora por outros motivos pelo facto de que a segurança também nos interessa. A probabilidade de algum dia os portugueses do norte a sul usarem a rede ferroviária espanhola é elevada, atendendo sobretudo ao seu potencial de conexão com a restante Europa e aos atrasos da nossa ainda titubeante rede de alta velocidade. O acidente trágico de Adamuz tem seguramente dimensões de tempestade perfeita, principalmente pelo facto do descarrilamento inicial ter acontecido com a praticamente simultânea movimentação em sentido contrário de uma outra composição de alta velocidade, cerca de nove segundos de intervalo, inviabilizando qualquer tentativa de acionamento de mecanismos de imobilização por parte desta última. Mas para lá da tempestade perfeita, à medida que se vão conhecendo os alegados factos que poderão ter dado origem ao descarrilamento da composição da concessionária italiana, que apontam para a existência de problemas na própria via, a reflexão muda completamente, pois parece existir uma evidente e perigosa desproporção entre a espantosa dimensão da rede e a real capacidade de a manter em condições de total segurança. O que suscita reflexões de outro tipo e que se relacionam com a hoje muito desprezada relação entre esforço de novo investimento e acautelamento do investimento em manutenção, só suscetível de ser rigorosamente incorporada num modelo de orçamentação plurianual, ela própria incompatível com a instabilidade e polarização políticas que condicionam largamente a governação em Espanha.)

Com a balbúrdia ferroviária da última semana, pejada de tragédia, morte e perturbações da vida quotidiana, o governo de Pedro Sánchez acrescentou mais uma montanha de problemas à sua já complicada sobrevivência. Neste caso, a relação entre poder central e autonómico (Andaluzia) não fissurou e os presidentes do governo e da região apareceram em público focados na intervenção de socorro às vítimas e à explicação das causas do acidente. Mas, à medida em que se foi conhecendo os possíveis problemas identificados na via onde se produziu o acidente, deduzidos a partir dos efeitos provocados no rodado das composições que passaram pelo local naquele dia, intui-se que outros acidentes poderiam ter sido observados.

Já aqui por repetidas vezes me referi ao crescimento espantoso da rede de alta velocidade espanhola, revelador de uma apreciável capacidade de decisão e de financiamento, que a colocou no segundo lugar da hierarquia das redes mundiais de alta velocidade, lideradas pela China. Compreende-se que um crescimento desta natureza suscite o concomitante incremento das exigências de segurança e de manutenção. Creio que não passou pela cabeça de ninguém imaginar que o espantoso crescimento da rede não tivesse sido secundado por igual esforço de investimento físico e organizativo em matéria de manutenção. Os problemas que se terão verificado na união e soldadura (faltam-me os conhecimentos técnicos para descrever com rigor esta operação) entre troços novos de via com troços existentes, ambos produzidos pela mesma empresa, terão sido sinalizados pelos relatos de outras composições que identificaram nessa passagem vibrações anómalas, oportunamente comunicadas às entidades com supervisão da manutenção da via. Algo terá falhado na cooperação de recursos que a abordagem a um problema técnico desta natureza e importância para a segurança de circulação em toda a rede implica. Abre-se, por isso, a questão de saber se tal falha estará ou não relacionada com algum défice de investimento de manutenção, possível defeito de fabrico do troço de carril substituído ou se, pelo contrário, a insuficiência anotada resulta de um problema mais geral de desordem na governação que tende a projetar-se descendentemente para as entidades de supervisão e manutenção. Aparentemente, pelo que foi sendo conhecido a partir do momento em que as investigações começaram, não foi registada qualquer falha determinante de insuficiente desempenho do sistema de entidades relacionadas. Foram apenas registadas comunicações de várias composições respeitantes às referidas vibrações na passagem pela via, que se estima terem sido tidas em devida conta pelas autoridades de supervisão, designadamente dos pontos de união entre troços novos e troços antigos de carril.

A investigação das causas do acidente que está a cargo da Comissão de Investigação de Acidentes Ferroviários seguramente que vai identificar as razões que terão provocado tão infausto acidente. Mas independentemente do processo estar a decorrer com normalidade institucional, a caça ao ministro Óscar Puente já abriu com todo o estrondo possível de crispação em que a política espanhola está mergulhada.

A caça ao ministro será desporto apenas para alguns. O que interessa aos espanhóis e a todos os europeus, pois a rede espanhola de alta velocidade é uma aquisição importante da interligação entre toda a rede europeia, é a de saber se a circulação em alta velocidade se faz em Espanha com toda a segurança necessária, especialmente em torno da união entre carris novos e carris antigos. Não posso deixar de identificar aqui algo de metafórico nas relações entre o velho e o novo.

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

A FERTILIDADE E A MACROECONOMIA

 


(Evolução da Taxa de Fertilidade Total para os dois grupos de países definidos por Claudia Goldin)

(Nestes tempos de crispação política para todos os gostos, é natural que os temas mais estruturais e pesados da sociedade portuguesa tenham ficado para trás, esquecidos na espuma mediática. Com exceção da saúde que, por razões óbvias, nos incomoda diariamente numa espécie de tempestade perfeita, fruto da convergência de problemas de longo prazo e de incompetências de última geração, até a magna questão da habitação tem passado algo perdida por estes dias, agravado pelo facto de nenhum dos candidatos presidenciais se ter atravessado com reflexões mais profundas sobre o tema. O problema da baixa taxa de fertilidade da população portuguesa e o envelhecimento que se apodera dos quotidianos urbanos e rurais está nesse grupo de temas estruturais largamente esquecidos nos últimos tempos. Não interessando agora saber se as políticas públicas engendradas para combater o problema foram ou não consequentes, gera-se a perceção de que muito provavelmente o combate para uma inversão da tendência descendente das taxas de fertilidade total é tarefa demasiado ambiciosa para o poder de intervenção dos governos em sociedades democráticas. Se calhar essa perceção não anda muito longe do que pensam economistas avisados e bem preparados para discutir o tema. Esta reflexão ocorreu-me ao ler o recente e excelente artigo da Nobel de Economia em 2023 Claudia Goldin (Harvard) publicado pela autora na prestigiadíssima revista ECONOMICA, designado de “Babies and the Macroeconomy”.)

No início do artigo, Goldin refere premonitoriamente que “(…) os fazedores de políticas consideraram e adotaram uma grande variedade de medidas para aumentar a fertilidade. Mas a taxa de fertilidade é também claramente determinada por forças que não dependem dos caprichos dos governos, e isso aconteceu sempre desde o início dos tempos”. A pesquisa que suporta o artigo da Economica é curiosa porque é desenvolvida no âmbito de um grupo de 12 países, no qual é possível estabelecer com clareza a diferença entre dois sub-grupos, um dos quais integra Portugal. Sim, ao contrário de outos assuntos em que passamos despercebidos, nestes temas da fertilidade o caso português não pode deixar de ser estudado, dado o baixíssimo valor da taxa de fertilidade total a que chegámos. Os grupos de países em que Goldin decompõe a sua análise apresentam comportamentos evolutivos diferenciados da taxa de fertilidade total (TFT) e por isso a comparação entre eles merece toda a atenção possível.

O primeiro grupo integra a Dinamarca, França, Alemanha, Suécia, Reino Unido e EUA, logo a frente ocidental mais avançada e partilham o facto de por volta de 1970, após um período dourado de crescimento económico, apresentarem uma TFT em torno de 2, ou seja, já no limiar da não reprodução simples da população. Estes países mantinham 30 anos depois valores da TFT aproximadamente os mesmos de 1970. O segundo grupo integra a Grécia, Itália, Japão, Coreia do Sul, Portugal e Espanha e estes países apresentavam nos anos 70 valores mais elevados da TFT, registando, entretanto, uma descida a pique da TFT nos anos 80 e 90, com valores dos mais baixos entre o grupo das baixas TFT, em torno do valor de 1,3. O que Goldin nos mostra é que os países que tiveram crescimentos mais rápidos e abruptos das respetivas economias são exatamente os mesmos que, mais tarde, apresentam os mais baixos valores de TFT. A relação entre o crescimento económico e a TFT (daí o título Babies and the macroeconomy) é uma relação complexa e que não nem mecânica, nem linear. O que Goldin nos mostra é a centralidade da mudança do estatuto da mulher nas rápidas transformações trazidas pelo crescimento económico, já que parece inequívoco que o crescimento económico traz à mulher maiores liberdades, mais margem de manobra e sobretudo o poder de estabelecer sem pressões externas qual o tempo que considera necessário para equilibrar o valor de ser Mãe e as respetivas responsabilidades que sobre elas recaem, mais do que sobre os homens. O que acontece é que os períodos de crescimento económico rápido e abrupto aceleram a transição da tradição para a modernidade e geram, regra geral, conflitos de interpretação e decisão, entre homem e mulher, sobre os tempos da fertilidade. Goldin introduz aqui dois tipos de conflitos, o geracional induzido pelo maior tradicionalismo dos homens (mais presos às normas e tradições do passado) e o de género quando os desejos dos homens de mais filhos chocam com o tempo exigido pelas mulheres para responder a esse pedido e, simultaneamente, quererem gerir a sua carreira profissional.

No grupo de países com maior continuidade de crescimento e não sujeitos a períodos rápidos e abruptos esses conflitos existem, mas tendem a diluir-se mais, não se traduzindo em TFT tão baixas. Subjacente a todo o raciocínio de Goldin, está a conhecida assunção de que a transformação social e dos padrões de comportamento evolui mais lentamente do que o crescimento económico. Os conflitos geracionais e de género de Goldin não são mais do que expressões desse gap entre a mudança económica e a social, matéria sobre a qual os governos terão pouco que dizer e fazer, por mais imaginativos e ousados que possam ser em matéria de medidas propostas.

Este post deve ser entendido como uma simples introdução ao artigo de Goldin e nada aqui é apresentado sobre o modelo que a Nobel de Economia aplica aos dois grupos de países. O meu ponto era o de mostrar que, independentemente de outras explicações, a dinâmica macroeconómica e a transformação social têm tempos de maturação distintos, gerando os tais conflitos geracionais e de género que Goldin introduz na análise. O meu objetivo era o de simplesmente mostrar que, em vez de criar grupos de trabalho a torto e a direito para explicar e atuar sobre a queda da TFT, valerá mais a pena ter uma compreensão mais fina e estabelecida das razões que explicam essa queda. Até porque negar que o estatuto social da mulher tenderá a ser reforçado e não contrariado equivalerá a uma pantomina de políticas inúteis. O fundamental parece ser organizar a sociedade e a economia para lidar com essa certeza e sobretudo preparar coletivamente o envelhecimento, aguardando que a tão por alguns idiotas odiada imigração vá introduzindo na sociedade algum rejuvenescimento e sobretudo ajudando a robustecer a segurança social para incorporar os efeitos do inevitável envelhecimento.