Bem pode alguma gente alertar, solicitar ou criticar que o Governo (este como os anteriores, diga-se) não ouve e nada diz. Muito menos quando se trata de grandes obras ou obras de regime, daquelas de encher o olho. É o presente caso da construção do Novo Aeroporto de Lisboa, uma decisão que aguardou cinco décadas e que aconteceu quando as projeções já estavam requentadas, para não dizer completamente desatualizadas (como apontou a Carta Aberta aos presidentes dos principais órgãos de soberania, elaborada no quadro do Círculo do Centralismo (ACEC) agora dirigido por Carlos Tavares). Pois soube-se esta semana que o Governo (Pinto Luz, o ministro das Infraestruturas, em Portugal um permanente candidato a sucessor do fontismo) manifestou preocupação em relação aos cálculos usados pela ANA para prever o número de passageiros que irão utilizar a nova infraestrutura a edificar no atual Campo de Tiro de Alcochete, preocupação exatamente inversa da que foi manifestada pela ACEC – defeito versus excesso, obviamente. Alguma coisa não bate certo, pessoalmente cá tenho as minhas suspeitas de se tratar apenas de uma ilustração mais do Portugal do tarefismo/incompetência e do fogacho/desperdício...
domingo, 29 de março de 2026
FALAR PARA O BONECO!
O REPOSICIONAMENTO DO PS
(A realização do congresso do PS neste fim de semana trouxe de novo ao debate público a questão do seu reposicionamento político. A questão não é nova, já se colocava antes da queda abrupta registada nas últimas eleições legislativas e regressa agora, à medida que José Luís Carneiro vai fazendo uma espécie de caminho das pedras para se afirmar como alternativa de governação. Obviamente que questões laterais como a interpretação da viagem de Carneiro e Brilhante Dias à Venezuela e de certo modo centrais como o preenchimento das vagas para o Tribunal Constitucional têm perturbado, senão mesmo ocultado, o debate mais decisivo sobre o reposicionamento do partido para oferecer uma alternativa sólida ao eleitorado que não quer embarcar no namoro mais ou menos implícito que a AD vai testando com o Chega. Não se conhece nada de relevante em matéria de ideias que tenha brotado do anunciado Conselho de Estratégia criado por José Luís Carneiro, o que adensa a preocupação quanto ao estado tardio em que se encontra o debate sobre o reposicionamento. Vamos por partes. Admitir que a composição do Tribunal Constitucional ficaria indiferente ao crescimento do Chega e à profunda alteração do quadro parlamentar equivale ao mais estranho “wishful thinking” de como contrariar a “direitização” em curso, seja ela interpretável como algo de efetivo e sólido, ou como um produto de moda circunstancial, sem espessura. Perante essa “direitização” em curso cabe ao PS alertar o eleitorado para os perigos associados a essa perda do balanceamento que sempre caracterizou o quadro constitucional e, obviamente, responsabilizar o PSD por se deixar arrastar por essa onda de mimetização das tendências que engrossaram até agora a direita populista em Portugal. A fragilidade atual do PS vem do facto de para querer manter uma posição clara de rejeição desse namoro implícito o partido arriscar precipitar novas eleições, sem que o seu edifício político esteja recomposto e pronto para uma nova luta eleitoral. Ou seja, até que ponto a demarcação face à aproximação que o PSD está a fazer a algumas causas do Chega pode ou não ser concretizada sem precipitar a instabilidade política. Trata-se de um equilíbrio muito difícil de conseguir e, por isso, considero que quanto mais tarde se concretizar o desejado reposicionamento pior será essa fragilidade.)
Quando se equaciona o reposicionamento de uma força política como o PS existem sempre duas vias, que se necessitam mutuamente, para o concretizar. Uma das vias constrói-se pela negativa. Ou seja, afirmar com clareza o que o partido não quer ser, o lugar que não quer ocupar. Esta via está hoje facilitada, pois abundam os exemplos de posicionamentos a rejeitar, tão variados e escabrosos são os que mais recentemente têm emergido. Um dos temas mais recentes protagonizados pela ala agonizante da AD identificada com o CDS mais retrógrado, é o indesejável confronto entre wokismo e anti-wokismo, que levou (o primeiro) à agonia do Bloco de Esquerda e tem entusiasmado (o segundo) os Núncios deste mundo. Este confronto tem um elemento comum, a chamada cultura do cancelamento. É este elemento comum que tem de ser rejeitado com convicção, pois não corresponde de todo às necessidades reais do eleitorado que se pretende recuperar, seja ele o mais jovem, seja o das classes médias em progressivo empobrecimento e perda de alavancas sociais, especialmente a partir do período pandémico e do sucessivo agravamento da estabilidade internacional.
Mas existem outros exemplos importantes para afirmar o lugar e os valores que não quer ocupar. O tema da imigração, da demografia e dos problemas do relacionamento entre culturas exige uma posição de equilíbrio que só, em meu entender, o PS está em condições de trabalhar. O posicionamento a rejeitar é o dos extremos que entretanto emergiram: de um lado, os que continuam a defender a rejeição da imigração e a esperança pífia de que a redução da taxa de fertilidade possa ser ultrapassada a curto prazo; do lado oposto, os que são incapazes de perceber que a integração cultural é para algumas populações uma miragem e que a formação de guetos culturais em torno das populações imigradas constituirá sempre um fator de perturbação social e fonte dos aproveitamentos mais sórdidos e aviltantes.
Mas chega de reposicionamento pela via negativa. É necessário também afirmar posições, que reconduzam o eleitorado a uma nova perspetiva de confiança relativamente às soluções que são propostas.
Uma primeira ideia, que podemos considerar vulgar, mas que está longe de o ser, é a de que um reposicionamento pela positiva não pode propor o céu e a terra, mas antes concentrar-se num conjunto reduzido de grandes mudanças.
Creio que não é necessário pertencer ao Conselho de Estratégia do PS para propor um consenso alargado em torno de algumas, poucas, apostas temáticas, suscetíveis de interessar o eleitorado e conduzir a um novo pacto de confiança.
Em meu modesto entender, existem quatro grandes temas agregadores que podem ser enriquecidos com a desmultiplicação de medidas mais concretas. Esses quatro temas são os seguintes:
§ Um posicionamento claro em matéria empresarial, tema que o PS sempre evitou de aprofundar e ao abrigo do qual existem outros temas a considerar como o da qualificação da população e a questão da investigação científica e tecnológica;
§ Uma estratégia de longo prazo para a saúde em Portugal que resista à tentação ideológica que Marta Temido não conseguiu ultrapassar e que reconsidere o SNS no estado da arte atual e não no estado desejável, ou seja, considerando o grau de implantação do setor privado já alcançado;
§ Um programa de habitação que rompa de vez com as falácias de que o mercado resolverá o problema, às quais Montenegro e Miguel Luz estão tão apegados e incapazes de compreender os efeitos perversos que os instrumentos “pró-mercado” estão a provocar, adensando o problema da “affordability” que atinge um número cada vez maior de indivíduos e famílias;
§ Um novo pacto territorial com o país, que promova de uma vez por todas um programa e critérios-compromissos de investimento público que combatam de vez o excesso de concentração em Lisboa e ofereça novas oportunidades a outros territórios e potenciando melhores condições de atração de pessoas e de investimento privado.
Estas quatro opções centrais podem ser combinadas com opções de carácter mais transversal como o serão seguramente o da justiça ou o da consolidação de uma resposta consistente à severidade das mudanças climáticas, com incentivos à mudança de comportamentos.
Obviamente que este programa de mudança e de recuperação da confiança do eleitorado exige considerações e aprofundamentos complementares que serão objeto de desenvolvimentos atempados neste blogue, particularmente do primeiro em que a viragem de posições no interior do PS poderá ser mais controversa.
A seu tempo e na medida do possível procurarei elaborar um pouco mais sobre estas matérias.
Mas fica a ideia central de que um novo reposicionamento assenta em questões-chave e não no arranjo sistemático de tudo que vem à linha na espuma das tentações eleitorais.
sexta-feira, 27 de março de 2026
QUANDO CAVACO AINDA FAZ A CAPA DO EXPRESSO...
Diga-se com toda a frontalidade: Aníbal Cavaco Silva é um lutador inesgotável pelas suas causas! A caminho dos 87 anos, o ex-Primeiro-Ministro e ex-Presidente da República não desiste de vir à boca de cena periodicamente para dizer de sua justiça. Uma justiça que é frequentemente, do meu ponto de vista, pouco correspondente às melhores exigências de cada situação concreta, o que hoje nem sequer é o caso na sua essência.
Porque o ensaio que o Professor Cavaco escreveu no “Expresso”, e fez manchete, contem duas coisas muito simples e óbvias: (i) que Montenegro não vai lá sem reformas estruturais que empurrem o País para um crescimento económico necessário de um nível de 3 a 4%; (ii) que a evolução de um Chega, cujo líder “procura enganar e iludir os portugueses”, tem de ser travada. Dito de outro modo: que o Governo tem de se fazer à vida, mudando drasticamente a sua atitude parada e autocontemplativa (estas últimas palavras são minhas).
Claro que o Professor – que aproveitou o ensaio para inventar o novo conceito, aplicável a Portugal, de “país relativamente pobre” – não se exime, como tem de ser, a criticar os bloqueios da Oposição ao “espírito reformista revelado pelo atual governo minoritário” mas uma leitura atenta do seu escrito não permite interpretações muito diversas dos aspetos acima mencionados.
Ou seja: Montenegro não reforma e gosta do Chega; Cavaco está com Montenegro mas defende reformas e não aprecia o Chega; Passos não está com Montenegro porque ele não reforma mas até nem desgosta do Chega. Dá para entender?
CONTRADIÇÕES DO (SUB) DESENVOLVIMENTO
(É curioso como a disrupção generalizada por esse mundo fora, com epicentro na Ucrânia e no Médio Oriente e na guerra brutal que por lá se trava, tem conduzido a um claro esmorecimento do tema dos desequilíbrios de desenvolvimento e das questões ambientais, associadas ou não ao tema das mudanças climáticas. Tudo se passa, paradoxalmente, como se o clima de guerra apagasse a lembrança de que o mundo enfrenta cenários climáticos e ambientais desastrosos. Tanto mais paradoxal quanto mais se sabe que a guerra é um fator terrível de adulteração das condições do solo, da água, do ar e das emissões em geral. Este tema veio-me à pena, mais propriamente ao teclado, através de um gráfico publicado pela hoje insubstituível base de informação do OUR WORLD IN DATA, que não se cansa de publicar informação sobre temas para os quais não tínhamos o hábito de prestar atenção e que podemos agora explorar numa farta diversidade de interesses possíveis.)
A mais recente newsletter do OUR WORLD IN DATA oferece-nos matérias tão diversas como as repercussões na Roménia de uma política mais restritiva do aborto em matéria de aumento da mortalidade infantil ou a indicação precisa e quantificada de quais são os animais mais perigosos em termos de vidas humanas. Mas é sobre o tema da poluição dos plásticos que me interessa deixar algumas reflexões, pois a informação publicada é muito sugestiva dos desafios que o subdesenvolvimento enfrenta.
Quanto todos os dias organizo o material de embalagens para colocar nos postos de reciclagem mais perto de casa não deixo de ficar impressionado com a intensidade infernal com que produzimos diariamente embalagens para reciclagem, nas quais o plástico e derivados continua a ocupar um lugar de destaque. Percebe-se também por essa experiência que pouco terá mudado nesta matéria, a não ser a intensificação dos processos de reciclagem, pois em matéria de as evitar a montante, com outros processos de embalagem de produtos a mudança existe, mas ainda não é percetível. O que sugere que são as mudanças em matéria de produção e consumo que representam o nó górdio da transformação desejada em matéria ambiental.
O que os números do OUR WORLD IN DATA mostram é que são os países mais ricos que geram o maior desperdício de plástico por pessoa (cerca de 63Kg), mas são também esses países os que provocam menor poluição de plástico per capita (0,1 Kg). Em contrapartida, os países mais pobres geram a menor carga de resíduos de plástico por pessoa (cerca de 16kg), mas em contrapartida são os que geram maior poluição per capita (10 kg).
Temos aqui a ilustração perfeita das contradições do desenvolvimento e do subdesenvolvimento em matéria ambiental. Afinal, o que é efetivamente contrastante nestes números terríveis são as diferentes condições de gestão de resíduos, neste caso apontando uma clara direção às políticas ambientais. O que está em causa e tem sido marcadamente difícil de o conseguir, é a possibilidade de aumentar o consumo nos mais pobres, mas fazê-lo através de modelos de gestão de resíduos que permitam combinar esse maior consumo com níveis muito mais baixos de poluição de plásticos por pessoa.
Como é compreensível, em contextos em que a fome alastra, a devastação provocada pela guerra e pela severidade climática e os fluxos não desejados de migrações de sobrevivência acontecem pode parecer um luxo despropositado falar de gestão de resíduos. Sim, por vezes, pode ser até desumano. Mas os números do OUR WORLD IN DATA mostram eloquentemente que se tem vindo a perder a noção de que os temas do desenvolvimento e do subdesenvolvimento estão cada vez mais interligados.
quinta-feira, 26 de março de 2026
I&D PRIVADA PRECISA-SE, NA EUROPA!
(Mário Dragui deu o mote, alertando para o beco sem saída em que as matérias da inovação e da competitividade se encontravam na União Europeia. O relatório de Enrico Letta (outro italiano) sobre o mercado interno veio dizer o que já era intuído, o mercado interno europeu está longe de estar concretizado e os irritantes das especificidades administrativas, fórmulas ocultas de protecionismo, continuam a perturbar o pleno aproveitamento desse potencial. António Costa, presidente do Conselho Europeu, interessou-se pelo assunto e pretendeu, em parte segundo as orientações de Mariana Mazucatto, criar uma estratégia de missão europeia, focada nos temas da inovação e da competitividade. No entanto, se bem que impressionados pela consistência dos alertas, a verdade é que em termos de ação concreta a Europa continua a patinar, não no gelo com elegância, mas incapaz de romper com os constrangimentos estruturais que inibem o seu crescimento pela via intensiva (inovação e competitividade). A jornalista Valentina Romei, a escrever episodicamente na newsletter do Financial Times FREE LUNCH, designa este processo de “slow burning”, que poderíamos traduzir livremente por fenecimento em fogo lento. O problema principal é que, embora os desempenhos em matéria de I&D inovação, não forneçam o quadro completo do menor potencial de competitividade que a União apresenta face aos EUA e á China, a verdade é que o desempenho menos satisfatório nesta matéria explica em grande medida o menor dinamismo do crescimento europeu. Uma nova crise energética determinada pela guerra no Irão e eu alastramento aos países do Golfo vem bater forte em qualquer propósito de arrepiar caminho em matéria de inovação e competitividade. Mas o problema continua a ser o mesmo de sempre: o potencial de I&D empresarial, isto é, com melhores perspetivas de repercussão em matéria de crescimento é na Europa muito baixo, porque o big TECH é essencialmente americano e a China tem condições prodigiosas através do seu ímpar capitalismo de Estado dar cartas em matéria de I&D empresarial. Estamos feitos. A criação de condições para a emergência de big-tech e de maior intensidade empresarial de I&D não se concretiza a curto prazo.)
O gráfico que Valentina Romei utiliza para estruturar o seu princípio de “fenecimento em fogo lento” da União é, de facto, arrepiante nos seus contornos. Ao passo que os EUA e a China aumentam a percentagem que lhes cabe na I&D empresarial mundial entre 2014 e 2024, observa-se que a Europa definha nessa percentagem. O definhamento desta percentagem tem essencialmente duas origens principais: a ausência de gigantes ou conglomerados tecnológicos que explicam os números dos EUA e problemas de estrutura setorial, com predomínio na Europa de setores com menor dinâmica de I&D empresarial. O caso da China é essencialmente explicado pela estrutura do seu modelo económico e pelo princípio de que as massas críticas de recursos humanos alocados a atividades de I&D foram favorecidas pelo cenário demográfico vivido até ao fim da última década. Como costumo alertar, 1% de engenheiros dedicados a atividades de I&D na China tem um significado totalmente distinto de 1% de engenheiros dedicados ao mesmo fim na Europa. A demografia também conta para a massa de I&D realizada.
A insuficiência da Europa em matéria de desempenho de I&D, nomeadamente de I&D empresarial, suscita de novo a velha questão da economia da inovação, ou seja, o confronto entre as lógicas de “technological push” e de “demand driven”. Como é que se inverte esta insuficiência? Através de um choque de I&D pública capaz de rapidamente se transformar em fortalecimento de procura empresarial de I&D, através de descomplexados processos de translação de conhecimento e alterando profundamente as condições em que a I&D pública é produzida? Ou fortalecendo a procura?
Nas condições de estrutura empresarial e setorial prevalecentes na Europa, o choque de procura é difícil de concretizar. E não é num ápice que se criam grandes conglomerados tecnológicos. Talvez estabelecendo parcerias com os existentes, nomeadamente americanos, mas os tempos que correm não estão de feição a essa orientação, dada a despudorada reivindicação desses grupos por mais regulação dos mercados.
Tudo indica que a completa revisão das condições em que é realizada a I&D em instituições públicas e em instituições de interface deverá constituir uma prioridade na alocação de recursos e no desenho dos sistemas de incentivos às equipas de investigação. Mas, tal como aqui escrevia há dias sobre outra matéria, também aqui impera a lógica dos rendimentos crescentes, que tendem, como então expliquei, a favorecer as massas críticas existentes de maior magnitude.
Será que a comunidade científica compreende bem o “fenecimento em fogo lento” de que fala a jornalista Valentina Romei?







