(Embora aliviados pelos resultados das nossas Presidenciais, isso não significa que cedamos à ausência de reflexão sobre o que o atual momento político significa, especialmente quando o comparamos com o que se observa na Europa e no mundo. De facto, os 33% de Ventura são um elefante na sala que não pode ser ignorado, antevendo que as interações entre Parlamento, Governo e o novo Presidente da República serão largamente influenciadas por essa votação, abrindo um caminho de indeterminação que se vai confrontar com o desejo de estabilidade política. É neste contexto que vale a pena continuar com um olhar crítico e reflexivo sobre o que se passa em Espanha aqui ao lado, mesmo tendo em conta que o nacionalismo regionalista não tem equivalente em Portugal, que o PSOE e o PS são diferentes, que o PSD é (mais propriamente era) mais social-democrata que o PP e que Vox e Chega estão a convergir cada vez mais. E, nesse olhar crítico, os resultados das eleições regionais, neste último caso na região de Aragão, vão antecipando uma trajetória que parece cada vez inevitável que vá observar-se, com Sánchez a definhar internamente e a aguentar-se no plano internacional.)
O que as eleições regionais em Aragão e na Extremadura nos contaram foi que a antecipação desses atos eleitorais se explica essencialmente porque o PP pretendia ganhar força eleitoral face ao VOX e assim poder governar sem o fardo dos compromissos com a extrema-direita. Face a esse impulso acionado pelo PP, o PSOE aspirava tão só a resistir e a travar o seu declínio claro e o VOX obviamente perfilava-se no sentido de reforçar o seu peso na vida política espanhola. A restante esquerda aspirava a alguma recomposição, designadamente através da emergência e reconhecimento de forças políticas regionais mais radicais.
Os resultados das duas eleições foram inequívocos: i) o PP falhou no seu propósito; ii) o PSOE não conseguiu travar o seu declínio; (iii) o VOX saiu reforçado e (iv) sobretudo em Aragão emergiram reforçados regionalismos radicais, como é o caso da Chunta Aragonesista com 10% dos votos recolhidos.
Os resultados dão obviamente origem a múltiplas interpretações, mas a que começa a ganhar força e expressão é a de que o eleitorado espanhol prefere acordos preferenciais entre o PP e o VOX a aguentar durante muito mais tempo a coligação do PSOE com os nacionalismos regionalistas. Esta interpretação é largamente potenciada pela paradoxal situação interna a nível nacional – a economia vai bem, mas a debilidade do poder executivo do PSOE é cada vez mais flagrante, com as tragédias ferroviárias da alta velocidade e da circulação regular na Catalunha a colocarem o Governo nas cordas.
Por isso, a crónica anunciada de que o PP vai ensaiar acordos de governação com o VOX nestas regiões vai ser concretizada, comprometendo-o com o desgaste de governar, tentando com isso evitar que, no plano nacional, se veja forçado a seguir a mesma trajetória para desalojar o PSOE do poder.
Duas outras conclusões emergem também com clareza. Primeiro, antecipar eleições com o desígnio atrás referido não compensa, já que o PP vence, mas perde força eleitoral para o adversário do qual pretendia afastar-se. Segundo, aproximar-se do programa do VOX, mimetizando-o, também não compensa, já que engorda o VOX e o eleitor parece preferir o original à cópia.
A alternância democrática entre o PP e o PSOE, com alguns acordos de Estado, parece hoje longínqua. Há quem sublinhe que a polarização aguda entre as duas forças políticas não trouxe ganhos para nenhuma delas, especialmente para o PSOE.
Com todas as reservas já enunciadas sobre o potencial comparativo da situação política em Espanha e Portugal, é difícil mesmo assim não a fazer e retirar ilações para o caso português. Espero que as cabeças pensantes do PS e do PSD estejam atentas a estes sinais. Seguramente que Seguro também estará.


Sem comentários:
Enviar um comentário