quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

UM GOLPE QUE JÁ ERA CONHECIDO E UM OUTRO QUE CONTINUA OBSCURO

 


(A vizinha Espanha está irreversivelmente polarizada e, por isso, qualquer coelho da cartola que o Governo de Pedro Sánchez decida colocar cá fora tem sempre uma dupla e oposta interpretação – a direita considera que é um lança fumo para confundir os espanhóis e a esquerda uma medida contra a força da extrema-direita que aspira a sequestrar a democracia e o PP. Assim aconteceu com a decisão governamental de desclassificar todos os documentos relativos ao golpe militar de 23 de fevereiro de 1981 que visava derrubar o governo de Adolfo Suaréz. Embora 45 anos seja uma eternidade e a memória já não seja a de outros tempos, a verdade é que me recordo com nitidez das imagens do Ex-Tenente Coronel Antonio Tejero irrompendo aos tiros pelo Congresso dos Deputados, o Parlamento espanhol. O destino guia-se por linhas muito enviesadas e no dia em que a desclassificação de documentos foi concretizada morreu o dito ex-Tenente Coronel Tejero, figura da frente do fracassado golpe, desfecho que mereceu então à sua mulher o curioso desabafo de “Está tudo perdido? É verdade? Que partida de maricões!”, bem ao jeito de alguém fortemente identificado com o franquismo. Pelo que tenho lido de excertos da documentação através de jornais espanhóis, concluo com uma certeza do que já era conhecido e a confirmação de dúvidas que já existiam. Explicar-me-ei.)

Na documentação a que agora se tem acesso, é indiscutível que surge anulada qualquer suspeição sobre o eventual papel dúbio que o antigo Rei Juan Carlos I terá desempenhado no processo. Antes de se ter dedicado às caçadas de elefantes e ao enlevo de mulheres sedutoras e se ter envolvido com o universo dos petrodólares, parece indiscutível que o monarca se afirmou nos acontecimentos com uma defesa intransigente do sistema democrático, valha-nos isso para pelo menos ter uma referência na história antes da queda para o abismo. Todos os documentos agora desclassificados não identificam em momento algum contactos de Juan Carlos I com os golpistas, antes pelo contrário mostram uma série de comunicações do monarca para que o processo terminasse imediatamente, com relevo para as ordens dirigidas ao Tenente-General Jaime Milans del Bosch, Capitão-Geral da Terceira Região Militar, com sede em Valência, ao qual Tejero reportava. Afinal, nada que não corresponda à imagem que foi criada sobre o papel de rejeição do golpe que era atribuído a Juan Carlos I. Para quem imaginou poder haver indícios de que tal ideia positiva corresponderia a uma narrativa romanceada do papel do então Rei, preparada pela Casa Real, sai defraudado.

O que permanece interrogado é o papel que desempenhou no processo um outro militar, o General Alfonso Armada, condenado também como Tejero e Milans del Bosch. Vários documentos agora desclassificados confirmam a referência a uma “solução Armada”, inicialmente invocada por Milans del Bosch para convencer o Rei de que o afastamento de Suaréz seria a solução mais adequada. Segundo o que agora foi divulgado, essa solução visava aproveitar a crise golpista para propor um Governo de Concentração Nacional, presidido pelo próprio General e formado por políticos de todo o arco parlamentar. Ora, a identificação das condições que terão ajudado a construir essa ideia, que cheira a tentativa do franquismo de recuperar o comando político, continua obscura e a desclassificação dos documentos do 23 de fevereiro em nada ajuda a esclarecer. Estou assim de acordo com o editorial do El Rugido del León do El Español, que sintetiza tudo numa simples frase: “Sabemos tudo sobre o golpe frustrado que aconteceu, mas continuamos a não saber nada sobre o golpe que não chegou a materializar-se.”

 

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