quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O QUE VALERÁ ESTE GOVERNO DEPOIS DAS TEMPESTADES?

 


(A imaginação de escrita não está fértil e o contexto nacional e internacional não ajuda. No plano internacional, quatro anos de guerra na Ucrânia pontificados pela cínica frieza russa, pela basófia transacional de Trump e pelas inconsistências europeias, não basta clamar pela brava resiliência de quem é agredido, mas ajudar é preciso com euros e armas, deitam abaixo qualquer um. Para mais, sermos presenteados com a cena trágico-cómica de um narcisista compulsivo a fazer durante duas horas o discurso do Estado da Nação americana, cheio de contradições e deturpando evidências, desafia o espírito positivo de qualquer um. De facto, comparando com quatro indicadores simples a economia americana de janeiro de 2025 com a situação atual, taxa de desemprego, empregos criados relativamente ao ano anterior, inflação central e perspetivas do mercado de trabalho, não se compreende onde está o desempenho económico excecional com que Trump se apresentou, espelho meu, espelho meu, quem é o tipo mais mentiroso do que eu? No plano nacional, a grande interrogação parece ser a de será este Governo capaz de governar de outro modo que não seja a efemeridade dos “power points”, que se apresentam e arquivam e que não dão origem a qualquer monitorização crescente? Não posso deixar de recordar que, nos piores momentos do segundo governo de António Costa, a política praticada enfermava do mesmo mal. O peso da comunicação na política e na governação tornou-se insuportável, a efemeridade do momento comunicacional sobrepõe-se a qualquer esforço sério de implementar soluções. E daí que seja legítimo perguntar o que valerá o governo de Montenegro após as tempestades?).

A história económica diz-nos que processos de reconstrução infraestrutural e económica dão, regra geral, origem a períodos de relação virtuosa entre investimento e crescimento. Mas, no estádio de desenvolvimento e de mudança estrutural em que o país se encontra, a variável da construção, sobretudo num contexto em que o período final da implementação do PRR exerce uma pressão brutal sobre a construção e sobre a capacidade empresarial existente, pode através do complemento do PTRR não proporcionar o adicional de crescimento necessário para completar, prolongando, o efeito do PRR tal como foi concebido.

Muitas das empresas que podem beneficiar de apoios para repor a capacidade produtiva existente antes das intempéries pode concretizar os investimentos necessários e deparar-se com uma situação internacional cheia de incertezas, não sendo ainda totalmente claro o modo como a economia portuguesa se posicionará face à reestruturação das cadeias de valor globais. A aleatoriedade da política aduaneira da administração Trump nem sequer permite com seriedade estimar o impacto das sobrecargas aduaneiras sobre as exportações portuguesas para o mercado americano. Os empresários portugueses costumam ser hábeis na procura de mercados alternativos, mas não se trata de operações instantâneas de diversão de exportações, isso leva tempo e procurar parcerias de distribuição em novos mercados não se concretiza no tempo de um clique.

Creio que a adição da governação pela comunicação de show-off torna difícil a expressão de um discurso mobilizador entusiasmante e suscetível de colocar o país num registo de recuperação e de refazer as coisas destruídas. É isso que me parece estar a acontecer. Não abundam as ideias simples, mas fortes para agigantar um esforço coletivo. Não é facilmente que se readquire o domínio do timing político e do efetivo discurso de mudança face ao poder das assessorias de comunicação, quando estas últimas estão instaladas e comandam a agenda.

A interrogação tem, pois, sentido. O que valerá esta governação após as intempéries?

Salvo algumas críticas muito seletivas e globalmente pouco expressivas, a indicação do antigo Diretor da Polícia Judiciária para Ministro da Administração Interna deu algum fôlego a Montenegro. Das dúvidas suscitadas, a que me parece que vale a pena monitorizar futuramente é a questão de saber se o novo Ministro mantém no seu discurso aquilo que frequentemente afirmava em público, dizendo que era necessário distinguir entre perceção de insegurança e informação objetiva sobre a mesma. Estou curioso em antecipar como é que Luís Neves conviverá no Conselho de Ministros com Leitão Amaro em matéria de segurança. A questão suscitada por pessoas como Passos Coelho entendendo como má prática a passagem da Polícia Judiciária para o Governo assenta na comparação com a situação de um regulador que assume funções ministeriais, o que me parece um pouco fantasiosa.

Mas retirando o novo fôlego para a Administração Interna e a prestação positiva que a Ministra do Ambiente teve na crise das cheias, a sensação é que alguns Ministro passaram a zombies errantes, passeando-se pelas intempéries com contradições de discurso entre si e deixando antever a inexistência de coordenação política.

Neste contexto, a questão das alianças para aprovar legislação que necessite de validação parlamentar até corre o risco de nem ser o problema fundamental. Porque para haver alianças é necessário saber o que se quer. Se a legislação laboral é o mote para o que vem aí, seguramente que Seguro não terá vida fácil em Belém.

 

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