(Amanhã, a maioria dos portugueses votará, apesar de, para muitos deles, a perceção da fragilidade e vulnerabilidade dos seus territórios, infraestruturas e habitações estar mais clara e esfriar as suas expectativas de um futuro melhor. Atingidos quer pelos efeitos diretos da sucessão de intempéries, quer pela sensação mediática errada de que todo o país está devastado ou inundado, a maioria dos portugueses votará com a afirmação clara de que a democracia vale a pena, mesmo que por vezes a qualidade da governação nos faça duvidar dessa superioridade congénita. É provável, não o sabemos bem, dada a multiplicidade de efeitos que as intempéries podem provocar do ponto de vista eleitoral, que o número de portugueses que associam Ventura à afirmação do ressentimento e da sensação de abandono possa aumentar e assim diminuir o fosso de segurança que existe entre o voto pelo seguro em Seguro e o voto da confusão e do caos político, em que não existe qualquer racionalidade, mas tão só ressentimento, saudosismo e atavismo inebriado pelo passado. Estou em crer que, apesar das condições desfavoráveis em que a votação de domingo pode acontecer e do risco elevado de se confundir má qualidade da governação com malefícios da democracia, a grande maioria dos portugueses vai exercer um voto de coragem e manter o fosso de segurança contra o oportunismo e a sedução pelo caos. A apatia inicial com que o governo, que parece ter perdido o rumo e seguramente a coerência do comando, e a demonstração de que a severidade climática dos acontecimentos extremos continua para alguns ministros e estruturas do Estado a ser literatura de ficção abriram uma passadeira vermelha ao disparar sobre qualquer vulto que surja no ponto de mira em que a campanha de Ventura é perita. Mas mesmo assim, confio que a coragem e a lucidez predominarão sobre os fogachos do voto de ressentimento.)
Mas obviamente que não poderemos ignorar o significado político de uma possível votação em Ventura acima dos 25%. A aparente despreocupação e até enfado com que Montenegro arrastou o PSD para uma não demarcação face a Ventura tenderá a provocar na direita portuguesa um abalo telúrico com inúmeras réplicas subsequentes cuja amplitude e natureza não são para já antecipáveis. Mas neste caso é enganoso admitir que com os problemas na casa dos outros poderemos nós bem. Como partido fundador da democracia portuguesa, qualquer abalo sobre o sistema de valores do PSD pagar-se-á caro em termos democráticos e, por isso, zurzi desde o princípio no analfabetismo político de Montenegro. A uma democracia sólida e consistente não interessa a derrocada do PSD e dos seus valores e posicionamento.
É por isso que, nas condições atuais de ameaças sobre a democracia portuguesa, a péssima gestão da crise das intempéries que o Governo atual nos ofereceu pode ter um sério impacto político, com alguns ministros a revelarem que não têm condições e vocação para governar em circunstâncias como as das duas últimas semanas e que o seu narcisismo de exposição mediática nas redes revela uma patologia profunda. A revelação da descoordenação política no terreno é sempre fatal e tanto mais o é quanto mais grave era a situação em que a devastação colocou as populações.
Aguardemos, pois, com calma e esperança os resultados da votação de amanhã e que os adiamentos de uma semana para alguns concelhos e freguesias constituam uma oportunidade de iniciar a recuperação das condições de vida que esses territórios precisam para recuperar eles próprios a esperança-

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