quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O MUNDO DESCOMPOSTO E À BEIRA DA ALUCINAÇÃO GLOBAL DE LÍDIA JORGE

 


(Para aguentar as nossas cabeças entre as orelhas, como diz o meu colega de blogue, precisamos cada vez mais de estímulos positivos, suscetíveis de cativar a nossa lucidez de promover a energia pertinente para encarar com esperança cada dia ao levantar da cama. Não há receita ou prescrição que nos oriente na procura desses estímulos positivos. Sempre entendi essa procura como uma arte pessoal, laboriosamente exercitada ao longo dos anos, dirão alguns que acompanhada de intuição para encontrar nos pormenores provavelmente insignificantes para muitos a autoestimulação tão procurada. Até porque, como sabemos, os estímulos negativos fustigam-nos aleatoriamente e sem piedade. Estímulos positivos recriados a partir das mais diversificadas evidências, como foi o exemplo desta manhã na rádio, Antena 2, ouvir de novo uma entrevista conduzida por Paulo Alves Guerra, imaginem ao Professor Jorge Paiva, biólogo e botânico, grande especialista na obra de Camões e no seu conhecimento sobre a matéria. Sim, o Império dos Sentidos das 7 às 10 já não é a manhã disruptiva que nele reconhecíamos, mas o homem está vivo e entrevista caoticamente como só ele sabia. Mas o grande estímulo positivo para hoje foi proporcionado pela leitura do belo discurso proferido por Lídia Jorge na cerimónia de entrega do Prémio Pessoa 2025, o primeiro sem a presença tutelar de Francisco Pinto Balsemão, um texto espantoso de dádiva e de comunicação com o leitor, como só a escritora algarvia sabe fazer. Recordo com alguma saudade as crónicas que Lídia Jorge leu na Antena 2 durante algum tempo, especialmente uma em que ela contou com soberba delicadeza uma viagem de comboio com a Agustina Bessa Luís. Imaginem simplesmente a cena…)

Só os escritores como Lídia Jorge poderiam classificar o mundo de hoje como um mundo descomposto, só esta palavra valeria um tratado, à beira da alucinação global. Além do texto contemplar uma leitura de Fernando Pessoa que fará inveja a todo o Pessoano que se preza, recriada a partir de uma leitura experimental aos 13 anos, o discurso reproduzido na íntegra no Expresso online, mostra como a literatura e a poesia são ferramentas essenciais para compreender o mundo e nos compreender a nós. O que mostra que na formação intermédia e superior, inclusivamente a mais técnica, as artes devem fazer parte de um curriculum diversificado, construído por cada um dos formandos num contexto de flexibilidade.

Como ilustração desta ideia, posso dizer que a leitura de obras como O Vento Assobiando nas Gruas (2002), Os Memoráveis (2014) e Misericórdia (2022) me proporcionaram mais e melhores elementos para compreender os Portugueses e o País que somos do que qualquer ensaio ou investigação sociológica.

 

No discurso ontem proferido, podemos encontrar ainda uma surpreendente invocação da poesia como a articulação mais sofisticada das línguas, tanto mais que Lídia Jorge não é propriamente uma poetisa, mas a que não será estranha a grande admiração que a escritora tinha por Eduardo Lourenço, que considerava gémeo fraterno de Pessoa. É muito curiosa a alusão que Lídia Jorge faz à associação que Eduardo Lourenço realizou em 1966 da geração dos sessenta com a obra de Álvaro de Campos (“o engenheiro naval que andou por Glasgow”), associação não estendida por Lourenço à geração dos narradores de oitenta e noventa surgidos com a Democracia de Abril. Modestamente, Lídia Jorge refere que “possivelmente, não encontrou em nós, narradores surgidos com a Democracia, nem o cosmopolitismo, nem a dinâmica técnica e subjetividade caótica do poeta futurista, que ele mesmo, Eduardo Lourenço, gémeo fraterno de Pessoa, reconhecia como a verdadeira lava ardente criadora. Nós, os que viemos nos anos oitenta, tínhamos pressa em passar a faca pela lembrança de uma pátria pobre, amordaçada, que andou aos pedaços por África, e que súbito queria parecer descolonizada, moderna e rica, mas ainda não o era, e ainda hoje demora a ser. Só que eu, provavelmente, não serei filha de Álvaro de Campos, serei quanto muito uma trineta afastada, embora me identifique, no Cartão de Cidadão da fantasia literária, como uma sua parente”.

Existem outras inspirações possíveis no discurso, tais como a digressão crítica pelo mundo da inteligência artificial, mas esta citação basta-me para a considerar o estímulo positivo de hoje.

Outros surgirão amanhã.

 

 

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