Contrariamente ao que é habitual, as primeiras páginas dos jornais nacionais de hoje não primam pela imaginação. Invariavelmente, todas fazem sobressair o nome de Seguro – o eleito novo Presidente da República – recorrendo a um estilo previsível e discreto, aliás em completa consonância com o que é dito sobre a personalidade, o modo de estar e o discurso monocórdico do grande vencedor de ontem. A verdade é que o “patinho feio” conseguiu levar a sua intenção em frente ao concretizar uma hipótese de sucesso que poucos lhe concediam há poucos meses ou semanas. É certo que a sorte esteve do seu lado, quer porque a maioria da direita democrática escolheu um inconcebível candidato (Marques Mendes), quer porque a minoria dessa mesma direita decidiu apresentar-se autonomamente (Cotrim), quer porque o Almirante Gouveia e Melo surgiu para corroer mais uma parte desse eleitorado centrista moderado, quer porque o espaço socialista não encontrou forma de convencer um candidato alternativo, quer porque aquela divisão intestina conduziu a um adversário de segunda volta de pendor extremista e populista e com taxas de rejeição gigantescas. Mas não deixa de ser igualmente certo que Seguro teve o seu mérito, sobretudo em termos de opção por uma estratégia de campanha equilibrada, escassamente propositiva e alheia a todo o tipo de afrontamento e mediatização em excesso (o que alguns designaram por “fazer-se de morto”), afinal a fórmula adequada às expectativas do português médio para o pós-marcelismo, farto como estava em crescendo dos descocos intervencionistas do ainda Presidente. Duas coisas mais: a “beleza” da política também emerge nestas ocasiões em que os esquecidos e/ou maltratados voltam inesperadamente à boca de cena, mesmo que tal não ocorra necessariamente para fins de vingança (embora, no caso vertente, tenha sido feio o modo como Costa chutou despudoradamente Seguro para canto há mais de uma década); ninguém pode afiançar quão saboroso será o “melão” que agora vai ser aberto pela prática de Seguro em Belém, mas espero muito ele possa não ser complacente com a “paz podre” em que mergulhamos nos tempos de Costa e prosseguimos com a sua presente continuidade através do manifesto antirreformismo de Montenegro – alguém tem de chamar o País à razão!

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