segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

VAMOS AO TRABALHO QUE SE FAZ TARDE

 


(Os portugueses demonstraram mais uma vez que não votam com os pés e, num assomo de empenho e coragem democráticos, votaram em condições adversas, tirando partido da sua vontade e de alguma trégua climática que o domingo nos proporcionou. Face aos surpreendentes resultados da primeira volta, sim foi nesse plano que aconteceram as grandes e ambivalentes surpresas eleitorais, com perdedores e ganhadores inesperados, poder-se-iam alimentar algumas dúvidas se António José Seguro conseguiria atrair todo o voto útil dos candidatos anti-Ventura que se perfilavam no horizonte das decisões deste domingo. As posições dúbias de Montenegro e institucionais do PSD mais adensaram essas dúvidas (não me refiro a idênticas posições de Melo e Núncio no CDS, pois não gosto de zombies moribundos). Embora Seguro não tenha capitalizado a 100% o pronunciamento anti-Ventura, a verdade é que num contexto trágico de intempéries que poderiam ter reforçado o ressentimento que alimenta Ventura e o Chega, a votação em Seguro excedeu as minhas estimativas. Desta vez, estou de acordo com Clara Ferreira Alves que manifestou ontem na SIC com clareza a ideia de que se tratava de uma vitória da decência. Sim, em tempos em que a obscenidade e a alarvidade políticas dominam as reações mais primárias, a personalidade de Seguro estava no sítio certo e à hora certa para capitalizar o sentimento de colocar em Belém alguém em quem se possa confiar e que não se serve da política para cultivar outros interesses. E, por mais que os media tenham explorado o sentido redondo de algumas das posições de Seguro, a verdade é que o seu discurso de vitória nas Caldas da Rainha, e saúdo a feliz ideia de sair dos hotéis da capital ou do Porto para celebrar as vitórias, é um discurso de um homem de Estado, já para além do estatuto de candidato. Mas os resultados de ontem merecem algumas reflexões adicionais.)

Os 33% de Ventura mostram que o personagem está ainda numa onda crescente de aspirar a voos mais largos e, como o antecipei, Montenegro seria o principal penalizado por uma votação de ressentimento que, embora não atinja o valor da AD mas últimas legislativas, lhe dá alvíssaras para caminhar na desejada liderança da direita e reforçar perspetivas de governação. Seguro levou o seu discurso de Estado ao ponto de considerar que os 33% de votantes de Ventura são para ser considerados com respeito, já que são votos democráticos expressos em eleições livres. O problema é que o comportamento dos que conseguiram essa percentagem de voto democrático está muito longe na prática de respeitar as regras mais básicas da democracia, colocando por isso problemas de diversa natureza à função a exercer pelo novo Presidente da República

A figura da exigência que Seguro destacou como a marca principal da sua Presidência vai exigir especiais finura e pertinência políticas, sobretudo no quadro em que a votação de Ventura vai por ele ser utilizada para forçar Montenegro a derivas de aproximação às posições do Chega. A preocupação daí resultante é perfeitamente justificada quando no seio da governação encontramos gente como Leitão Amaro ou Maria do Rosário Ramalho sempre dispostas a transformarem-se em cópias vulgares da direita mais tramontana.

Vamos assim entrar num rodopio de interações entre Parlamento, Governo e Presidência com Ventura no epicentro da agitação. Por muito que o PS não o desejasse, é neste contexto algo sinistro que terá de cumprir o seu caminho das pedras, até conseguir forjar uma alternativa de governo.

Sempre acreditei que as competências políticas têm, como não pode deixar de ser, uma natureza inata ou já adquirida no passado. Mas acredito cada vez mais que, tal como noutras profissões, mas aqui neste caso mais do que reforçadas, as competências políticas se constroem na função e exercendo a prática política. Espero não me enganar a propósito de António José Seguro, estimo mesmo que ele nos possa surpreender, pois parte para a função sem “rabos de palha” que o possam comprometer.

E o contexto em que vai iniciar a Presidência talvez seja o ideal para afirmar esse propósito de exigência, a marca de água que pretende imprimir ao seu mandato. Daí o meu título “Vamos ao trabalho que se faz tarde”. O esforço de reconstrução dos territórios mais atingidos, com relevo para a martirizada região Centro, é a melhor ilustração desse desafio, que não deve afastar a necessidade da preparação para novas formas de severidade climática que virão por aí. E, já agora, Seguro poderá ter no ex-autarca do Fundão Paulo Fernandes, indicado para liderar a estrutura de missão de reconstrução na região Centro, um excelente parceiro.

Com a noite eleitoral de ontem uma estranha sensação de alívio envolveu-me, sem ignorar os desafios que virão por aí. E, também simbolicamente, lá para as bandas da Luz, os 17 anos do predestinado para o golo Anísio Cabral conseguiram de novo em poucos segundos após a sua entrada o alívio do golo redentor, voando de novo entre os centrais.

Alívio total para um sono bem merecido.

 

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