sexta-feira, 3 de setembro de 2021

ROTURAS E ESCASSEZ

 

                    (Uma imagem do mundo complexo da logística internacional)

(Entre os chamados efeitos da pandemia económica mais conhecidos dos cidadãos, pela informação que recém e pelas situações pessoais em que muitas pessoas se viram envolvidas, a destruição de empresas e de postos de trabalho está porventura entre os eleitos. À medida que os sinais de recuperação, agónicos embora e talvez por muito tempo, se conhecem, outros efeitos mais subtis e de efeitos mais duradouros começam a ser conhecidos e não apenas porque as tensões inflacionárias andam por aí.)

Cedo se percebeu que por detrás dos devastadores e letais efeitos sanitários da pandemia, uma outra dimensão, a da interação entre a dimensão económica e social da pandemia, emergia com toda a violência, de que as quebras de produto e de emprego são a face mais visível.

Muita dessa destruição afetará irreversivelmente o produto potencial das economias, já que parte das empresas e dos postos atingidos pela suspensão forçada da atividade não regressará à atividade, mesmo que por força da regeneração natural feita da criação de novas empresas parte dessa perda de produto potencial possa ser compensada com investimento de raiz e capacidade de geração de novos postos de trabalho não necessariamente ocupados porque os perdeu e não regressará ao mercado de trabalho.

Diria que se trata da face visível do iceberg que se quebrou. Visível porque a informação mediatizada lhe concede mais espaço, mas também e sobretudo porque há sempre histórias pessoais e de vida com destruição de felicidade e horizontes.

Mas temos dedicado pouca atenção a uma outra manifestação da pandemia económica, que se pode resumir a uma expressão do tipo “a economia mundial já não é o que era”. De facto, quando as coisas vão bem, a economia mundial, sobretudo quando é vista pelas lentes de quem trabalha nas economias mais abertas, mais parece um relógio suíço na sua cadeia logística de fornecimentos. E não é da produção de produtos acabados que são exportados e importados de que falo. Falo antes da miríade de produtos intermédios que circulam pelo mundo e que são fundamentais para assegurar essa fluidez , resultante do simples valor de que a cadeia de valor da grande maioria dos produtos se fragmentou por muitos países e regiões, alimentando esse comércio internacional de transporte do valor pelo mundo até que ele desabroche num produto final vendido para o mundo a partir de uma dada localização.

Muito boa gente imaginou que as roturas e fenómenos de escassez de alguns desses materiais intermédios resultava de um fenómeno temporário de um aumento brusco de encomendas após longos e desigualmente constrangedores períodos de confinamento. Sem querer dizer que esses fenómenos de escassez temporária não se tenham verificado, a verdade é que à medida que a recuperação se generaliza, embora vigilante e agónica, se percebe que não se trata de roturas temporárias.

É verdade também que fenómenos como o bloqueamento do canal de Suez e devastações climáticas em algumas partes do mundo tiveram alguma quota de parte de responsabilidade no fenómeno. Mas tudo isso não é suficiente para explicar a ideia de que a economia mundial já não é o que era. E de repente compreende-se também que o relógio suíço da logística internacional de produtos intermédios é mais frágil do que se pensava, sobretudo para o consumidor “internacional” que se habituou à ideia de que a palavra escassez parecia ter desaparecido para parte incerta. Tudo isto foi ampliado pela tendência das estruturas de distribuição reduzirem stocks praticamente a zero, entregando-se à dependência do tal relógio suíço de circulação de materiais intermédios. A continuação dos surtos de incidência pandémica por todo o mundo tem acrescentado novos pontos de paragem em grandes centros logísticos de distribuição de mercadorias, e não apenas materiais-chave como os chips para computadores e outras tecnologias de processo estão em causa.

O que parece evidente é que o transporte internacional fiável e barato, sobretudo o de âmbito intercontinental, que amplificou determinantemente a globalização (enquanto a descida abrupta dos preços das comunicações precipitou a globalização financeira e dos serviços), está hoje senão ameaçado, pelo menos sujeito a fatores de rigidez com repercussões no seu custo.

Dirão os mais otimistas que são as condições ideais para certos países como Portugal reorganizarem o seu papel na divisão internacional do trabalho, procurando internalizar processos mais amplos de criação de valor. Não estou tão otimista como isso, pois a interdependência que hoje existe entre os países em matéria de produtos intermédios é tudo menos linear. Essas oportunidades de reorganização da posição na divisão internacional do trabalho são sempre limitadas e seletivas, porque se em alguns casos será possível aumentar a produção de bens intermédios nacionais para o conseguir não poderemos dispensar outros bens intermédios. Essa reconstrução de vantagens competitivas e de criação de novos espaços de progressão na cadeia de valor são lentos, implicam muita persistência e sobretudo certeza de horizontes que a “certeza radical” invocada pelo meu colega de blogue não garante, antes perturba.

E no meio de toda esta perturbação uma outra pode estar a gerar-se. Os bancos centrais podem não estar a entender as razões de algumas tensões inflacionárias que estão a formar-se a partir da rotura do circuito de bens intermédios e os falcões ou candidatos a sê-lo podem estar de garras afiadas para impor metas de gestão macroeconómica e monetária mais restritivas.

MIKIS THEODORAKIS

(cartoon de Agustin Sciammarella, http://elpais.com) 

Aqui se assinala respeitosamente a morte, aos 96 anos, do grande compositor grego Mikis Theodorakis (MT). Senhor de uma obra extremamentediversa em termos de géneros — sinfonias e música de câmara, óperas e tragédias gregas antigas, bandas sonoras cinematográficas (com manifesta saliência para o inesquecível “Zorba, o Grego” de 1964, interpretado por Anthony Quinn) e adaptações de poemas de autores reputados, música popular e hinos e similares (como o da Organização para a Libertação da Palestina ou a orquestração da cerimónia de abertura das Olimpíadas de Barcelona de 1992) —, MT foi também um notório e corajoso resistente e oposicionista às musculações do pós-guerra (ocupação italiana e alemã, guerra civil e ditadura militar) — invariavelmente alvo de repressões brutais (incluindo exílio em campo de “reeducação” e torturas, com efeitos sobre a sua saúde que perduraram para o resto da vida) e invariavelmente confrontado com dificuldades e proibições no sentido de lhe tolherem os movimentos e a ação. Não espanta, por isso, que algumas das suas obras se tenham transformado em componentes essenciais de manifestações de protesto, primeiro, e de comemoração do regresso da democracia, depois.

 

As intervenções cívicas de MT, que também viveu e estudou em Paris após ter formado a Escola de Música de Atenas (1950), foram permanentes e multifacetadas. Chegou a ser membro do parlamento pelo Partido Comunista Grego durante a maior parte da década de 1980 mas também serviu o governo conservador. Defendeu a causa palestiniana e opôs-se à guerra do Iraque, mas também questionou a solução encontrada para a disputa de nomes entre a Grécia e a Macedónia do Norte. Foi, como disse, o sensato primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis, um “grego global” e “a melhor maneira de o homenagear é viver de acordo com essa mensagem [valorização da unidade do povo e da superação de divisões]”.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

ACÁCIO CATARINO


(Foi um post singelo mas sentido de Paulo Pedroso que me alertou para a morte de Acácio Catarino, alguém profundamente ligado à causa das políticas sociais e que deixou marcas indeléveis na afirmação dos instrumentos de política pública social e na animação e liderança de instituições incontornáveis como a Cáritas. É também uma oportunidade de reconhecer o papel decisivo que homens e mulheres ligados e dedicados aos movimentos católicos exerceram no avanço do nosso ainda incompleto Estado Social)

Tive poucos momentos de convívio direto com o pensamento e visão de Acácio Catarino, que se limitaram a algumas reuniões de trabalho no âmbito de estudos de avaliação de políticas públicas e alguns poucos encontros em mesas de sessões públicas centradas sobre temas sociais. Mas através desses contactos e do conhecimento de tomadas de posição ou artigos sobre políticas públicas sociais cedo compreendi a presença de um pensamento fortemente estruturado e uma forte sensibilidade aos problemas sociais e ao seu enraizamento na sociedade portuguesa.

Os que passaram ou entraram na compreensão dos problemas sociais e na formação dos Estados Sociais, por mais inacabados ou truncados que se apresentem, habituaram-se a reconhecer a importância dos movimentos e da militância social em todos os domínios para explicar os avanços dessas configurações possíveis do Estado Social. Porém, sem colocar em causa a influência e força da conflitualidade social para explicar esses avanços, há que reconhecer que a presença coerente e persistente de pessoas como o Acácio Catarino, seja na reflexão e ativismo de base, seja no conselho a decisores de política pública (como Paulo Pedroso o reconhece a propósito da constituição do Rendimento Mínimo Garantido), seja ainda na liderança de instituições com o alcance e projeção da Cáritas, desempenha um papel crucial nos rumos trajetórias por vezes não lineares como o nosso incompleto Estado Social se foi formando.

E à vontade para reconhecer, pois não integro esse universo, que a consciência social católica de pessoas como o Acácio Catarino acabou por desempenhar um papel ativo nos avanços desse modelo de política social. Essa consciência permitiu consensos entre gente de formações políticas muito diversas e representou um elo de convergência em muitas encruzilhadas da evolução do Estado Social em Portugal. O apagamento dessa consciência e prática nas formações da direita portuguesa tem efeitos devastadores, reduz a convergência e cria barricadas onde, para alguns assuntos nevrálgicos, deveriam existir pontes.

Com a sua morte é mais uma página da construção do Estado Social português e do nosso sistema de políticas sociais que fica reduzida à memória dos documentos. E um aliado que se perde na defesa intransigente dos padrões de decência na vida de todos e da justiça social como valor e cimento da coesão.

SONHO LINDO E CLAREIRAS ABRINDO

(cartoon de https://www.cmjornal.pt) 

Enquanto o primeiro-ministro prossegue a sua meticulosa campanha de marketing político — ainda hoje declarou nos Açores que um terço das verbas do PRR já está contratualizado (e isso é bom?) —, visando as Autárquicas e uma subsequentemente desejada retoma de iniciativa no quadro das negociações orçamentais, há dias atrás o “Jornal de Negócios” divulgou uma sondagem em que uma larga maioria de portugueses se declarava desconfiada quanto à eficácia dessa mesma bazuca europeia. São feitios!

 

Entretanto, os “ajudantes” começam a desdobrar-se em provas de vida que os possam reabilitar ou, pelo menos, não prejudicar no que poderá estar para vir (nunca se sabe!). A este nível, a grande exceção está nos que estão a coberto do que quer que seja, como Eduardo Cabrita (um “excelente ministro” e a ser alvo de um “ataque desprezível”) e Marta Temido (que se tornou uma estrela em ascensão no Congresso do PS e até já serve de arma de arremesso contra o mal-amado ministro das Infraestruturas — como disse Marques Mendes, “fica a sensação de que, para António Costa, o futuro líder do PS pode ser qualquer um, desde que não seja Pedro Nuno Santos”), além dos quatro óbvios (que também são de Estado) Pedro Siza Vieira, Augusto Santos Silva, Mariana Vieira da Silva e João Leão.

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt) 

Mas também poderão estar razoavelmente protegidos aqueles que não existem e que, por isso, nunca sairão da sombra de uma mediocridade aflitiva  estarão enquanto forem úteis para fazer número em movimentações secundárias (ou terciárias ou quaternárias...) que vão servindo para “entreter o pagode” (dispenso-me de os enumerar pessoalmente apenas por razões de estrita compaixão). Dos restantes, que são aliás poucos depois de descontados todos os anteriores, três foram chamados à colação nos últimos dias, uma empurrada por se estar a revelar incapaz de cumprir algumas das suas missões governamentalmente estratégicas (com o processo de “descentralização” na primeira linha), outro pela opção própria de se ter decidido a explicitar alguns dos conteúdos mais popularuchos que pretende desenvolver no quadro da sua área de responsabilidades (mesmo que por via de uma cedência a perversas confusões entre Política de Ciência e Ensino Superior e Política de Desenvolvimento Regional) e outro ainda pela sua irreprimível atração pelas luzes que houver em condições de lhe permitirem a exibição do seu tão auto-apreciado verbo marialva e fácil. E assim vamos, à espera de qualquer coisa... ou até mesmo de nada; duvido mas talvez isso não importe por aí além.




(cartoon de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O PROBLEMA DO DESMAME NA SELEÇÃO

 

(Ver jogar a seleção de Fernando Santos como hoje jogou na primeira parte causa tanta azia como aquela que ressalta do ar amargurado e infeliz do selecionador, que ele transporta como Cristo aguentava a sua cruz. É cada vez mais evidente o sério problema de desmame da influência de Ronaldo no funcionamento do coletivo. Trata-se de um círculo vicioso que dá dó reconhecer. Quanto mais o resultado do jogo fica dependente da inspiração do craque mais sério fica o grande lio que será preparar uma seleção para jogar sem o dito. Como hoje ficou mais uma vez demonstrado…)

Se quisermos ser rigorosos sem entrar no prazer sádico de dizer mal das nossas coisas, temos de convir que, há já um rol imenso de jogos, a seleção não joga o suficiente para justificar a compra de um bilhete, num ritmo exasperante e segundo um modelo de demonstração em que os jogadores parecem esquecer o que fazem nos seus clubes. Eu sei que nos tempos de alucinação do futebol de hoje, a preparação dos jogos de uma seleção deve fazer-se mais por vídeo e IPad do que em treinos capazes de preparar mecanismos de funcionamento coletivo. Mas o que ressalta cá para fora é a imagem de um coletivo que se arrasta, sem pinga de entusiasmo e há que reconhecer que se os jogadores olharem para a linha lateral e para as imediações do banco o ar amargurado do Fernando Santos não deve motivar ninguém. E o ar meio alucinado, meio despenteado, do selecionador adjunto Ilídio Vale também não deve acrescentar nada de relevante à motivação. Não imagino que raio de discurso de motivação de jogadores o nosso selecionador será capaz de fazer, mas seja pela crença de que Santos tem alguma proteção divina, seja pela fezada de que o Ronaldo lá encontrará solução para o problema, a seleção tem sido nos últimos tempos um coletivo passivo e expectante esperando que um golpe de mágica ou de ajuda divina resolva o problema.

O jogo de hoje no Estádio do Algarve com a República da Irlanda foi exemplar do ponto de vista da demonstração do síndrome do desmame de Ronaldo que a seleção deveria (e não está) a preparar. Tudo começa numa grande penalidade mais do que discutível e que para cuja marcação se assistiu à evidência de que o recorde de Ronaldo se sobrepôs à necessidade de desbloquear um jogo que tudo indicava seria difícil. Os nervos do craque não são assim tão de aço como se diz e um jovem guarda-redes de 19 anos, que joga no modesto Portmouth, foi suficiente para se opor ao desejo de marcar a história do futebol. Tudo se complicou a partir daí, sobretudo porque faltou clarividência e organização e nem o regresso dos balneários parecia resolver o problema.

Santos fez algumas mudanças. A entrada de André Silva é sempre ensaiada mas percebe-se que esse modelo de jogo com o jovem do Leipzig e Ronaldo no centro do ataque não está devidamente treinado e foi preciso acionar a entrada de Nuno Mendes (uma prestação desastrada), João Mário e do patinho feio Gonçalo Guedes (que curiosamente entra sempre bem na seleção, vá lá saber-se porquê) para urdir a oportunidade de dois saltos do outro mundo, recorde quebrado e dois golpes de cabeça mortais para o jovem guardião irlandês.

E lá se cumpriu uma vez mais a saga dos últimos tempos. Ronaldo resolveu, com assistência dos entrados Gonçalo Guedes (numa ida brilhante à linha como um extremo dos velhos tempos) e João Mário e com essa proeza que resolveu o negócio e sossegou as almas adensou-se o problema do desmame, começar a jogar a pensar que o craque um dia deixará de jogar.

E já agora não é só de desmame de seleção que temos de tratar, é também de desmame de heróis populares, sem ou com marquise.

INCERTEZA RADICAL

(Felipe Hernández, “Caín”, http://www.larazon.es) 

Quem como eu tiver lido com algum detalhe a magistral obra de John Kay e Mervyn King (“Radical Uncertainty”), a que aqui necessariamente voltarei, saberá certamente a que me estou a referir. Ou seja, não se trata de uma qualquer preocupação com quem vencerá as nossas Autárquicas, com as negociações à esquerda do Orçamento ou com o futuro mais ou menos risonho de António Costa. Nem com o que ocorrerá na iminente Alemanha pós-Merkel, em termos de afluxo de refugiados à Europa ou quanto às formas mais ou menos imaginativas com que a União Europeia evidenciará a sua pequenez estratégica. Nem, ainda, sobre o rearranjo geo-militar americano em curso e as suas razões de fundo, a complexa mas firme ascensão chinesa à escala global ou os caminhos pós-pandémicos que emergirão. Afinal, “só” me estou a referir a questões de um foro bem mais filosófico em que simultaneamente prevalecem a nossa racionalidade, o nosso desconhecimento fundamental, a nossa experiência individual e coletiva, a dialética distintiva de risco e incerteza e um futuro sempre à espera. E não, não é complicado, trata-se apenas de uma decorrência da essencialidade de conseguirmos fugir à espuma dos dias em proveito de aquisições substantivas acerca do que verdadeiramente importa, daquilo que deve ficar de entre tanto que passa.