quinta-feira, 30 de julho de 2015

OS COMISSIONISTAS DA FÚRIA PRIVATIZADORA


Escritórios de advogados, assessores financeiros e consultores de comunicação são entidades que têm de estar necessariamente reconhecidas à Troika e a quem quis ir para além dela nestes anos de assistência/intervenção e privatização/confisco. O esquema do “Expresso”, que acima reproduzo com a devida vénia, mostra aqueles que foram os maiores beneficiários da pouca vergonha de anéis vendidos a preços de saldo que por cá se instalou compulsivamente...

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O PROGRAMA ELEITORAL DA MAIORIA



(Poderemos nós confiar em programas eleitorais?…)

Ao cair de julho, como convém e como o Professor Marcelo do alto da sua charla dominical recomendaria, a maioria no poder lá se decidiu apresentar o seu programa eleitoral, um texto de 148 páginas em que se combinam as coisas mais e as menos importantes, num registo em que é praticamente impossível distinguir o essencial do menos importante. Para além disso, a maioria junta agora em forma de texto programático um conjunto muito amplo de prioridades de intervenção, que por serem tantas torna complexa a sua avaliação como efetivamente prioritários e dispondo dos recursos financeiros adequados. A base macroeconómica é compreensivelmente a do Programa de Estabilidade e Crescimento, pelo que um eleitor comprometido com a avaliação comparativa das propostas da maioria e do PS terá todo o mês de setembro para se entreter, contrapondo PEC (maioria) e Cenários macroeconómicos do PS e o documento hoje apresentado versus Agenda para a Década + Programa eleitoral do PS. Ufa! Depois de tanta leitura correrá o sério risco de se confundir.

A maioria rapidamente preparou a papinha aos jornalistas fazendo passar a mensagem de que as grandes apostas são o crescimento económico e o desenvolvimento social. Surpresa? Nem por isso, simplesmente uma colagem politicamente “correta” às principais marcas da alternativa de governação PS. Mas a leitura do documento transporta-nos para um programa onde estão lá todos os chavões possíveis de um programa que visa antes de mais fazer esquecer a mancha da penosidade e de utilização do memorando para conseguir as transformações que dificilmente noutro contexto teriam passado. É uma amálgama de temas em que emergem o desafio demográfico; a valorização das pessoas e das qualificações em que por exemplo de fala de educação de adultos como se a maioria não a tivesse destruído com a sua sanha de vendetta governativa; as questões da competitividade ressuscitando a reindustrialização de Álvaro Santos Pereira, promovendo a economia verde tão cara a Jorge Moreira da Silva e apostando no fetiche dos rankings mundiais; a questão da modernização administrativa depois de nada fazer nesta matéria apagando o impulso do SIMPLEX; a sustentabilidade ambiental com tudo que é jargão nas políticas comunitárias e um cheirinho de territórios de baixa densidade; as questões da defesa ignorando o estado de quase rotura em que o governo se colocou perante as Forças Armadas; e a eterna ladainha da afirmação de Portugal no mundo, quando na UE tudo temos feito para perder voz ativa.

E assim se constrói um programa que provavelmente será lido por poucos, apenas elaborado para contrapor à caterva de documentos do PS, em que praticamente tudo é mencionado, sem qualquer hierarquia de importância e através da qual o cidadão comum fica sem qualquer perspetiva de confiança quanto à sua efetiva exequibilidade.

Cada vez mais me convenço que os programas eleitorais assim entendidos são um puro desperdício de tempo e um aglomerado de intenções através das quais um desamparado cidadão médio será incapaz de comparar o que quer que seja. E a orquestra da maioria está a ensaiar uma peça que não é a do programa, mas antes a da sibilina trilogia: em 2011 a bancarrota estava aí, fomos desagradáveis com a penosidade da austeridade mas voltámos ao mercado e a economia está a recuperar, pelo que perante esta síntese valerá a pena arriscar uma alternativa com que os foram afastados do poder em 2011? E é sobre esta sibilina trilogia + síntese de alerta eleitoral que o PS deve preocupar-se, contrapondo tudo o que seja necessário para colocar a nu a sua inconsistência. No Quadratura do Círculo da passada quinta-feira, Porfírio Silva, pelos vistos o ideólogo-mor da caminhada de António Costa, o que vai dar as ideias para Ascenso Simões transformar em campanha eleitoral, ocupou o espaço de Jorge Coelho e compreendi muita coisa e comecei a ficar preocupado. Apertado por José Pacheco Pereira que continua impiedoso para os salamaleques do PS, o pensamento de Porfírio projeta um PS a medir ao milímetro as propostas de mudança para não incomodar o conservadorismo e prevenir a rejeição do aventureirismo a que segundo os estudos de opinião os eleitores serão sensíveis. Começa a entender-se a cuidadosa trajetória de Costa e perante tal projeção até Belém Roseira pode ter a revelação de que estará no coração desse incrementalismo. Com tanto calculismo político, não estou a ver como é que a sibilina trilogia da maioria será desconstruída. Por isso, há relatórios do FMI que a combatem mais do que o calculismo do PS (ver post anterior do meu colega de blogue). Oxalá que os deuses dos indecisos estejam acordados e não sejam tão calculistas como Porfírio e suas hostes. Por que se o forem a minha caminhada para os 70 vai ser provavelmente de indignação.

ESTE PORTUGAL DE SUCESSO


Mas, afinal, o ajustamento foi um grande sucesso deste nosso incomparável Portugal que Passos e Portas tão capazmente têm querido montar na cabeça dos portugueses ou foi uma outra coisa bem mais duvidosa, embora por culpa de um FMI que eles receberam como salvador e agora remetem para mau da fita? Ou pior do que isso tudo? Entendam-se!

O ENIGMA CHINÊS

(Heng Master, http://www.nytimes.com) 


Têm sido frequentes as referências neste espaço à China e às retumbantes manifestações associadas à sua afirmação económica internacional. Mas também já aqui nos referimos aos riscos e ameaças globais que tal afirmação colateralmente vai fazendo emergir. Pois temos vindo a assistir, ao longo deste mês, a uma clara confirmação desse facto. O gráfico acima, que faz a primeira página do “USA Today” acompanhado da expressiva indicação de um mercado chinês em scary path, revela esses sinais assustadores ao sublinhar a similaridade entre a forte queda dos índices bolsistas em Shangai – a maior dos últimos oito anos – e o colapso que se seguiu à bolha tecnológica do Nasdaq americano em 2000. Um assunto a justificar a continuação de um seguimento próximo...

terça-feira, 28 de julho de 2015

ORGULHO E RECONHECIMENTO




(Louvor a uma maneira nobre de estar na política…)

Uma curta intervenção cirúrgica, daquelas que se fazem para controlar possíveis danos futuros, impediu-me de voluntariamente e com enorme prazer de estar ontem em Lisboa para assistir à cerimónia de homenagem que a Fundação Calouste Gulbenkian realizou ontem para assinalar o prestígio internacional da atribuição do prémio Fundação Mandela a Jorge Sampaio em companhia da oftalmologista namibiana Helena Ndume.

Face à irrepreensível modéstia de Jorge Sampaio, se não fora a decisão de Artur Santos Silva de promover a referida cerimónia, o significado do prémio que lhe foi atribuído teria passado praticamente despercebido na torrente de imbecilidades e minudências que nos atormentam a atenção nos tempos que correm. Até o Professor Marcelo se limitou a uma daquelas curtas referências que se sente obrigado a realizar ao mesmo tempo de referências bem menos pesadas de sentido.

A geração de Jorge Sampaio e sobretudo a sua experiência pessoal é para a minha desencontrada geração uma espécie de farol no tempo, mostrando-nos no passado e no presente que é possível fazer política de maneira diferente da que faz a voragem dos tempos de antena e da que se inspira do mais serôdio exibicionismo. Nesta já minha longa vida de contacto com personalidades do mundo da política por via da reflexão e do conhecimento, apercebi-me que há pelo menos três modelos de estar na vida política, deixando de fora os que nela estão por puro cálculo económico: os que praticam o exibicionismo mais despudorado que encontram na política o único espaço de evidência e de presença pública e que o presente nos traz em catadupas crescentes de mobilidade ascendente; os que estão na política pelo puro gozo da adrenalina da luta política, do jogo de cintura, do contacto com as populações, do ritual coletivo dos comícios e do controlo das massas; e os que nela estão pela reflexão, pela transmissão do conhecimento, pelas grandes causas, pela defesa dos valores em que se acredita, pela dignificação da intervenção pública e cívica. Como bem se percebe, ao longo desta escala a qualidade do pensamento vai aumentando do primeiro tipo para o terceiro e é na comparação das competências entre o segundo e o terceiro tipos que se encontra o confronto mais sugestivo. O segundo e o terceiro tipos são ambos necessários na política corrente e não temos todos de ter as mesmas características.

Jorge Sampaio é um dos melhores exemplos do terceiro modelo, mostrando que é possível, ao mesmo tempo e sem contradição, gostar da cultura e de todas as suas manifestações (como eu o via prazenteiro nas primeiras edições, as originais, da Festa da Música no CCB) e intervir ao mais alto nível na política corrente e internacional. Daí ele ser um farol para a minha eterna inadaptação aos meandros da política, como tive algumas raras oportunidades de com ele conviver em ambiente informal e longe do olhar público, como foi ainda há pouco tempo no almoço informal no restaurante do Palácio de Cristal no rescaldo de uma sessão das Comemorações do Centenário da República, com o José Madureira Pinto como interlocutor e referência comum.

O reconhecimento que a Fundação Mandela consagrou à obra diplomática de Jorge Sampaio deveria orgulhar-nos como povo. Pelo menos da minha parte e creio que uma grande parte da minha geração há esse orgulho e reconhecimento de como a reflexão e o conhecimento são essenciais à generosidade política e a uma forma espantosa de envelhecer sem perder a contenção e a firmeza das convicções.

Meu caro Presidente (intemporal), Bem-haja pela demonstração dessa maneira de estar na política, que tanto nos retribui e que nos faz sentir como gente normal e não como minorias em desaparecimento.