Ontem e hoje, dois cidadãos tardiamente seduzidos pela intervenção política vieram evidenciar a sua inadaptação ao fato apertado que quiseram vestir. Por um lado, António Costa Silva parece pretender agora entreter o pagode a falar sobre tanto do que em silêncio viu suceder quando era um servil ministro de António Costa – e lá afirma que, afinal, “um pequeno défice não é um problema”, quando bom teria sido se o tivesse feito saber ao seu ex-colega Medina, ou louvar sem critério a maravilha da obra que nos legou nas áreas da Economia e do Mar; chegando até ao ponto de aconselhar a UE quanto à perigosidade de uma retaliação das tarifas de Trump mas à justeza de o fazer nas tecnológicas ou quanto à imperiosidade de nos ligarmos à China e à necessidade de evitarmos que Ursula se assuma como ministra da Guerra da UE. Um verdadeiro poeta do aconselhamento político e da geoestratégia!
Por outro lado, o médico urologista Miguel Guimarães (MG) que, após um bem-sucedido desempenho na sua carreira profissional, resolveu ocupar o lugar de bastonário da Ordem dos Médicos e assim ganhou um tão especial gosto pelo protagonismo público que se deixou convencer que uma aproximação ao PSD e alguns fretes correlativos, inclusivamente como irrelevante deputado à Assembleia da República, lhe dariam acesso por direito próprio à sua “cadeira de sonho” na Praça do Município do Porto. Afinal, a sua falta de jeito e alguma dose significativa de presunção e água banda não ajudaram à concretização de um objetivo para que havia outro (Pedro Duarte) com mais razões partidárias para aspirar à função e MG lá vai ter de contentar com a sobra que ainda puder aparecer se se portar bem e o PSD vencer as eleições de maio. Igualmente, uma estranha forma de ser e estar!
Intriga-me que esta gente com carreira reconhecida se permita ceder ao brilho das luzes e à inerente vaidade, recusando nesse quadro afirmar a única coisa que neles seria distintiva, o pensamento e as opções que poderiam exprimir em nome do conhecimento e da independência que adquiriram ao longo de décadas de uma atividade específica e largamente exterior à política ativa e partidária. O mesmo se diga, aliás, do(a)s cientistas que largaram os seus laboratórios para se tornarem deputados ou governantes destituídos de quaisquer qualidades suscetíveis de os levar a contributos minimamente pertinentes ou valorosos ou do(a)s empresário(a)s que tiveram o enorme mérito de lograrem criar riqueza (às vezes em dose assinalável) mas que depois se arrogam, à luz desses currículos, em grandes e proclamatórios arautos de receituários milagreiros, quase sempre muito liberalizantes, a impor ao País com vista a colocá-lo em poucos anos, como só o recurso à experiência deles permitirá, num rumo de mudança e felicidade para todos. Santa paciência para tanta presunção!


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