sexta-feira, 4 de abril de 2025

POIARES MADURO É DE OUTRA CEPA

 


(Antes de concluir a recolha de evidência para me pronunciar sobre a mais abjeta manifestação do narcisismo descontrolado de Trump, o “tarifão”, como dizem os brasileiros, de ontem e ainda para compensar a minha ausência do dia de ontem, tinha registado a minha excelente impressão da excelente entrevista de Miguel Poiares Maduro ao Público de ontem. Tenho para mim que a passagem de MPM pelo governo de Passos Coelho assumindo a pasta dos Fundos Europeus e do desenvolvimento regional ficou algo aquém do que eu esperava, dada a consistência do seu percurso político e académico. Mas, a partir dessa experiência governativa, o pensamento de MPM é de grande consistência e terá sido dos primeiros entre os académicos a vir a terreiro do debate público para alertar sobre os riscos que a democracia enfrentava à medida que a Internacional populista em formação se consolidava em diferentes países da União Europeia e não só. Com a responsabilidade de animar os debates suscitados no âmbito da candidatura de Marques Mendes à Presidência da República, a única palavra que me ocorre é desperdício, que grande desperdício, a entrevista ao Público revela uma grande lucidez e vem demonstrar uma vez por todas que o PSD não está ainda totalmente capturado, debilitado isso sim está, pelo estilo de política que a embrulhada em que Luís Montenegro se envolveu representa a preceito.)

Destaco duas questões da referida entrevista.

Primeiro, como seria de estimar dada a sua craveira intelectual, MPM recusa-se a alinhar com toda a chinfrineira governamental de branquear o conflito de interesses e os problemas de ética política que Montenegro trouxe para a situação política nacional. Uma coisa é reconhecer que a maioria da população portuguesa considera inadequadas as eleições do próximo maio, prezando de certo modo a estabilidade política, outra coisa bem diferente é patrocinar a leviandade e ligeireza do primeiro-Ministro. MPM coloca-se obviamente do lado dos que o problema não existiria se Montenegro tivesse dissolvido imediatamente a empresa com a chegada a primeiro-Ministro, porque essa era a única forma de cortar com o estilo videirinho do seu enquadramento profissional. Querer validar nas urnas a sua ligeireza e leviandade, e não me custa a acreditar que PSD-CDS e Iniciativa Liberal poderão configurar um resultado eleitoral que lhes permita a governação, faz parte e tem ramificações com a tal Internacional populista a que anteriormente me referia. Para mais, mesmo que se verifique essa possibilidade, tudo dependerá da arte do PS em vencer as resistências do eleitorado à liderança de Pedro Nuno Santos, a ligeireza e leviandade de Montenegro não serão apagadas do mapa e constituirão sempre uma ameaça à consistência governativa.

Segundo, MPM alerta para a eventual incidência no espectro partidário nacional do fenómeno populista em ascensão, relacionando essa possibilidade com a candidatura de Gouveia e Melo à presidência da República. Claro que nesta questão joga também a sua ligação à candidatura de Marques Mendes. Mas, ainda assim, aconselharia os mais distraídos a interpretar a adesão de algumas personalidades, incluindo do PSD, como Alberto João Jardim, Ângelo Correia, Isaltino Morais ou António Martins da Cruz como algo premonitório do que a candidatura do Almirante pode gerar em termos de transformação do xadrez partidário. 

O PSD que se cuide e seguramente que a ligeireza e leviandade do videirinho Montenegro não serão o dique robusto e suficiente para conter a referida ameaça de um novo partido de inspiração populista para abafar o Chega.

Até lá, fico com a convicção de que ainda há gente que pense no PSD como MPM, Fernando Negrão e outros, poucos.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

LIBERATION DAY!

(Fiona Katauskas, https://www.theguardian.com)

Vistas daqui destas longínquas paragens, as grotescas e egocêntricas performances de Donald Trump e seus apaniguados parecem autênticos pesadelos ou manifestações de uma ficção da pior qualidade. Mas se o leitor optar por se beliscar, facilmente se aperceberá de que está perante uma dramática realidade que lhe anuncia a desconstrução da ordem globalizante em que viveu desde sempre e a gestação aparentemente atabalhoada de um outro mundo de contornos altamente incertos e duvidosos como nunca conheceu nos seus dias de vida. A última ação espetacular de Trump aconteceu ontem, dia que qualificou como de libertação para os americanos por ser aquele em que iria anunciar (como anunciou) uma fantástica política de tarifas sobre tudo e todos (embora mais sobre alguns do que sobre outros) que se propõe desencarcerá-los dos efeitos do “roubo” de que têm sido alvo nas décadas passadas (não acreditaria, se não o tivesse visto e ouvido, na animosidade e repulsa com que se dirigiu à União Europeu) e assim conduzi-los a um prometido e redentor enriquecimento (make America weathy again). Ou muito me engano ou isto vai dar borrasca da grossa e só nós, aqui tão bem resguardados pela nossa pequenez e pelo brilhante desempenho da nossa economia, escaparemos a um tal abalo sísmico de elevado grau!



 

O facto é que o Trump 2.0 que temos pela frente já quase nada tem a ver com a sua versão amadorística dos quatro anos anteriores (2016/2020) em que se entreteve com agendas económicas relativamente inofensivas, se deparou com aflitiva impreparação com a pandemia e agiu convencido de que iria voltar à Casa Branca para novo mandato. A derrota imprevista e que nunca reconheceu, a cena do assalto ao Capitólio que comandou e os casos judiciais que teve de enfrentar não apenas lhe trocaram as voltas como o radicalizaram e estimularam vários cerrar de fileiras na direita radical – os populistas nacionalistas (tipo Stephen Bannon), os tecnolibertários (tipo Elon Musk) e os republicanos mais fervorosos do Congresso –, acompanhados de esforços desigualmente sérios de preparações programáticas e operacionais de formas mais estruturadas e eficientes de influenciar o chefe máximo e de lhe fornecer conteúdos apelativos para um novo MAGA.

 

Importa sublinhar, todavia, que a racionalidade maior que cercou Trump foi a de um subconjunto de personalidades que se centram na dimensão económica e na situação considerada insustentável da economia americana, designadamente por força dos seus elevadíssimos níveis de dívidas gémeas (pública e externa) e dos efeitos nefastos da sobrevalorização da sua moeda. As crónicas de Gilian Tett no “Financial Times” têm explorada esta vertente de modo bastante consistente, além de também nos ter sido proporcionada a possibilidade de a ouvir em direto num webinar recente. Segundo ela, uma das maiores inspirações reside num economista americano de Columbia que está de há muito sediado na China (Michael Pettis, professor de finanças na “Guanghua School of Management” da Universidade de Pequim e diretor de Estratégia na Shenyin Wanguo Securities” de Hong-Kong) – Pettis é reconhecido pelo seu conhecimento especializado no mercado financeiro chinês mas é igualmente autor de várias obras relevantes sobre a economia global (como é o caso de “Trade Wars are Class Wars”), sendo aqui de chamar à colação as suas posições sobre a necessidade de taxar as entradas de capital nos EUA como uma forma de corrigir o caráter crónico dos défices comerciais em presença e sobre “anomalia insustentável” associada ao papel monopolista do dólar no comércio internacional. Citando Tett: “Pettis vê as entradas de capital não como ‘apenas’ o corolário inevitável e benéfico do défice comercial dos Estados Unidos, mas como uma maldição debilitante. Isso porque tais entradas aumentam o valor do dólar, fomentam a financeirização excessiva e esvaziam a base industrial dos Estados Unidos, diz ele, o que significa que ‘o capital se tornou o rabo que abana o cão do comércio’, gerando défices. Portanto, Pettis quer freios, via taxação. Há seis anos, a senadora democrata Tammy Baldwin e Josh Hawley, seu contraparte republicano, emitiram um projeto de lei do Congresso, o ‘Competitive Dollar for Jobs and Prosperity Act’, que defendia a imposição das entradas de capital e uma política de dólar fraco por parte da “Federal Reserve”. O projeto parecia moribundo. Mas no mês passado, a ‘American Compass’, um think-tank conservador próximo do vice-presidente JD Vance, declarou que uma imposição sobre entradas de capital poderia permitir arrecadar 2 mil milhões de dólares na próxima década. Então a Casa Branca emitiu uma ordem executiva, ‘America First Investment Policy’, que prometia “rever, ou suspendendo ou encerrando” um tratado de 1984 que, entre outras coisas, removia uma taxa anterior de 30% sobre entradas de capital chinês. Tal não fez manchetes, porque Trump estava ‘inundando a zona’ com outras distrações, nomeadamente sobre tarifas. Mas assustou observadores asiáticos e contribuiu provavelmente para as recentes quedas do mercado americano de ações dos EUA, visto que alguns investidores fugiram preventivamente.”




O certo é que, como Tett salienta, as ideias de Pettis parecem ser uma fonte influenciadora de alguns conselheiros próximos de Trump, como o atual secretário do Tesouro Scott Bessent (tendo por backgroundser partner do “Foros Fund Management” e fundador da casa de investimentos “Key Square Group”), Stephen Miran, o atual presidente do ‘Council of Economic Advisers’ (tendo por background ser o estratega chefe na “Hudson Bay Capital Management” e cofundador da gestora de ativos “Amberwave Partners”) – vejam-se estes nas fotos abaixo –, e o próprio Vance. Ao que acrescenta: “Este trio parece estar focado em redefinir o comércio e as finanças globais, através de um putativo Acordo Mar-a-Lago, embora com ambições de maior escala do que o Acordo Plaza de 1985. Este Este último enfraqueceu ‘meramente’ o dólar através de uma intervenção cambial conjunta, mas a visão de Miran de um Acordo Mar-a-Lago inclui também uma possível reestruturação da dívida americana, o que forçaria alguns detentores de títulos do Tesouro a uma troca por títulos perpétuos.” E aqui está o fim último do processo encarado por aqueles ideólogos tecnocratas que Adam Tooze em tempos designou por expoentes de um MAGA para pessoas pensantes.

 

Termino, enfatizando que o alcance do poder destes junto de Trump é duvidoso, particularmente se tivermos em conta a ignorância, a irracionalidade, o narcisismo e o caráter belicoso do dito, assim mais propenso a seguir as mais óbvias e básicas consignes dos radicais de extrema-direita e de gente tão fascinante, e indisfarçavelmente interesseira, quanto os multimilionários dos negócios. E é talvez por isso que os tempos mais próximos nos mostrarão choques e contrachoques no interior destas várias cliques e na capacidade delas para “fazerem a cabeça” do alegado grande timoneiro; com a certeza de que o que os move é uma missão de poder que subverta, com as investidas mais chocantes que conseguirem montar, o status quo liberal e a ordem que lhe subjaz.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

A MINHA DIVA QUER ESCONDER-SE

 


(Pausa nos temas “wonkish” da economia americana e nas perturbações disruptivas deste mundo que nos atormenta e deprime para me concentrar numa das raras aparições mediáticas da minha diva do piano, Martha Argerich. Com uma longevidade que se destaca na história do piano, aos 83 anos ainda com destreza e força de mão e de dedos para atacar peças de tirar o fôlego, a juba frondosa e branca de Argerich emerge do New York Times com toda a força da sua personalidade, não enjeitando fumar um Gauloises, que me faz mergulhar na abundantíssima massa de CD’s que me acompanham em Gaia ou em Seixas. Em matéria de aparições públicas, imagino que terei de viver das memórias de um memorável concerto na Gulbenkian com o seu ex-marido Stephen Kovacevich, pois a oportunidade de a rever seja em Lugano, with friends, seja por essa Europa fora, seja numa esporádica passagem por Portugal, é cada vez mais remota. Falhei a última passagem pela Póvoa de Varzim, tamanha foi a procura que, num ápice, se manifestou. Fiquemos por isso com a preciosidade desta entrevista/reportagem de Javier C. Hernández no NYT e gozemos o prazer da sua música e desempenhos nostálgicos ou vibrantes, contemplativos ou eletrizantes, não importa. Interessa-me sobretudo compreender a filosofia existencial de alguém que aos 83 anos continua a ter os auditórios dependentes da sua arte e inspiração, mas que tem de lidar com a agitação das viagens, tal e qual saltimbanco dos aeroportos e que persiste na sua modéstia e nos seus medos. Na entrevista, Martha Argerich faz eco de um aviso de um maestro argentino que a dirigiu no Teatro Colón em Buenos Aires, Washington Castro, que a alertou – “Acontecem coisas estranhas aos pianistas que tocam o concerto de Schumann”.)

É conhecida a sua decisão nos anos 80 de não mais realizar concertos a solo, sozinha no palco, explicou ela porque esse contexto lhe provocava uma incómoda sensação de solidão – a expressão utilizada é a de como se fosse um inseto sob uma luz intensa. Talvez as memórias da depressão por solidão que viveu em Nova Iorque no início dos anos 60, quando para aí se mudou na esperança então de se encontrar com Horowitz, a referência dos seus primeiros anos. A vitória no concurso Chopin de Varsóvia em 1965 iniciou uma carreira imparável, que se alimenta até hoje de uma presença quase mística no palco, agora tocando a quatro mãos sempre com alguém com quem mantém uma forte relação de amizade e proximidade (percebe-se que a morte de Nélson Freire foi para ela devastadora ou que a doença de Parkinson de Daniel Barenboim deixará também marcas), ora tocando com outros instrumentistas dos quais Mischa Maisky no violoncelo é uma referência de retorno constante, ora ainda em concertos para piano e orquestra.

A sua afirmação ao jornalista do NYT de que por vezes sente vontade de se esconder, não querendo ser pianista, mas uma outra coisa, são digressões episódicas de estados de alma que rapidamente dão lugar a desempenhos ainda mais marcantes, enquanto as mãos e os dedos aguentarem. Para mim é suficiente ler o que pensam as grandes pianistas da nova geração quando se referem a Argerich, como é o caso da prodigiosa chinesa Yuja Wang no último número da revista BBC Music, para compreender que o legado de Martha e a sua presença ainda marcante em palco vão perdurar por muito tempo.

Não sou capaz de antecipar quanto tempo os concertos de Lugano com os seus amigos mais próximos irão perdurar.

O artigo termina com um reencontro: “já não pergunto, apenas toco”.

terça-feira, 1 de abril de 2025

PALHAÇOS RICOS À SOLTA

 
(Idígoras y Pachi, http://www.elmundo.es) 

Aí está o mês de Abril, que fui educado a considerar, sem razões grandemente substantivas, o melhor de todos. Em 2025, ele só irá prolongar o estado de demência tresloucada que já vinha das tropelias de Putin mas foi exponenciado pela inconcebível balbúrdia que quotidianamente nos é trazida por Trump, Musk, Vance e respetivos acólitos e subalternos – uma coisa nunca vista que está a sobressaltar o mundo sem que um fim minimamente respirável esteja à vista.


Claro que a situação não se consubstancia apenas em puro absurdo, já que ela também tem o seu racional (discutível, dotado de bases essencialmente erradas, mas ainda assim um racional argumentativo e reativo ao pretexto de inércias e quase instigações aliadas, como tentarei explicar em post a vir), mas a verdade é que não passa um dia sem que aquelas criaturas nos vão sinalizando com uma espantosa desfaçatez que pior é sempre possível (da Gronelândia ao Canadá, de brincadeiras infantis na Sala Oval à hipótese anticonstitucional de um terceiro mandato, das chantagens sobre a Ucrânia às aproximações a Putin, do projeto de um resort em Gaza ao acriançado e irresponsável amadorismo da divulgação de segredos militares num chat de grupo na rede Signal, das odiosas provocações à União Europeia à inconstante jigajoga das tarifas, das exibições grosseiras de uma riqueza capaz de tudo às saudações nazis, do desmantelamento do Estado às objetivas tentativas de destruição dos checks and balances que eram a marca e a salvaguarda do regime democrático).


Neste quadro, assaz deplorável e profundamente miserável de qualquer ponto de vista que valorize a decência e o construtivismo em que devem assentar as sociedades modernas, abril trazer-nos-á certamente, e tristemente, bem mais razões de preocupação do que as “águas mil” que lhe são inerentes e já parecem estar por aí a despontar.


(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)


POIS, O DÓLAR COMO MOEDA DOMINANTE…

 

                                                                            Financial Times

                                                                            Paul Krugman

 (Os leitores menos aficionados com as questões da ciência económica e da macroeconomia em particular talvez achem exagerada a minha atenção dedicada à economia americana. Mas como economista que não deixo de ser e sobretudo ainda saudoso dos tempos da academia, a economia americana continua a ser um inesgotável alfobre de debates de ideias, ainda para mais suspeitando eu que será por esta dimensão que a administração Trump irá encontrar obstáculos à concretização da sua perigosa agenda. Por isso, continuarei nesta senda, correndo o risco de algumas crónicas serem mais intragáveis para o leitor não especializado, mais “wonkish” como dizem os anglo-saxónicos, mas aquilo que vai acontecer por aquelas bandas transcende em muito o território americano. Resta dizer, por outro lado, que o debate económico nacional e até europeu continua frágil e sensaborão, concluindo pela minha parte que a academia nacional e europeia está mais domesticada, em proveito do sossego próprio, do que a americana e por isso a administração Trump começa a perseguir com perfídia os universitários americanos mais insubmissos e exuberantes nos seus comentários críticos. Assim, em continuação de post anterior, as contradições em que a administração Trump está a envolver-se defendendo simultaneamente a continuidade da hegemonia do dólar como moeda de referência e a necessidade da sua depreciação é dos tais debates a que não podemos ficar indiferentes. Até porque, graças ao Financial Times, temos agora um valioso ensaio de um dos grandes conhecedores das questões monetárias internacionais, Barry Eichengreen, professor em Berkeley, a escrever doutamente sobre o assunto. Devemos a Eichengreen obras valiosas para compreender a evolução da economia mundial desde a Grande Depressão de 1929-1930. Aprecio principalmente Hall of Mirrors: The Great Depression, The Great Recession, and the Uses-and Misuses-of History (2015), Oxford University Press, How Global Currencies Work – past, present and future (2017), Princeton University Press e The Populist Temptation: Economic Grievance and Political Reaction in the Modern Era (2018), Oxford University Press).

Regressemos ao tema. A dominância do dólar como moeda de referência internacional é indissociável da hegemonia económica e política dos EUA na economia mundial. Mas essa indissociabilidade não pode ser confundida com o peso da economia americana no comércio mundial, esse tem diminuído sistematicamente, com o peso americano nas exportações mundiais a quedar-se hoje pelos 11%. À paridade dos poderes de compra, o PIB americano está hoje nos 15% da economia global. Porém, Wall Street mantém o estatuto de mercado de capitais mais importante do mundo e o dólar continua a ser dominante em matéria de pagamentos e de reservas internacionais.

A incomodidade da administração Trump e dos seus principais ideólogos (se é que eles existem e têm influência no comportamento errático de Trump e apaniguados de primeira linha) é, em linha com outras manifestações da sua agenda, manifestamente contraditória. A contradição está no facto de pretender manter esse estatuto de moeda hegemónica e de referência e, simultaneamente, insurgir-se contra o défice externo das transações correntes da economia americana. O discurso vitimizado de que os EUA têm sido esmifrados no seu relacionamento internacional é do mais básico que tenho visto na cena internacional e assenta numa falácia – querer transformar uma mera relação contabilística, logo uma tautologia, numa relação causal.

A questão é relativamente simples de explicar. O estatuto de moeda de referência faz com que além da vontade de realizar as trocas internacionais (exportações e importações) em dólares, os investidores internacionais acorram ao mercado de capitais americano e aí realizem investimentos em títulos denominados também em dólares. O pressuposto da administração Trump é o de admitir que o défice comercial externo americano tem uma relação determinista e direta com a entrada de capital no país à procura da moeda refúgio. Assim sendo, a tal visão mercantilista de que eu falava no meu último post sobre a matéria, considera que se convencerem os parceiros internacionais a depreciar o dólar isso vai conduzir a uma menor procura de investimento em títulos denominados em dólares e assim induzir uma redução do défice comercial externo.

Nas palavras de Paul Krugman, a questão torna-se bem mais clara: “Os EUA enfrentam grandes défices externos correntes não porque importem muito, mas pelo contrário importam muito porque têm de exportar títulos do tesouro americanos para proporcionar ativos de reserva e facilitar o crescimento global”. Aliás, as evidências históricas disponíveis mostram que o dólar é moeda dominante desde 1940 e durante esse período, pelo menos até 1970, os EUAS não deixaram de apresentaram excedentes correntes externos.

O determinismo da relação entre o comportamento da balança de transações correntes e das entradas de capital na economia americana não resiste de facto a uma análise mais profunda. Tal como Krugman o assinala com pertinência, nem toda a compra por estrangeiros de títulos americanos corresponde aos títulos de curto prazo utilizados como ativos de reserva. Uma grande parte dessas compras materializa-se em títulos de longo prazo. Além de que há capital a entrar nos EUA que não implica a compra de títulos, antes se materializa em tomadas de posição em empresas americanas. E não podemos esquecer ainda que muitos particulares e empresas americanos investem no estrangeiro, dando por conseguinte origem a saídas de capital.

A ideia de obrigar os governos estrangeiros a não comprar títulos americanos é peregrina, pois não há qualquer certeza de que tal operação conduza necessariamente a uma descida do défice corrente americano. Como a balança de pagamentos é uma relação contabilística, ela pode ajustar-se quer aumentando outras formas de entrada de capital, quer reduzindo as saídas de capital de particulares e de empresas e não afetar as exportações e importações de bens e serviços.

Quer isto significar, pura e simplesmente, que face à agenda de Trump, a reabilitação da indústria transformadora americana está apenas dependente da ofensiva dos direitos aduaneiros de proteção à indústria nacional. Mas nesta matéria, respeitando o que a teoria económica tem para nos dizer, a influência dos direitos aduaneiros nessa reabilitação é tudo menos um deux ex machina ou uma inevitabilidade. Os direitos aduaneiros podem ter um papel temporário numa política industrial mais proativa. Mas o que temos é que a administração Trump deitou pela borda fora a política industrial da Bideneconomics (Chips Act and Inflation Reduction Act).

Resumindo, se o convencimento dos governos estrangeiros (normalmente a pressão de bullying internacional não conduz a esse convencimento, antes convida à retaliação) a comprar menos títulos americanos não é solução para a reabilitação industrial americana e se os direitos aduaneiros não são por si só solução para essa reabilitação, então o primarismo das ideias de Trump irá dar proximamente com os burros na água. Por isso, tenho para mim que serão as contradições da economia a colocar limites à disrupção que Trump pretende provocar.


Nota final

Ontem, ao fim da tarde, decidimos abandonar o conforto da casa para ir assistir à Católica no Porto à apresentação do novo livro do Amigo Almiro de Oliveira, Ensaios Prometeicos no domínio da gestão – Edições Sílabo. O Almiro de Oliveira merece essa atenção pois é alguém que pensa a gestão numa perspetiva que me atrai e entusiasma, sendo uma Voz alternativa aos que glorificam a tecnologia e as tecnologias de informação e comunicação e que desprezam a teoria económica. E quem diz tecnologias de informação e comunicação diz também inteligência artificial. É espantoso como alguns ensaios que deram origem a esta obra abordaram estas questões de modo pioneiro nos anos 90 e na década de 2000 e a perspetiva crítica mantém atualidade. Agora menos do que no passado, algumas conversas no Alfa e na Pá Velha de Espinho anunciaram-me como aquele pensamento insubmisso era inovador. Publicado que está, fica disponível para quem pretenda ter uma visão crítica da inércia que vai pelo mundo da gestão.