quinta-feira, 6 de junho de 2013

QUAL É O PROBLEMA?


O que Carlos Costa (CC) afirmou na Assembleia da República, e tanta celeuma levantou, foi no essencial algo de dificilmente contestável: “O falhar as metas em termos de défices orçamentais é inerente à forma como foram concebidas as metas. O ministro das Finanças só controla metade do objetivo. Controla o objetivo pelo lado das despesas. Porque, pelo lado das receitas e pelo lado do produto, ele está muito dependente do que acontece internacionalmente.”

A coisa parece relativamente óbvia, como ainda mais o é a preocupação com um segundo resgate que seria “demasiado penoso” para Portugal. Então, qual é o problema? A meu ver, o problema é de um outro foro, que o próprio governador aflorou quando referiu: “Escusam de tentar colar-me a qualquer posição político-partidária, porque não o conseguem”. Só que, nessa dimensão, entram explícitos e implícitos de melindroso recorte: por um lado, a fineza intelectual com que CC gosta de manifestar a sua inquestionável independência; por outro lado, a sua inescapável presença mediática, com os inerentes silêncios mantidos e declarações produzidas em conjunturas complexas e nem sempre suscetíveis de serem integralmente conhecidas em termos públicos.

Isto para não entrar em incursões ainda mais subjetivas, como as que passariam por comparar a relação pessoal de CC com Fernando Teixeira dos Santos (seu colega de curso, ministro que o nomeou e responsável que acompanhou nos difíceis tempos que precederam o pedido de assistência financeira) e com Vítor Gaspar (identificação empática com a implacável racionalidade do professor de Economia, ademais oriundo da Universidade Nova de Lisboa e recheado de publicações académicas internacionais, e cumplicidades adicionalmente adquiridas em cruzamentos continuados nos corredores institucionais, designadamente europeus).

Tudo visto e ponderado, o incidente foi atabalhoadamente desfocado pelas intervenções extremadas (entre o pueril e o dogmático) de alguns oposicionistas e acabou por não passar de uma “tempestade num copo de água”. Sobretudo na medida em que, seguramente, ninguém conseguirá colar CC a uma qualquer posição político-partidária nem desviá-lo do cumprimento estrito e eficaz da missão que se definiu. Não obstante, talvez CC deva ponderar melhor a judiciosidade e a oportunidade político-partidária dos seus ditos e não ditos…

WHAT?

ÚLTIMA HORA

(foto de Nelson Garrido, Público)

Como eu o compreendo! O homem já não conseguia sair à rua sem que um qualquer cidadão anónimo o abordasse implorando-lhe uma candidaturazinha em nome da Cidade. Resistiu mais de dez anos, mas ninguém é de ferro perante tantos e tão fortes apelos…

Ambição (ou presunção?) não falta. Nada menos do que “um projeto que quer ir às raízes do Porto, às suas géneses, à sua matriz e quer efetivamente ser um projeto dos portuenses”, para “pôr o Porto no nível que o Porto merece”…

O ato falhado que sempre acompanha estas “generosidades” foi assim denunciado pelo próprio, dizendo-se “muito tranquilo e muito feliz” ao início desta manhã na antena da TSF: “nada foi planeado, nem premeditado, nem é uma obsessão”…

Alguma coisa me diz que esta procissão ainda não saiu do adro…

PRECIOSIDADES (13)



A mensagem enviada por José Pacheco Pereira ao recente encontro promovido por Mário Soares na Aula Magna é uma peça de marcante lucidez política e bem reveladora da sua acutilância e espessura intelectual.

Remetendo para o blogue do autor (
http://abrupto.blogspot.pt) quem queira aceder à versão integral, aqui fica uma ilustrativa passagem:

Durante dois anos, o actual governo usou a oportunidade do memorando para ajustar contas com o passado, como se, desde que acabou o ouro do Brasil, a pátria estivesse à espera dos seus novos salvadores que, em nome do ‘ajustamento’ do défice e da divida, iriam punir os portugueses pelos seus maus hábitos de terem direitos, salários, empregos, pensões e, acima de tudo, de terem melhorado a sua condição de vida nos últimos anos, à custa do seu trabalho e do seu esforço. O ‘ajustamento’ é apenas o empobrecimento, feito na desigualdade, atingindo somente ‘os de baixo’, poupando a elite político-financeira, atirando milhares para o desemprego entendido como um dano colateral não só inevitável como bem vindo para corrigir o mercado de trabalho, ‘flexibilizar’ a mão de obra, baixar os salários. Para um social-democrata poucas coisas mais ofensivas existem do que esta desvalorização da dignidade do trabalho, tratado como uma culpa e um custo não como uma condição, um direito e um valor.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

DOIS ANOS


 
Completam-se hoje dois longuíssimos anos…

O PARO DO PARO


Duas de muitas capas dos jornais espanhóis de hoje – excelente a de “La Gaceta”! –, todas num mesmo sentido esperançoso: uma redução de quase 100 mil no número de desempregados registados, uma aceleração da tendência de inversão que se regista desde fevereiro, o melhor mês de maio desde 1996. Sendo que os nossos vizinhos, que também corrigiram o défice corrente, não estão sob protetorado formal e lá vão batendo o pé ao eixo Bruxelas-Berlim. Mas será mesmo verdade que cada povo tem aquilo que merece ou será apenas verdade que nos tocou a fava?

UM ÁLVARO DIFERENTE


Tem circulado por aí a informação de que o próximo presidente não executivo da Caixa Geral de Depósitos (CGD) será um meu colega de profissão e ex-aluno na FEP, Álvaro José Barrigas do Nascimento (AN). A ser verdade, e tudo leva a crer que sim, trata-se de uma excelente notícia e de uma forte razão de esperança para os destinos do “banco público” e da economia nacional.

AN foi um aluno distintíssimo e obteve um mestrado em Lancaster e um PhD em Finanças pela “London Business School”. Foi assistente na FEP e no IESF, antes de se fixar em definitivo na Universidade Católica e de nesta ter chegado a diretor da Faculdade de Economia e Gestão em 2008. Embora nunca tenha querido que o seu enfoque predominantemente académico deixasse de beneficiar de conexões com a realidade concreta (Grupo BPI, corretora Douro, Unicer).

Mas o mais relevante de tudo é a pessoa, uma feliz combinação de inteligência e entrega, conhecimento e rigor, independência e verticalidade. AN tem tudo, portanto, para levar a cabo um mandato inédito nessa tão politizada e desacreditada CGD. Contanto que não se deixe contaminar por ares menos livres ou, por outras palavras, que o deixem ser quem é…