Os titulares deste blogue têm andado por fora mas circunstancialmente por perto um do outro, ambos por terras do Benelux. Muito curiosas as referências do António Figueiredo às velhas sameiras – não recordo tanto as Amstel mas mais as VMPS, p.e.; e que grandes voltas a Portugal elas me proporcionaram ao longo da areia molhada da praia Emília Barbosa, à Circunvalação! – e à sua variegada passagem por essa magnífica cidade de Amsterdão – cuja menção sempre me reconduz àquele inesquecível refrão dans le port d’Amsterdam, que Brel entoava como ninguém. Já de Bruxelas, só posso testemunhar desta vez o novo cartaz com que tão esperançosamente o Berlaymont recebeu a chegada de Juncker e sua equipa de comissários: nouvel élan, new start? E cá volto eu ao passado e às canções: preferem Quizás, quizás, quizás, com Nat King Cole ou Inch’Allah com Adamo?
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
LE PLAT PAYS
Embora a eterna canção de Brel tenha por inspiração
a região belga da Flandres ocidental onde a família de Brel vivia, partilho com
a maioria dos holandeses a ideia de que a canção também pertence aos Países
Baixos, tamanha é a similaridade que o território da canção encontra nesta
infinita sequência de água e terra. Daí que exista uma versão holandesa "Mijn
vlakke land", também interpretada por Brel. Mas também teríamos a também
eterna Le Port d’Amsterdam para evocar Brel.
Já tinha reparado que os holandeses têm uma relação
obsessiva com a mayonnaise, não como um simples adereço gastronómico, mas como
ingrediente sempre presente na sua alimentação e ainda hoje numa curta libertação
após a conclusão da sessão do URBACT tive oportunidade de presenciar o modo ágil
e desempoeirado como os holandeses manipulam grandes embalagens de mayonnaise e
a vertem com prazer para acompanhar as mais simples batatas fritas, fazendo
disso um petisco. Soube também hoje, embora não o presenciando, que uma
aventura gastronómica radical dos mais acérrimos defensores da tradição do país
consiste em engolir de um só trago pequenos arenques frescos, o que
sinceramente tenho dificuldade em visualizar. Sem quaisquer veleidades de
radicalismo dessa natureza, tive o prazer de no acolhedor restaurante do
Rijksmuseum, profundamente renovado, comer um snack frio que envolvia arenque fresco, alguma mayonnaise, pão bem
preto e alguma salada, acompanhado de um copo de chardonnay chileno para
celebrar a economia global. Sempre é uma aproximação.
O Rijks e o seu vizinho Van Gogh visitam-se com
prazer, sobretudo pelo fascínio que não desaparece com os anos de contemplar
Rembrandt, Vermeer, Hals e o atormentado Van Gogh, passando por exemplares
praticamente únicos no Rijks de Goya, Monet, só para me lembrar dos mais
sonantes.
Quando ao debate think-tank do URBACT trabalhei
que me fartei desde esboçar em público um plano para um artigo sobre economia
verde (em parceria com um colega eslovaco de Kosice especializado em TIC) até
apresentar e discutir a minha comunicação sobre a gestão futura da economia
urbana e as suas implicações em termos de competências. A minha abordagem ao
tema é construída na base do conceito de inimitabilidade que as cidades
procuram, entendida como o produto de combinações de recursos e capacidades
(ingredientes), que constituem a essência da inimitabilidade. Esta questão
suscitou um vivo debate que eu próprio antecipei, pois o URBACT é uma rede que
visa promover a procura de boas práticas como elementos de inspiração. Procurei
mostrar que não há qualquer incompatibilidade entre aprender a partir das
experiências bem-sucedidas e procurar ser diferente e inimitável durante o
maior período de tempo possível. O que o tema nos vem mostrar é que a transferência
de conhecimento implica sempre um respeito mútuo por dois contextos, o de
partida e o de aplicação. Sem esse respeito e devido tratamento das suas
implicações, as boas práticas são uma treta e arrepia-me o modo leviano como a
Comissão Europeia promove autênticas procissões de boas e melhores práticas sem
atender a estes quesitos. O economista do desenvolvimento espacial, Philippe
Aydalot, dizia que era possível importar praticamente todos os ingredientes do
desenvolvimento menos a operação em si. Pois é. Os países melhor sucedidos que
não estão na fronteira do conhecimento estão irremediavelmente condenados à
equação acesso livre à difusão de progresso técnico-inovação. E não há
qualquer menoridade em assumir tal equação.
MAIS SOBRE O CRESCIMENTO EUROPEU
Foram ontem divulgadas as previsões de Outono da Comissão Europeia. Com revisões em baixa para o crescimento, como era inevitável. Escolho duas das ilustrações mais reveladoras sobre a matéria – entre expecting less e pinchazo, mais palavras para quê?
terça-feira, 4 de novembro de 2014
O CRÉDITO ÀS EMPRESAS NA ZONA EURO
Mais um graficozinho fácil de entender para mostrar o que na área do Euro se entende por interação eficaz entre banca e empresas, nomeadamente quando se tem em vista essa sempre tão anunciada retoma – só desde inícios de 2012 o crédito à atividade económica já caiu mais de 10%...
ENTRE A AMSTEL STREET E A TIMOR PLAZA
Dia intenso com a primeira jornada de reflexão do
URBACT sobre perspetivas de promoção do desenvolvimento económico urbano, por coincidência
implicando a deslocação da Amstel Street já ontem revisitada para vejam bem a
TimorPlein (Praça de Timor) onde situa o mix funcional do STUDIO K. Tudo muito
austero, sem grandes extravagâncias a não ser uma obsessão dos holandeses pela
construção de escadas bastante íngremes que devem ser um quebra de cabeças para
a mobilidade dos mais velhos e enferrujados. Almoço também austero num
restaurante trendy de uma zona em
acelerada gentrificação, com transformação de zona operária em função
residencial mais cara e as correspondentes e associadas facilities. Sanduíches simpáticas para um almoço de trabalho com
preços entre 5 e 7 euros, prática que nos deveria inspirar maior frugalidade
nas nossas receções científicas ou profissionais.
Dia temático bem intenso com experiências
debatidas de casos muito diversificados, desde o cluster do surf em San Sebastian (que inclui engenharia hidráulica
e outras engenharias para construção de ondas artificiais), passando pelo HUB
de Dublin em termos de tecnologias de informação (claro com apoio e presença de
praticamente todas as empresas globais do setor, começando pela Google), pela experiência
de Kosice na Eslováquia também nas TIC, pela experiência de planeamento
metropolitano na região do Ruhr na Alemanha e finalmente pela experiência de
cidade verde de Linköpping na Suécia, onde imagine-se uma empresa pública
municipal controla energia, lixos, água, banda larga, aquecimento, frio e não
sei que mais.
E assim se passou esta primeira jornada que
termina daqui a pouco com jantar de grupo. Por isso pouco tempo para o blogue e
certamente sem poder assistir ao mais que provável afastamento do glorioso SLB
da Liga dos Campeões e se não tivermos juízo da Liga Europa.
CLARO QUE PODEMOS?
Blogar não é só, nem principalmente, seguir o quotidiano mas também assinalar os momentos de potencial viragem que se vão perscrutando. Daí esta referência à última sondagem sobre intenções de voto em Espanha, disponibilizada domingo, em que o novíssimo “Podemos” (criado há oito meses e liderado por um politólogo de 36 anos, Pablo Iglesias) surge premonitoriamente à frente do PP e do PSOE. Um forte sinal de alerta para o bipartidarismo até agora reinante e mais um elemento a ter em devida conta – este certamente menos gravoso do que outros que vão emergindo ou ganhando asas – na mudança de paisagem política que parece tornada irreversível nesta Europa enconchada e em sério risco de autismo...
RUI ALEIXO
Porque será que, neste mundo cão em que nos é dado viver, as alegadas virgens só começam a deixar de ser vistas como tal depois de muito abençoadas pelos crentes e/ou sabujos e de muito usadas e abusadas pelos praticantes de outros interesses?
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